Copa de 2002: o que você fez além de sucesso, Ahn?

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A Coreia do Sul disputou a Copa do Mundo pela sexta vez em sua história ao sediar o torneio de forma conjunta com o Japão, em 2002. Nas cinco anteriores, nem sequer havia vencido uma partida. Mas quando começou a edição na Ásia, parecia que a Coreia não ia parar mais. Derrotou Polônia, Portugal e Itália, além de empatar com Polônia e Espanha – neste último jogo, avançou nos pênaltis para as semifinais, onde foi eliminada. Na mais emblemática daquelas vitórias, diante da Itália, o nome que escreveu a história foi Ahn Jung-Hwan.

Ahn nasceu em 27 de janeiro de 1976, em Paju. A cidade, ao norte do país, é conhecida atualmente por dois motivos: além de ser a sede do centro de treinamentos da Associação de Futebol da Coreia (KFA), é também o último centro urbano antes da chamada Zona Desmilitarizada (DMZ) que separa o país da Coreia do Norte. Paju ainda é a cidade natal de importantes nomes da cultura coreana, como o poeta Kim Young-Moo e a atriz Choi Ji-Woo. Foi ali onde Ahn começou a dar seus primeiros petelecos a gol.

Ahn começou a levar a carreira mais a sério quando foi atuar na Universidade de Ajou, onde jogou entre 1995 e 1997. No ano seguinte, profissionalizou-se para defender o Busan Daewoo Royals. Em pouco mais de dois anos com a equipe, de 1998 a 2000, foi duas vezes indicado para a seleção da K-League (1998 a 1999) e escolhido como o melhor jogador da competição (1999). No total, foram 54 jogos e 27 gols do atacante, com média de um gol a cada dois jogos.

As atuações chamaram a atenção do Perugia (Itália), que o contratou para disputar o Campeonato Italiano na temporada 2000/2001 por empréstimo. Ahn demorou para marcar o primeiro gol, mas quando o fez, caiu nas graças da torcida: em 21 de abril de 2001, o Perugia perdia em casa para a Atalanta por 2 a 1, mas coube ao atacante coreano empatar o duelo em 2 a 2 nos acréscimos. Uma semana depois, enquanto seu time perdia por 3 a 0 fora de casa para o Bari, fez mais um e iniciou uma incrível reação, que terminou com a vitória de virada por 4 a 3. Os gols do Perugia foram todos marcados após o intervalo.

Ahn ainda marcaria outros dois gols na temporada, ganhando espaço na equipe – o Perugia terminou a temporada em 11º lugar. O time subiu para oitavo na temporada seguinte, mas Ahn fez apenas um gol (3 a 1 contra o Verona em 27 de janeiro de 2002). A situação não era das melhores, mas apenas piorou ao fim da temporada, quando Ahn foi convocado pelo técnico holandês Guus Hiddink para defender a Coreia do Sul na Copa do Mundo de 2002.

O camisa 19 marcou dois gols no Mundial. O primeiro foi em 10 de junho, no jogo diante dos Estados Unidos pela segunda rodada do Grupo D. Clint Mathis abriu o placar para os americanos no primeiro tempo, enquanto Ahn empatou na segunda etapa. No compromisso seguinte, Park Ji-Sung fez o gol da vitória coreana sobre Portugal, selando a classificação para as oitavas de final.

O segundo gol veio oito dias depois, nas oitavas de final. Coreia do Sul e Itália fizeram no Estádio de Daejeon um dos jogos mais dramáticos daquele Mundial. Logo nos primeiros minutos, Christian Panucci cometeu pênalti em Seol Ki-Hyeon – ele mesmo bateu, mas Gianluigi Buffon defendeu. Mais tarde, aos 18min, Christian Vieri aproveitou a cobrança de escanteio pela esquerda e cabeceou com força para o gol, abrindo o placar.

Os dois lados tiveram boas chances para voltar a marcar, mas a Coreia do Sul só chegou ao empate aos 43min do segundo tempo, em lance com os mesmo protagonistas do pênalti perdido: em cruzamento para a área, Panucci afastou mal, e Seol mandou no canto de Buffon. Festa dos coreanos, que levaram o jogo para a prorrogação.

Foi aí que a história do futebol ganhou mais uma página das mais inacreditáveis. Aos 12min do segundo tempo da prorrogação, Lee Young-Pyo alçou a bola na área pela esquerda, e Ahn subiu mais alto que (um tal de) Paolo Maldini para cabecear no canto de Buffon. Era o gol de ouro da vitória da Coreia do Sul: 2 a 1 e a vaga nas quartas de final.

Classificada até os 43min do segundo tempo, Itália levou o empate e acabou eliminada na prorrogação; vilão dos tricampeões do Ahn, que jogava justamente no futebol italiano (Crédito: Amy Sancetta/AP)

Ahn não marcaria mais gols naquela Copa do Mundo. Nas quartas, os donos da casa avançariam nos pênaltis ao empatar por 0 a 0 com a Espanha. Nas semifinais, foram derrotados por 1 a 0 pela Alemanha. Depois, no jogo pelo terceiro lugar, perderam para a Turquia por 3 a 2. Mesmo assim, milhares de pessoas foram às ruas de Seul para comemorar o feito inédito.

Na Itália, porém, a situação não foi das mais felizes. Ao retornar ao Perugia, Ahn teve seu contrato rescindido pelo presidente, o exótico Luciano Gaucci. “Não pretendo continuar pagando salários a alguém que arruinou o futebol italiano”, disse Gaucci na ocasião. Nos vestiários, o ambiente com os colegas italianos não poderia ser pior – em especial com um deles, o simpático Marco Materazzi.

“Ele chegou ao vestiário um dia e começou a latir diante de mim em frente a todo mundo, dizendo que eu cheirava a alho”, disse Ahn em 2013, em entrevista a um programa de TV da Coreia do Sul. “Eu não entendia o que ele estava dizendo, mas o tradutor – que também era coreano – ficou vermelho e se envergonhou para traduzir as coisas para mim”, completou.

Sem ambiente, Ahn tentou se transferir para outro clube da Europa, mas topou um acerto com o Shimizu S. Pulse para poder deixar o Perugia o mais rápido possível. Ficou no Shimizu até o final de 2003, assinando depois com o Yokohama F. Marinos, pelo qual foi campeão da J. League em 2004. Ficou no clube (e no futebol japonês) até julho de 2005, quando se transferiu para o Metz, na França.

Sem espaço no Perugia, Ahn assinou contrato com o Shimizu S. Pulse, do Japão (Crédito: Tsugufumi Matsumoto/AP)

Sem espaço no Perugia, Ahn assinou contrato com o Shimizu S. Pulse, do Japão (Crédito: Tsugufumi Matsumoto/AP)

Após uma temporada no Campeonato Francês, com 16 jogos e dois gols, foi novamente convocado para a Copa do Mundo, na Alemanha, em 2006. Marcou apenas um gol, na estreia (2 a 1 sobre Togo), naquela que foi a única vitória da equipe, eliminada ainda na fase de grupos. Após a Copa do Mundo, ficou na Alemanha por mais um semestre, jogando pelo pequeno Duisburg. Foram dois gols em 12 jogos, e uma campanha que atrapalhou eventuais transferências para Inglaterra e Escócia.

Ahn no Duisburg: time fraco frustrou transferências para clubes de Inglaterra e Escócia (Crédito: Frank Augstein/AP)

No começo de 2007, aos 31 anos, assinou com o Suwon Samsung Bluewings para retornar à Coreia do Sul. Sem balançar as redes, acertou sua volta ao Busan IPark (novo nome do Busan Daewoo Royals) em 2008. Depois de um ano, decidiu atuar no futebol chinês, onde jogou pelo Dalian Shide entre 2009 e 2011. Foi ainda para a Copa do Mundo de 2010, e, embora a Coreia do Sul tenha chegado às oitavas de final, o agora camisa 9 passou em branco.

Ainda em 2009, Ahn esteve cotado para jogar no FC Sydney, da Austrália, mas ele e sua mulher – Lee Hye-won, ex-Miss Coreia do Sul – optaram por permanecer por dois anos na China. Em janeiro de 2012, aos 36 anos, aposentou-se dos gramados.

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