Dez diálogos (improváveis) sobre futebol na Namíbia

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Em janeiro deste ano fui à Namíbia, país africano com fronteira com Angola e África do Sul, para trabalhar em um projeto de TV. Tinha me preparado para ficar um mês inteiro longe da civilização, acampado no meio da savana africana, mas, por sorte, tive alguns dias na capital Windhoek e tratei de correr igual louco atrás de futebol (basicamente, o mesmo que sempre faço quando chego em algum lugar que não conheço). Abaixo, selecionei 10 diálogos que tive com locais que mostram, entre outras coisas, como o futebol, hoje globalizado, atinge e influencia regiões com pouca tradição (mas muito amor) nesse esporte.

1. Com um taxista, no centro da cidade:
– Andei pela maioria das ruas e galerias e já encontrei camisas do Che Guevara, Gandhi, Martin Luther King e até do Kadafi, mas nada de futebol.
– Mas nós temos várias aqui, não é difícil encontrar.
– Sério? Queria uma do Orlando Pirates ou do African Stars, mas qualquer outra serve..
– Mas porque você quer essas camisas? Aqui só vai encontrar do Barcelona, Chelsea, Real Madrid…

2. Em uma livraria no centro:
-Vocês tem algum livro sobre futebol na Namíbia?
-Acho que isso nem existe…

3.
– Eu também gosto de times menores, tipo segunda divisão. Existe isso aqui?
– Acho que sim.
– É difícil conseguir a camisa de algum destes times?
– Impossível, nem os próprios jogadores devem ter.

4. Com a garota da loja de discos do maior shopping do centro:
– Pelo amor de Deus, me ajuda. Queria uma camisa de algum time namíbio. Você sabe onde encontrar?
-Acho difícil…
-E da seleção nacional?
-Impossível. Um tempo atrás nós estávamos empolgados com a nossa seleção, queríamos apoiar o time para jogar a Copa das Nações (Africanas), mas ninguém aqui encontrava camisas.

5. Passeando por um bairro de classe média alta (e quase exclusivamente de brancos):
– É aqui que moram os jogadores de futebol?
– Não.
– Onde eles moram? Eles tem grana, certo?
– Eles são pessoas normais, trabalham além de jogar futebol.
-Sério?
– Eles ainda tem sorte porque mais da metade da população aqui é desempregada.

6. Já no gramado do maior estádio do país, o Independence Stadium. Após ter invadido o local por um portão semi-aberto, aparece um cara mal encarado, aparentemente da limpeza:
– O que você está fazendo ai?
– Oi, eu sou jornalista, venho do Brasil. Marquei de encontrar a pessoa que cuida do estádio, mas esqueci o nome dele… (uma grande mentira só pra não ser jogado aos leões)
– Tenta no outro portão, mas não tem ninguém aqui.

7.
– Futebol é popular aqui? Você gosta de futebol?
– Nós adoramos futebol.
– Que time você torce?
– Barcelona.
– Não, tô falando de time namíbio…
– Só o Barcelona mesmo.
– Você deveria ter um time local, mas enfim… eu torço pro Santos

(silêncio)

– “Vocês” meteram quatro a zero no Santos no Mundial…
– Que Mundial?

8.
– Engraçado ver que todos os homens da tribo Himba usam moicanos. No Brasil esse corte está famoso por conta do Neymar, do Santos.
– Neymar? Ele é famoso? Nunca ouvi falar.

9.
– Sério que você nunca ouviu falar do Neymar?
– Nunca.
– Ganso, Pato?
– Não… nós gostávamos do Ronaldo. Naquela Copa do Mundo, todos os garotos aqui cortaram o cabelo como o dele (o famoso corte do Cascão). Você andava pela cidade e via todo mundo com aquele corte. Esse estilo é comum lá no Brasil?
– Felizmente não.

10.
– Desculpa pelo meu inglês. Eu sou do Brasil, falo português, mas tem gente de vários lugares comigo e às vezes falamos espanhol ou tentamos o dialeto Himba, que estou tentando aprender. Está uma grande confusão na minha cabeça…
– Tudo bem, eu te entendo. Difícil mesmo era entender aquele técnico de vocês, o Joel Santana.

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