Eduardo Esídio, o Magic Johnson do futebol

Difusión
0 355

Por Guilherme Bucalon

São notórios no futebol brasileiro casos de jogadores que saem do país como desconhecidos e acabam fazendo sucesso nas ligas de outros países. Atletas de origem humilde ou de centro menos populares que tentam ganhar a vida por meio do futebol em centros menos badalados.

Esse é o caso do personagem da nossa história de hoje: Eduardo Esídio, como foi conhecido no futebol, ou Lica, para os mais íntimos em sua terra natal, Santa Rita do Passa Quatro (SP). Primo do notório atacante Nilson, conhecido como o cigano do futebol e que fez sucesso por clubes como Palmeiras, Corinthians, Vasco e Internacional (onde acabou sendo artilheiro do Campeonato Brasileiro de 1988), Esídio começou a dar os primeiros chutes e fazer os primeiros gols no time da sua cidade natal, a Associação Atlética Santa Ritense.

Escudo da Associação Atlética Santa Ritense

Pela qualidade do seu futebol e pela linhagem que possuía, acabou chamando a atenção do União São João de Araras e por lá inicio sua trajetória profissional no ano de 1988. Após dois anos na equipe do interior paulista, perambulou por equipes como Botafogo de Ribeirão Preto,  Juventus, Paulista de Jundiaí e Uberlândia (MG).

Foi então que surgiu o convite inusitado e inesperado de um empresário: ajudar o clube peruano Alcides Vigo a escapar do rebaixamento em 1997. A missão, por mais que falha por parte da equipe de Lima, rendeu destaque ao brasileiro que marcou seis gols em 13 jogos pela equipe, chamando a atenção dos grandes do país.

Edu Esídio então chegava ao time de maior torcida do futebol peruano, o Universitário de Lima, e assim poderia quem sabe mostrar o seu talento e ajudar sua família no Brasil. Contudo, como se não bastasse a adaptação a um novo país —  e o fato de ser negro — , um exame surpresa feito pela equipe que acabara de o contratar trouxe algo novo a sua vida que ele jamais imaginava: Eduardo Esídio era soropositivo.

Eduardo Esidio no Universitario de Lima (Imagem: Difusión)

Naquela época o preconceito com a doença era gigantesco. De quebra, o clube rompeu o contrato com o atacante brasileiro que voltou arrasado para o Brasil. Porém, fez um novo exame e descobriu que tinha um quadro assintomático da doença.

Apoiado por uma lei recém-aprovada no Peru para evitar uma epidemia que, além de focar na prevenção, impedia que pessoas diagnosticadas com HIV fossem demitidas do trabalho, entrou na justiça e, após três meses, com a ajuda do então técnico da equipe, o argentino Osvaldo Piazza, voltou a ser integrado ao grupo.

A FPF (Federação Peruana de Futebol) só deu o aval para o brasileiro após a apresentação de laudos médicos, um deles inclusive assinados pelo ministro da Saúde do país, atestando que a presença do atacante não iria expor outros jogadores ao risco de infecção pelo vírus.

Mesmo com preconceito de jogadores, técnicos, torcedores Esídio estreou em 1998 com a camisa dos Los Merengues ganhando a alcunha da mídia de “Magic Johnson do Futebol”. Foram anos gloriosos na La U e, em 2000, Edu marca o primeiro gol do novo estádio Monumental de Lima ( palco da Copa Libertadores de 2019) até o ápice da carreira do brasileiro: a bola de prata da FIFA de segundo maior artilheiro do mundo em uma liga nacional, atrás apenas de outro brasileiro, Jardel, à época no Porto.

Depois da idolatria na La U e do tricampeonato Peruano , Edu seguiu para o rival Alianza Lima, aonde viria a ser mais uma vez campeão Peruano, no ano de 2001.

Após o sucesso, Edu decidiu retornar ao Brasil e jogou pelo Marília no ano de 2002, antes de mais uma vez vestir a camisa do Universitário naquele mesmo ano. Já em fim de carreira, no ano de 2006, Esídio ainda jogou pelo União Barbarense, clube onde pendurou as chuteiras.

Hoje em dia, Esídio dedica seu tempo a ensinar jovens e crianças da sua cidade natal os passos do futebol, os mesmos que o levaram a superar as adversidades e ter uma carreira exemplar. O Projeto “Futebol Nota 10” é mais um exemplo de um homem que não desistiu e seguiu em frente para se tornar ídolo em um lugar até então improvável.

Eduardo Esídio, Edu, Esídio, Lica, enfim, qualquer que seja o nome pelo qual seja lembrado o atacante canhoto, vindo a pacata Santa Rita do Passa Quatro, mas que superou uma das maiores adversidades da vida, o preconceito, para se tornar ídolo, para se tornar um exemplo.