Deportivo Morón, o nanico argentino que está a dois jogos da Libertadores

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O galo, mascote que remete ao “gallo de Morón” (uma figura folclórica espanhola), está presente no símbolo da equipe

A Copa Argentina ainda é uma novidade. A competição, que chegou a ser jogada nos anos 70, perdeu credibilidade quando sua segunda edição não teve campeão por problemas de calendário. Foram mais de 4 décadas sem que os argentinos tivessem um torneio importante de mata-mata, até que ela retornasse em 2011.

Desde então, alguns times pouco badalados já conseguiram chegar entre os quatro melhores – como o Deportivo Merlo, o All Boys e o Atlético de Rafaela. Nenhum deles, porém, pode ser comparado ao Deportivo Morón, semifinalista deste ano. Essa é certamente a maior zebra da história do campeonato, mostrando ao nosso país vizinho – onde a cultura dos pontos corridos vem de longa data – um dos principais charmes das disputas eliminatórias.

Pouco conhecido na própria Argentina, o clube está a apenas duas partidas de se internacionalizar. Basta se classificar nos dois próximos confrontos na Copa Argentina (todos disputados em jogo único) para alcançar uma inacreditável Copa Libertadores e conquistar seu primeiro título de expressão. O próximo desafio é no dia 12 de novembro, quando enfrentará o poderoso River Plate em campo neutro (no estádio Malvinas Argentinas, em Mendoza). O que dá esperanças para um triunfo é o retrospecto do Morón até aqui: na competição, eliminou quatro equipes da Primeira Divisão Nacional.

O carrasco dos times da elite
O “Gallo” começou a campanha na Copa Argentina derrotando o Patronato, por 2 a 0, no Estádio Florencio Sola, em Banfield. Na fase seguinte, alcançou seu feito mais incrível, superando o San Lorenzo por 1 a 0 – com um gol de Guzmán no fim -, no Estádio Ciudad de Lanús (justamente o palco da final da Libertadores deste ano). Nas oitavas de final, empatou sem gols com o Unión de Santa Fé, no Estádio Juan Domingo Perón (campo do Racing, em Avellaneda), mas avançou nos pênaltis.

Vitória contra o San Lorenzo foi a mais marcante na Copa Argentina, que só teve triunfos contra times da Primeira Divisão

Nas quartas de final, novamente no Estádio Ciudad de Lanús, a vítima foi o Olimpo, outro time da elite que caiu por 1 a 0 (um gol de cabeça de Javier “Bicho” Rossi). Com a classificação para as semifinais, a pequena equipe recebeu um prêmio de 1,4 milhão de pesos (equivalente a cerca de R$ 270 mil), verba que demonstra a grande diferença de cifras do futebol argentino para o brasileiro. Ainda assim, uma quantia extremamente importante para um clube que começou a Copa Argentina na Primera B Metropolitana (liga regionalizada, equivalente à terceira divisão) e, em paralelo à grande campanha no mata-mata, conseguiu um título e o acesso para a Primera B Nacional, a segundona, que recentemente teve gigantes como Independiente, Rosario Central e o próprio River, o próximo rival.

Caso consiga superar os Millonarios, o Morón enfrentará o vencedor de Rosario Central e Atletico Tucumán na grande decisão. O regulamento da Copa, toda disputada em jogos únicos e campos neutros, torna bastante imprevisível o desfecho desse conto de fadas. Se o time de Rosario avançar, haverá um outro componente especial: os canallas amargam três vices seguidos no campeonato (perdendo as últimas decisões, respectivamente, para Huracán, Boca e River Plate).

O “alfajor de frango”
Fundado em 1947, o Deportivo Morón representa a cidade mesmo nome, um município de cerca de 90 mil habitantes na grande Buenos Aires (cujo nome não pode ser confundido com a palavra “moron“, que significa algo como “idiota” em inglês). Na verdade, a piada mais comum com a equipe é feita em bom espanhol: os torcedores dos rivais (principalmente o Almirante Brown, com quem faz o “Clássico de la Zona Oeste“) aproveitam o fato do mascote do clube ser um galo e o chamam de “alfajor de pollo” – literalmente, alfajor de frango, uma iguaria que não existe.

Maior rival é o Almirante Brown, hoje na terceira divisão, da cidade vizinha Isidro Casanova

O Deportivo Morón existe e é muito tradicional, mas sempre foi figurante no futebol. Ao contrário do seu time de vôlei, hoje na elite nacional, “el gallo” com a bola nos pés só jogou a primeirona uma vez, em 1969 – graças uma repescagem criada no fim dos anos 60, que permitiu um acesso com a 6ª colocação em um grupo de dez times (os outros nove foram Almagro, Atlanta, Ferro Caril Oeste, Gimnasia La Plata, Nueva Chicago, Platense, Quilmes, Tigre e Unión Santa Fé).

O Campeonato Metropolitano (equivalente à primeira divisão) de 1969 foi dividido em dois grupos de onze times. O Morón terminou como vice-lanterna na Chave B, apenas à frente do Los Andes, e retornou à liga inferior com 5 vitórias, 3 empates e 14 derrotas (e um saldo negativo de 22 gols). Seus triunfos foram contra Newell`s Old Boys (1×0), Huracán (3×2), Argentinos Juniors (fora e dentro de casa: 1×0 e 2×1) e Los Andes (3×2, também como visitante).

Página do jornal La Nación relata o histórico acesso do Morón em 1968 – única vez que chegou à elite argentina

As décadas seguintes foram de alternâncias entre a segunda e terceira divisões, às vezes chegando perto de cair para a quarta (onde esteve apenas nos anos 50). Já neste século (quase inteiro passado no terceiro escalão), o clube conheceu seu maior ídolo da história: o atacante Damián Akerman, recordista em gols (153) e jogos (309) com a camisa do Gallito.

Números que ainda serão ampliados, já que, aos 37 anos, Akerman – conhecido como “El Tanque” – retornou em 2017 para a quinta passagem no time da sua vida. Ele já tentou a sorte em lugares como o Gimnasia La Plata, o Deportes La Serena (Chile) e o Blooming (Bolívia), mas sempre volta para o estádio Nuevo Francisco Urbano.

Um novo estádio para novos tempos?
Aliás, o campo do Morón também merece destaque nessa apresentação internacional da equipe. Com capacidade para 30 mil pessoas, ele foi inaugurado em 2013 como símbolo do sonho de subir de patamar (o que, de fato, vem acontecendo). Veio para substituir o antigo estádio Francisco Urbano, onde cabiam pouco mais de 15 mil torcedores e que foi casa alvirrubra por 57 anos. Deixou de ser utilizado em 2012, quando uma forte chuva destruiu boa parte das suas instalações. Como outro estádio já estava sendo construído, a reparação foi apenas parcial.

Torcida lota o Nuevo Francisco Urbano, estádio com capacidade para 30 mil torcedores – à altura dos altos sonhos da equipe

A ascensão parece ser bastante sólida. Ser campeão da Copa Argentina e jogar a Libertadores de 2018 ainda é um sonho difícil, dada a grandeza dos rivais na reta final, mas não há dúvidas de que o Morón tem tudo para continuar evoluindo e talvez voltar à elite nacional em breve. Uma das chaves para esse sucesso é a forte categoria de base, que recentemente revelou nomes como os meias Diego Perotti (hoje na Roma), Hugo Campagnaro (no Pescara, ex-Napoli e Inter de Milão) e Román Martinez (titular do surpreendente Lanús).

Outro fator positivo é o forte carinho que os argentinos vem nutrindo pelo clube, agora começando a ser notado. Essa afeição não é novidade para a torcida do Tigre (o rival do São Paulo na conturbada final da Sul-Americana de 2012), que mantém uma relação de cooperação mútua com os fãs do Morón desde os anos 70.

Em fim de carreira, o recordista Damián Akerman retornou ao Morón para participar (ainda que não sempre como titular) do histórico ano de 2017 para o clube
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