Entenda por que a Série C vem se tornando o pior torneio do Brasil

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Esqueça as questões entre Fluminense e Portuguesa na Série A do Campeonato Brasileiro. Esqueça competições estaduais ou a Copa São Paulo de futebol júnior. Nenhuma competição no Brasil é tão judiada, esculhambada, maltratada, achacada, molestada e atacada quanto a Série C do Campeonato Brasileiro.

Enquanto a primeira divisão nacional sofre com as questões extracampo que decidem quem estará no torneio em 2014, a terceira divisão brasileira vive historicamente com liminares e mais liminares que mudam a toda hora o que está em jogo. Mesmo com um torneio de respitável potencial (graças às presenças de grandes torcidas e da fraca presença dos jogos na televisão a nível nacional, por exemplo), a Série C ainda demora a cair nas graças do público. E não é difícil entender o porquê.

Para quem pensa que o histórico ruim da Série C é recente, o blog reuniu os seis principais casos de canetadas da simpática terceira divisão nacional. Rebaixados que não caíram e promovidos que não subiram tornam a “Terceirona” um torneio bem menos atraente do que deveria ser – resultado justamente de grande número de ações judiciais. E a lista de culpados é maior do que uma primeira análise poderia indicar.

Relembre os piores casos:

2008: Rio Branco-AC x Duque de Caxias

Surpresa da Série C de 2008, o Duque de Caxias foi um dos oito clubes que se garantiram na fase final da competição, na qual Atlético-GO, Guarani, Campinense, Duque de Caxias, Águia de Marabá, Brasil de Pelotas, Confiança e Rio Branco se enfrentaram em turno e returno (14 jogos) para definir os quatro promovidos. Na estreia, o Duque não decepcionou e venceu o Confiança por 3 a 1.

A coisa complicou na segunda rodada, quando o time foi ao Acre enfrentar o Rio Branco. No fim do jogo, com placar de 2 a 2, vários jogadores com time do Rio de Janeiro começaram a sentir lesões em campo, levantando suspeitas de “cai-cai”. O time visitante já havia perdido três jogadores (Renatinho, Douglas Silva e Tica) por expulsão.

Entretanto, o árbitro do jogo, Rosinildo Galdino da Silva, não gostou do que viu e colocou na súmula do jogo que o goleiro Borges e o atacante Edvaldo simularam lesões diante de ordens do técnico Marcelo Buarque, que estaria tentando ganhar tempo. Como o julgamento apontou que o Duque não reunia as mínimas condições de jogo, foi considerado derrotado (3 a 0).

Foi aí que surgiu um terceiro interessado: o Vitória da Conquista, 21º colocado da Série C de 2008. Como a CBF havia decidido reformular a Série C em 2009, a competição passaria a ter os 20 melhores clubes da edição de 2008 (na verdade, os quatro rebaixados da Série B de 2008 e mais os 16 times entre a 5ª e a 20ª colocação). E como o Duque seria excluído, o Conquista chegou a pleitear a vaga.

Quando o julgamento do caso foi parar no Pleno do STJD, o Duque acabou inocentado e teve sua exclusão descartada – a punição a jogadores e ao treinador foram mantidas. Melhor para a equipe tricolor, que terminou o octogonal em quarto lugar e garantiu o acesso ao lado de Atlético-GO, Guarani e Campinense. O Rio Branco foi oitavo, e o Vitória da Conquista não conseguiu sua vaga.

2011: Brasil de Pelotas x Santo André

Já eram novos tempos na Série C, que era disputada pela terceira vez seguida por 20 clubes. Segundo o regulamento, a primeira fase tinha quatro grupos com cinco times cada – o lanterna de cada chave era rebaixado, enquanto os dois primeiros iam para a segunda fase. Para cortar custos, os times eram distribuídos de forma regionalizada.

Naquele ano, o grupo “do Sul” tinha Chapecoense, Joinville, Caxias, Brasil de Pelotas e Santo André. Na primeira rodada, o time paulista recebeu o rival de Pelotas no Estádio Bruno José Daniel e foi derrotado por 3 a 2. O duelo colocaria frente a frente dois candidatos ao rebaixamento para a Série D.

Nas quatro primeiras rodadas, o Brasil conseguiu duas vitórias e um empate (além de folgar em uma rodada). Porém, perdeu quatro jogos nas cinco rodadas seguintes (com mais uma folga). Assim, chegou à última rodada sem poder vacilar. O adversário: o Santo André, lanterna do grupo. As duas equipes tinham sete pontos cada, mas os pelotenses levavam vantagem no saldo de gols.

O confronto, no entanto, foi decidido pelo STJD antes mesmo do pontapé inicial. Diante de uma denúncia da diretoria ramalhina, o Brasil de Pelotas foi punido pela escalação irregular do lateral direito Claudio na primeira rodada e perdeu seis pontos. Em campo, Brasil e Santo André empataram por 1 a 1, resultado que rebaixaria a equipe paulista.

2011: Rio Branco-AC

Pode ser considerada a raiz da crise que assola a Série C até hoje. O problema inicial: líder do Grupo A da primeira fase, que tinha Rio Branco, Paysandu, Luverdense, Águia de Marabá e Araguaína-TO, o time acreano jogaria a segunda fase do torneio ao lado do Paysandu. Porém, diante da interdição da Arena da Floresta pedida pelo Procon, o clube acreano e o Governo do Acre foram à Justiça Comum pedir a liberação do estádio.

O STJD não gostou daquilo e suspendeu o Rio Branco da competição antes do início da segunda fase. Mesmo suspenso, o clube acreano iniciou sua participação no Grupo E, somando um ponto em três jogos. No entanto, em meio à muitas brigas entre Rio Branco e a justiça desportiva, o time acreano desistiu da disputa e acabou excluído da competição de 2011, então paralisada.

O Luverdense, terceiro colocado do Grupo A da primeira fase (e que não tinha nada com isso), ganhou a vaga e iniciou do zero a disputa do Grupo E. Sem sorte, foi o lanterna da chave na segunda fase e assistiu aos acessos de CRB e América-RN. O Rio Branco então foi o quinto rebaixado para a Série D de 2012, embora não tenha sofrido oficialmente um descenso como Araguaína, Campinense, Marília e Brasil de Pelotas sofreram. Não foi rebaixado, mas foi.

2012 e 2013: Treze-PB x Rio Branco-AC

A Série C de 2012 começou com dois meses de atraso por duas ações simultâneas na justiça. Na primeira delas, o Brasil de Pelotas tentou cassar seu rebaixamento – o Santo André, que cairia no lugar dos pelotenses caso a decisão fosse acatada, conseguiu suspender o torneio no STJD até que o resultado final fosse divulgado. Posteriormente, o Brasil desistiu da ação, jogando a Série D e mantendo os andreenses na Série C, da qual caíram naquele mesmo ano.

O caso mais emblemático, entretanto, envolveu Treze e Rio Branco. Quinta colocada da Série D de 2011, a equipe de Campina Grande entrou na justiça para tentar ocupar a vaga do excluído Rio Branco. Os acreanos tentavam sua inclusão pela via judicial, mas os paraibanos conseguiram inclusive bloquear tais ações.

Com o apoio do STJ, o Treze conseguiu sua vaga na Série C de 2012, enquanto o Rio Branco foi rebaixado para a Série D. Os acreanos recorreram à justiça em 2013, conseguindo recuperar sua vaga durante a disputa da competição – que passou a ter 21 clubes, mas não conseguiu acompanhar o ritmo do Grupo A e acabou rebaixado como lanterna.

Treze corria o risco de ser retirado da Série C de 2013, mas foi salvo graças ao ministro Luiz Fux, do STJ (Crédito: Treze FC/Divulgação)

2013: Betim x Mogi Mirim

O Betim (atual Ipatinga) terminou a primeira fase como o quarto colocado do Grupo B, garantindo presença nas quartas de final do torneio. No entanto, o time foi punido pela Fifa com a perda de seis pontos, referente a uma dívida de 2006 pela transferência do lateral Luizinho, contratado junto ao Nacional (Portugal).

Os mineiros ainda tentaram recorrer ao STJD, mas acabaram excluídos do torneio de 2013 – mas sem rebaixamento, diferente do que aconteceu com o Rio Branco-AC em 2011. O Mogi Mirim (quinto colocado do Grupo B) assumiu a vaga nas quartas de final, e chegou a receber o Santa Cruz em casa para iniciar sua participação no mata-mata.

No entanto, em cima da hora, o Betim conseguiu uma liminar na justiça comum para paralisar a competição – você deve se lembrar das imagens do elenco do Santa Cruz treinando sozinho no gramado em Mogi Mirim, enquanto dirigentes falavam com a imprensa. Aí, sem conseguir derrubar a liminar, a CBF incluiu o Betim nas quartas de final. O time foi então eliminado pelo Santa Cruz com duas derrotas em dois jogos.

Em 2013, Santa Cruz foi a Mogi Mirim, treinoU no gramado (foto)… Mas enfrentou o Betim em MG (Crédito: Jamil Gomes/Santa Cruz FC)

2014: Cianorte

Se eles podem, a gente também pode. Com base no Estatuto do Torcedor, que exige que as competições nacionais tenham o mesmo regulamento por pelo menos dois anos seguidos antes de mudanças, o Cianorte aproveitou-se de uma brecha e exigiu que a Série C de 2014 tivesse 21 clubes, a exemplo do que aconteceu em 2013.

Não por acaso, o time paranaense foi o principal beneficiado de tal medida. Afinal, o 21º clube de 2013 havia sido o quinto colocado da Série D de dois anos antes, conquistando o acesso na justiça. E como foi o quinto colocado de 2012, o time do Vale do Rio Ivaí pleiteou uma liminar para repetir o feito do Treze. E conseguiu.

Liminar garante Cianorte na Série C do Brasileiro de 2014 (Crédito: Reprodução)

Por enquanto, a CBF acatou a decisão judicial. No entanto, até o pontapé inicial do torneio, não se sabe se a Série C de 2014 terá grupos com 10 e 11 times, como no ano anterior.

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