Entrevistei o “Menino do Acre” certo

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Recentemente o Brasil inteiro ficou agitado por causa do desaparecimento de Bruno Borges, nomeado de “Menino do Acre”. No início era uma grande história, mas agora tudo indica que foi só uma jogada de marketing para vender livros. Então a verdadeira grande história do Acre em 2017 é outra: o Atlético-AC surpreendeu o Brasil e conquistou uma vaga na Série C de 2018.

Para entender como isso aconteceu o Última Divisão entrevistou Weverton, que pode ser chamado de verdadeiro “Menino do Acre”. Ele está no Atlético-AC e já passou por outros quatro times do estado: Galvez, Juventus, Plácido de Castro e Vasco.

Weverton contou que nenhum desses clubes tem uma estrutura comparável com a do Rio Branco. Não porque lá tenha algum luxo. Mas porque tem coisas básicas, como restaurante, academia, piscina e campo no clube. Todos outros precisam improvisar.

E foi em um desses improvisos que o Atlético-AC chamou atenção primeiramente: após treinar no campo B da Federação Acreana de Futebol, Weverton e os companheiros de equipe entraram em um caixa d’água abandonada para fazer recuperação muscular com gelo. A foto desse momento gerou muita repercussão nas redes sociais, quase sempre com elogios aos jogadores, que superaram essas estruturas precárias e se destacaram em campo.

Weverton está tão acostumado com a falta de estrutura que até brinca: “a caixa mal cabe dois jogadores, mas o jeito é fazer nela mesmo. É bom que é uma resenha a mais (risos)”. Enquanto dois jogadores ficam na caixa, outros esperam ao redor e isso fortalece o Atlético-AC: “o momento na caixa ajuda na nossa união. Aqui é como se fosse uma família. A caixa de gelo é uma coisa a mais. A gente conversa e fica naquela brincadeira pós-jogo”.

A repercussão daquela cena motivou o Atlético-AC: “primeiro rolou a matéria no Globo Esporte local. Logo depois alguns amigos meus de fora do estado começaram a mandar mensagem falando da foto na caixa com gelo. Aí vi que realmente a imagem estava rolando pela Brasil todo, passando em vários canais de TV pelo Brasil. Isso nos motivou bastante. Teve muitas mensagem de algumas pessoas de fora nos dando força, falando que um time que chega em um acesso para Série C com essa estrutura eram uns verdadeiros guerreiros”, lembrou Weverton, que também ouviu piadas sobre o caso, mas prefere levar “na boa”.

E as histórias de superação do Atlético-AC não acabam aí. Antes do jogo contra o Trem-AP, em Macapá, o time teve que fazer um treino em praça pública. O estádio não foi liberado para a equipe visitante, como costuma acontecer em muitos jogos na Série D. Posteriormente, contra o Gurupi, o time passou por algo parecido e treinou na parte de trás do hotel, em um espaço muito pequeno.

Mas engana-se quem pensa que não há nada de bom no futebol do Acre. “Os estádios são uns dos melhores do Brasil. Temos a Arena da Floresta e o Florestão. São dois ótimos estádios. A federação sempre recebe elogios sobre eles”, destaca Weverton.

E não são poucas pessoas que menosprezam o futebol acreano: “Quase todos os times menosprezam os times acreanos. Já ouvimos muito isso de que íamos perder os jogos, que nosso time não tem capacidade de chegar em lugar nenhum. Mas mostramos dentro de campo. Estamos aí há dois anos surpreendendo o Brasil todo”, lembra Weverton, pois o Atlético-AC já tinha feito uma boa campanha na Série D de 2016 e batido na trave.

Arena da Floresta
Arena da Floresta

 

A folha salarial do Atlético-AC gira em torno de R$ 60 mil. E até isso vira provocação em campo: “às vezes, quando vamos jogar fora, os torcedores falam que com essa folha salarial nosso time não passa nem da primeira fase. Mas nada nos abala. Damos a vida em cada jogo para honrar nosso pequeno salário”, relata Weverton.

Para melhorar a situação do futebol no Acre – e em muitos outros estados – só há uma solução: dar calendário para que os times joguem durante o ano todo. Seria ótimo para o time se organizar e principalmente para os jogadores não ficarem desempregados.

Gloria Deussss CAMPEÃO ACREANO 🏆🙏🏼

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Weverton, por exemplo, não consegue viver só de futebol justamente por causa disso. Ele dá aulas de natação durante a manhã, vai treinar à tarde e faz faculdade de educação física à noite. É uma jornada tripla que só aumenta a importância da conquista do Atlético-AC.

Mas é claro que ninguém quer continuar com essa rotina. O acesso deve permitir que todos se dediquem somente ao futebol, até porque a exigência vai aumentar. O Atlético-AC poderá enfrentar times tradicionais do Norte e Nordeste na Série C. Hoje estão por lá Fortaleza, Remo e CSA, por exemplo.

A saga dos “Meninos do Acre” está só começando. E com certeza a história deles não é só marketing. Não tem livros, estátua e nem desaparecimento. É a história do futebol brasileiro de verdade.

 

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