Do título da Copa do Brasil ao ocaso da quarta divisão de SP: como entender a queda livre do Paulista de Jundiaí?

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Surpreende a aqueles que gostam e acompanham futebol o mais novo representante na Segunda Divisão do Campeonato Paulista – a rigor, o quarto nível do estadual. O Paulista Futebol Clube, de Jundiaí, que em 2005 batia os grandes clubes do país e conquistava a Copa do Brasil, chegou ao fundo do poço 12 anos depois. Com uma rodada de antecedência, foi rebaixado da Série A3 de 2017 para a quarta divisão no pior momento dos seus quase 108 anos de história.

Por diversos motivos, porém, a situação catastrófica não surpreende tanto dentro de Jundiaí. Falta de planejamento, falta de profissionalismo, falta de dinheiro, repetição de discursos e pouco trabalho… Enfim, efeitos que não vieram do acaso.

Vamos relatar e tentar explicar aqui, no Última Divisão, as razões para essa queda livre do Galo da Japy.

1993/2005: Do zero ao sonho

Para explicar como o ano de 2005 e o título da Copa do Brasil chegou em Jundiaí, é preciso voltar a 1993. Disputando a Divisão Intermediária (espécie de segundo nível estadual), o clube vivia uma das maiores crises financeiras de sua história. O fechamento, inclusive, era realidade plausível à época. Sem dinheiro, o Paulista buscou parcerias e encontrou na Magnata, já em 1994, a expectativa da sobrevida, mas a união não deu certo.

Em 1995, porém, a história do Paulista começa a mudar com a assinatura de contrato com a Lousano – mais uma parceria com aporte financeiro total no futebol. A empresa montou um elenco forte já com a competição em andamento e conquistou o vice-campeonato, mais o acesso à recém-criada Série A2 do Campeonato Paulista. Ainda com o nome de Lousano Paulista, o clube jundiaiense conquistou a Copa São Paulo de futebol júnior de 1997.

A parceria chegou ao fim em 1998, mas uma gigante do mercado tomou as rédeas do Tricolor: a italiana Parmalat, que investiu nas categorias de base ena estrutura. O preço, entretanto, foi alto: a identidade do então Paulista foi comprometida para a revelação do novo nome da equipe: Etti Jundiaí.

Mesmo sob protestos da torcida, a equipe encantou dentro de campo e, em 2001, conquistou o título da Série A2, acesso à Série A1, e do Campeonato Brasileiro da Série C. Com a falência da empresa de laticínios, entretanto, o Galo passou um ano se chamando Jundiaí FL e, após um plebiscito na cidade, voltou a ser Paulista.

O legado deixado pela Parmalat deu lucro nos anos seguintes, com grandes campanhas na Série B do Brasileirão (com direito ao 5º lugar em 2006, empatando em pontos com o promovido América-RN), o vice-campeonato paulista de 2004 e, claro, o título da Copa do Brasil de 2005. Importante ressaltar também a participação histórica na Copa Libertadores de 2006, com direito a vitória sobre o River Plate.

(Crédito: Gustavo Amorim)

Até para entender o 2017, não é possível falar do atual momento do Paulista sem esta contextualização.

Por todo esse meio tempo de grandes equipes e conquistas, um problema sempre foi comum em Jayme Cintra: salários atrasados. A demora, que era de dias, passou-se a meses. Dívidas começaram a se acumular a sair do controle. Em 2007, mesmo com uma das maiores folhas salariais da Série B do Brasileiro, acabou rebaixado na competição. Começou, então, a derrocada do Galo. A má campanha na primeira fase da Série C de 2008 custou a queda à Série D em 2009. Nova má campanha e o clube ficou sem divisão e calendário nacional depois de nove anos.

Falta de planejamento, falta de profissionalismo, falta de dinheiro. Os mesmos argumentos voltaram à tona – tanto do lado da torcida, como da imprensa e da própria diretoria. Presidente desde a entrada da Parmalat, Eduardo Palhares deixou o comando do clube para torcedores assumirem o posto.

Anos antes, porém, mais uma parceria chegou a Jundiaí: o projeto Campus Pelé, agraciado pelo Rei do Futebol e bancado pelo Banco Fator. Na prática, a instituição comprou boa parte (se não a maioria, os números não são públicos) de jogadores das categorias de base do Paulista. Com o montante em mãos, e a gerência de João Paulo Medina (que foi a introdução ao que hoje é a Universidade do Futebol), o projeto era tornar o Galo de Jundiaí modelo – de organização, de infraestrutura, de política, de formação e também tecnicamente. Entre os projetos, uma espécie de “universidade” também para revelar funcionários, treinadores, gestores, “gente do futebol”. Porém, por razões nunca explicadas (há processos tramitando na justiça até hoje), o projeto não vingou.

A cidade não ajuda”

Há anos, tanto o Conselho como a Diretoria do Paulista são formados, em sua maioria, por empresários da cidade de Jundiaí. Porém, também há muitas administrações, o discurso adotado pelos comandantes para explicar a falta de dinheiro é o pouco apoio da cidade. Na época de ouro, tanto com a Lousano como com a Parmalat, as empresas não eram de Jundiaí. Ex-funcionários afirmam que esse “esquecimento” da região na época de vacas gordas atrapalha até hoje na construção de uma nova rede de empresas parcerias. Por outro lado, não se vê a vontade de resgatar a boa convivência com essas entidades, que têm fins lucrativos e não vão simplesmente “ajudar” um clube.

De inovador à falta de profissionalismo

Futebol, como se sabe, não é mais gerido de “favor”. Parte da parcela de culpa também está associada à falta de profissionalismo no clube. Hoje, o futebol clama por gestões responsáveis. Não há, por exemplo, projetos ligados à área de marketing. O Paulista, que se tornou clube-empresa quando quase nenhuma equipe tinha essa preocupação e colocou projetos de inovação em andamento, atualmente beira o amadorismo.

Insistência em parcerias e a busca pelo “mecenas”

Sem projetos que atraiam empresas da cidade/região para dentro, também aliada ao pouco profissionalismo, a busca por um mecenas se tornou constante pelo lado de Jayme Cintra. Entra ano e sai ano, entra diretoria e sai diretoria, há o discurso repetitivo de que negociações estão sendo conduzidas com algum “salvador da pátria”, que coloque dinheiro próprio no Paulista e renove o clube. Talvez apoiado no histórico Magnata/Parmalat, essa busca incessante só gera problemas. Em 2016, o português Paulo Fernandes assumiu o comando técnico prometendo muito dinheiro, que nunca foi visto no estádio. Um erro que, ao fim da Série A2 daquele ano, custou o rebaixamento da equipe.

R$ 30 milhões em dívidas e penhora do estádio; Proximidade do fim?

(Crédito: Gustavo Amorim)

Após todos esses mandos e desmandos, como dito antes, era apenas questão de tempo para o abismo chegar. A dívida, hoje, gira em torno de R$ 30 milhões. Por conta desse montante, o estádio está penhorado e foi posto em leilão no mês de março. Os lances terminam na última semana de abril, e não há definição do que pode acontecer.

O fim, entretanto, não deve acontecer – apesar de plausível. Torcedores mais uma vez estão se organizando para assumir o clube. Há boa vontade de conselheiros em, ao lado destes torcedores, criar um novo estatuto para profissionalizar o clube. Resta saber se, agora, a mudança será de vez. E não apenas paliativa.

(Crédito: Gustavo Amorim/TorcidaJundiaí.com.br)
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