Desrespeito e birra geraram livro alternativo sobre o Corinthians

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Quando o Corinthians completou 100 anos de histórias, em 2010, teve muitos motivos para comemorar. Mas um episódio polêmico ficou escondido no meio das festas e celebrações. Um ato de desrespeito gerou mágoa e birra, mas pelo menos isso foi canalizado para um livro interessante e alternativo. A obra “Prazer Adversário” é uma biografia às avessas, que conta as 100 derrotas mais implacáveis da história do Timão.

O livro foi escrito por Sebastião Corrêa Porto e tem uma origem curiosa: em 2009, o autor tinha o projeto de escrever um livro sobre vitórias do Corinthians. Mas, segundo ele, houve um desentendimento lamentável. E a partir daí surgiu a ideia de fazer outra pesquisa, na qual ele encontrou as grandes goleadas sofridas pelo Corinthians em clássicos (8 a 0 para o Palestra Itália e 4 a 0 para o São Paulo, por exemplo) e também narrativas surpreendentes, como uma derrota bastante suspeita para a Portuguesa.

Sebastião deu uma entrevista para o Última Divisão, contou com detalhes essas histórias, comentou sobre a venda do livro e até opinou de forma polêmica sobre o momento atual do Corinthians, que disputa o título do Campeonato Brasileiro de 2017.

Última Divisão: Sua intenção inicial era fazer um livro sobre vitórias do Corinthians, mas houve um problema com a diretoria. O que aconteceu exatamente?

Sebastião: fui procurado em 2009 por uma amigo jornalista e corintiano fanático, dizendo que gostaria de escrever um livro para o centenário do Corinthians, destacando algumas partidas decisivas para fazer do Corinthians um grande time de massa. Disse-me ele ainda que gostaria que o livro contasse com o apoio do Departamento de Marketing do Corinthians. Na ocasião, por coincidência, um dos diagramadores aqui na editora tinha um tio-avô no Conselho do Corinthians, por sinal o conselheiro mais idoso (Miguel Lamota), que curiosamente tinha exatamente a mesma idade do clube, 99 anos.  Esse senhor, generosamente, se ofereceu para agendar uma reunião com o Departamento de Marketing, mas o tempo passava e ela nada conseguia. A situação foi ficando cada vez mais constrangedora, até que finalmente conseguiu agendar para nós uma reunião. Quando lá chegamos fomos atendidos por uma estagiária que recebeu nosso projeto e ficou de dar um retorno em uma semana; retorno que até hoje não chegou. Diante dessa situação, o jornalista amigo desistiu do projeto, mas eu fiquei puto da vida pelo desrespeito.

Última Divisão: Como surgiu então escrever sobre as 100 derrotas implacáveis?

Sebastião: Como a intenção inicial de meu amigo jornalista era selecionar uma série de partidas que considerava emblemáticas na “construção do grande Corinthians”, resolvi seguir o mesmo escopo: selecionar 100 derrotas implacáveis do Corinthians em 100 anos de existência. Assim o prazer não seria do corintiano, mas sim do santista, do palmeirense, do são-paulino, do flamenguista, etc…

Última Divisão: Você soube de alguma reação do Corinthians sobre o livro?

Sebastião: O lançamento foi na Bienal do Livro de 2010. Muitos corintianos compraram por impulso. Viam o nome Corinthians na capa e compravam sem saber o que estavam comprando. Outros, mais avisados, percebiam que se tratava de uma “biografia pelo avesso”, mas compravam ainda assim, pois reconheciam tratar-se de uma história verdadeira. Mas muitos corintianos chegaram a escrever ou ligar para a editora com ameaças, detratando a editora e o autor, chamando-nos de ignorantes e dizendo que nos arrependeríamos. Quanto ao clube, nenhuma reação, salvo o fato de alguns conselheiros terem comprado.

Última Divisão: Por motivos óbvios não é um livro que muitos corintianos gostam de ler. Então qual público você quis atingir ao escrevê-lo?

Sebastião: A intenção inicial não era vender muitos livros, mas sim “dar uma resposta” ao descaso do clube ao projeto inicial. Escrevi de birra e me diverti muitíssimo pesquisando aspectos históricos, até então nunca revelados, da trajetória de 100 anos do Corinthians. O livro se encontra na 2ª edição. Compraram principalmente santistas, palmeirenses e são-paulinos.

Última Divisão: Qual é a derrota mais implacável desses 100 anos?

Sebastião: A derrota mais implacável foi, sem dúvida, a de 8 x 0 para o Palestra Itália, em 1933. No entanto, dez anos antes, o Corinthians, jogando com 12, fora humilhado pela Portuguesa dos Desportos, pelo placar mentiroso de 1 x 0.  O árbitro “comprado” avançou todos os limites para fazer o Corinthians ganhar. Foi um verdadeiro escândalo, com os pais envergonhados e preocupados com a formação moral dos filhos. Obrigaram que os mesmos deixassem o estádio antes do final da partida. Parte do público mandou chamar o bispo, o delegado, o facínora, qualquer um que pudesse por um fim àquela situação vergonhosa.

Última Divisão: Qual é a história de derrota mais curiosa que você escreveu no livro?

Sebastião: Em minha pesquisa consegui localizar muitas histórias de derrotas curiosas. Para citar apenas uma, relembro a derrota de 4 x 0 para o São Paulo em 1944, quando nasceu para o Brasil a famosa e antológica “roda de bobinho”. O time do Corinthians ficou tanto tempo sem tocar na bola que a torcida começou a se manifestar, chamando os jogadores do próprio time de “bobinhos”.  Em poucos anos essa expressão estava disseminada por todo território nacional.

Última Divisão: Depois do centenário, nos últimos seis anos, aconteceram mais derrotas tão implacáveis quanto aquelas descritas no livro?

Sebastião: Sim, certamente. Basta lembrar a derrota para o Tolima. Esse time, até então completamente desconhecido no Brasil, tornou-se para os brasileiros sinônimo de fracasso vergonhoso.

Última Divisão: Acredita que o Corinthians vai disputar o título do Campeonato Brasileiro até o fim nesse ano?

Sebastião: O futebol é imprevisível em termos das imoralidades que pode promover. Está sempre um passo à frente da sociedade. O Corinthians, por sua vez, vem se especializando cada vez mais nesse sentido. Basta ver como conseguiu “ter” finalmente seu próprio estádio. São muitos títulos conquistados de forma mais do que suspeita. O livro relembra muitas dessas “conquistas”. Por esse lado não duvido que o Corinthians possa “conquistar” o Campeonato Brasileiro desse ano, mas não tem plantel para tanto.

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