Copa Anglo-Italiana: o obscuro torneio que viveu décadas de alternatividade

Montagem/UD
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A final da Eurocopa de 2020 colocou frente a frente Itália e Inglaterra, duas das escolas de futebol mais tradicionais do mundo. E como você já deve saber, a Itália levou a melhor.

Por isso, vamos relembrar aqui um torneio bem alternativo e cheio de peculiaridades que aflorou a rivalidade entre os clubes de Itália e Inglaterra. Foi a Copa Anglo-Italiana, realizada de 1970 até 1996, e que praticamente não contou com os grandes de cada país: os principais nomes desse torneio foram os clubes das divisões inferiores.

Essa é apenas uma das muitas bizarrices desse obscuro e aleatório torneio extinto que foi embora sem deixar muita saudade.

 

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Origens

A história da Copa Anglo-Italiana começa em 1967. Naquele ano, o campeão da Copa da Liga Inglesa, o Queens Park Rangers, não pode participar da Taça das Cidades com Feiras (o torneio precursor da Copa da UEFA, atual Liga Europa).

A justificativa da UEFA era que a Taça das Cidades com Feiras não permitia a inscrição de times das divisões de acesso dos países, que era o caso do Queens Park Rangers, então na terceira divisão inglesa.

Só que em 1969, o caso se repetiu: o Swindon Town, que estava na terceira divisão, bateu o Arsenal na final da Copa da Liga e também teve sua entrada barrada na Taça das Cidades com Feiras.

Então, a Football Association, que já não estava em bons termos com a UEFA, decidiu agir e criou um torneio amistoso com o campeão da Coppa Italia daquele ano, a Roma, como compensação ao Swindon Town. Na ocasião, o time inglês venceu por 5 a 2 no placar agregado (1 a 2 em Roma; 4 a 0 em Swindon) e ficou com o título simbólico.

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Roma x Swindon Town de 1969, o jogo precursor da Copa Anglo-Italiana (Reprodução)

A partir daí, se iniciou uma aproximação entre times ingleses e italianos, capitaneados pelo agente italiano Luigi “Gigi” Peronace, que intermediou a ida de diversos atletas ingleses para a Itália nos anos 50 e 60 e tinha como grande sonho criar um torneio entre clubes dos dois países.

Até que, em 1970, aproveitando a pausa da Copa do Mundo, ele ajuda a organizar a Copa Anglo-Italiana, um dos torneios mais curiosos já realizados em solo europeu.

 

Formato

O número de participantes variou em cada edição, mas em geral o formato se manteve: o grupo dos ingleses enfrenta o grupo dos italianos e os melhores ranqueados de cada país fazem a final em jogo único (até 1986, sempre na Itália).

Em 1973, com o torneio já em baixa, o regulamento foi alterado: o número de participantes pulou para 16 e os dois melhores de cada grupo faziam uma semifinal entre si. Mas a mudança valeu apenas para aquela edição.

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Pôster da Copa Anglo-Italiana de 1973 (Reprodução)

Nos anos 80, quando o torneio era disputado apenas por clubes semi-profissionais, o número de participantes caiu para 4. Então, o formato passou a ser apenas semifinal e final.

Após a edição de 1986, o torneio retornou em 1992 com o formato semelhante ao de 1973: apenas times profissionais, com 8 clubes italianos e 8 ingleses divididos em grupos e disputa de semifinal e final (que era sempre no estádio de Wembley). E assim foi até sua extinção em 1996.

Uma curiosidade é que em algumas edições o torneio contou com regras curiosas, como o de dar pontos extras por gols marcados e a ausência do impedimento fora da área. Tudo isso para incentivar que os times atacassem mais do que defendessem.

 

Critério de participação

O que torna a Copa Anglo-Italiana tão peculiar é a total falta de critérios claros e objetivos para a participação das equipes. Na sua primeira fase (de 1970 a 1973), clubes das primeiras divisões que não conseguissem vaga nos campeonatos europeus eram aceitos no torneio. Só que enquanto a Itália enviou Juventus, Roma e Inter, os ingleses por vezes enviavam times da segunda divisão, como Sheffield Wednesday e Blackpool.

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Pôster da Copa Anglo-Italiana de 1970 (Reprodução)

Por conta de problemas de agenda e da falta de interesse, o torneio passou a ser aberto também para clubes das divisões semi-profissionais. Nessa segunda fase (de 1976 a 1986), times da terceira divisão italiana e até da quinta divisão inglesa passaram a disputar o torneio ao lado de times como a Udinese e o Livorno.

Após uma pausa de 6 anos, a Copa Anglo-Italiana retornou nos anos 90 (de 1992 a 1995) e voltou a ter apenas equipes profissionais, contando com times das segundas divisões italiana e inglesa.

Do lado inglês, a classificação dos times acontecia em uma fase preliminar, em que os 24 times da First Division se enfrentavam em grupos e os oito campeões de cada grupo entravam na competição.

 

Maior campeão

Apesar da incrível sequência de edições, apenas um clube conseguiu ser duas vezes campeão: o Modena, em 1981 e 1982. O primeiro título foi em cima do Poole Town (atualmente na sétima divisão inglesa), e o segundo sobre o Sutton United (atualmente na quinta divisão inglesa). O Modena atualmente está na Série C italiana.

Vale ressaltar que os italianos tiveram bem mais títulos: 15 canecos contra 6 dos ingleses. Uma possível explicação é que a Football Association era bem mais generosa nos critérios de participação, permitindo que times muito fracos ficassem com a vaga.

Outra explicação, é que o futebol italiano viveu seu boom justamente nos anos 80 e 90, enquanto no mesmo período a Inglaterra enfrentava diversos problemas dentro e fora de campo, como o hooliganismo e o consequente banimento de competições por conta dos desastres em Heysel e em Hillsborough.

 

Jogos memoráveis

Um dos jogos mais lembrados dessa época foi justamente a primeira final, entre Swindon Town e Napoli, no estádio San Paolo em 1970, que foi marcado pela violência extra-campo.

O jogo estava 3 a 0 para os visitantes quando torcedores irritados do Napoli começaram a arremessar pedras e garrafas em campo, além de tentarem invadir o gramado. A polícia respondeu com gás lacrimogêneo e a confusão foi geral. Sem condições de continuar a partida, o juiz decidiu encerrar a final aos 34 minutos do segundo tempo, decretando a vitória do Swindon Town.

Outro jogo cheio de pancadaria foi o Birmingham contra Ancona em 1995, que ganhou o apelido de Batalha de Ancona. O clima dentro de campo esquentou de tal forma que no final do jogo uma briga generalizada tomou conta do campo, com o técnico do Ancona fraturando o maxilar e com o árbitro precisando ser hospitalizado.

A polícia italiana entrou no vestiário e confiscou o passaporte dos jogadores ingleses, com ameaças de extradição e outras penalidades. Algumas horas depois o Birmingham conseguiu voltar para a Inglaterra, mas o caso continuou na Justiça italiana, que condenou três jogadores ingleses em 2000.


Por fim, outro jogo memorável foi a final de 1993/1994, em que o Brescia de Gheorghe Hagi bateu o Notts County por 1 a 0 em Wembley e ficou com o título. Mas a imagem que ficou mais famosa é da foto abaixo, que mais tarde ilustrou a capa do jogo Fifa 96.

 

Por que acabou?

Não faltaram motivos para a Copa Anglo-Italiana ter tido pouco sucesso. Para começar, os seguidos episódios de violência se tornaram uma mancha no torneio. Principalmente em uma época em que a tragédia de Heysel (justamente envolvendo torcedores ingleses e italianos) estava ainda fresca na memória das pessoas.

A tragédia de Heysel e o ápice do hooliganismo

Mas a falta de relevância do torneio também ajudou bastante. Para um torcedor de um time menor, que nunca viu seu time jogar fora do país, talvez fizesse sentido viajar quilômetros para torcer pelo clube de coração. Mas para clubes medianos, como Middlesbrough ou Genoa, não parecia um esforço que valesse a pena.

Assim, tanto a audiência na televisão quanto a presença do público nos estádios eram bem modestos, muitas vezes não passando da casa dos 1000 espectadores na fase de grupos. E com isso, o torneio virou certeza de prejuízo para os clubes, que passaram a se recusar a participar.

Em 1996, alegando falta de datas, o torneio foi encerrado e nunca mais voltou.

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