Como um time de colegiais quase eliminou o campeão japonês na Copa do Imperador?

Masahide Tomikoshi/Twitter
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Em 2020, a Copa do Imperador do Japão completa 100 anos quase ininterruptos de história. Por conta dessa efeméride, resolvemos relembrar um dos momentos mais absurdos já ocorridos no torneio: em 2003, mesmo com um jogador a menos, um time de estudantes colegiais jogou de igual para igual contra o então campeão da J. League, o Yokohama F. Marinos, e só foi eliminado na disputa de pênaltis.

Essa história inimaginável, que mais parece saído da ficção, tem uma razão de ser. Diferente de outras copas nacionais, como a FA Cup e a Copa do Brasil, a Copa do Imperador permite que equipes completamente amadoras se qualifiquem para disputar a competição.

O caminho para essas equipes chegarem lá costuma ser pelos torneios organizados em cada uma das 47 províncias japonesas. O formato e o número de participantes variam, mas apenas o campeão conquista o direito de ser o representante na Copa do Imperador. Geralmente os clubes profissionais da J3 League costumam ficar com a vaga, mas em províncias em que o futebol é mais fraco, times formados em empresas, colégios e universidades acabam levando a melhor.

Isso tudo soa estranho para nós, mas é importante lembrar que até meado dos anos 80 o futebol no Japão era basicamente amador. Na época, brincava-se que as equipes nipônicas eram formadas pelos operários das fábricas locais — e, bem, isso não estava muito longe da realidade. Tanto que alguns atletas japoneses, como Musashi Mizushima e Kazu Miura, tiveram que vir ao Brasil para se tornarem profissionais. Isso tudo mudou com a criação da J. League, em 1992.

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Por essas e outras que a presença de times amadores ou semi-profissionais é uma tradição consolidada na Copa do Imperador e, mesmo em 2020, o espaço para eles ainda é bastante cativo.

Nesta edição 100 do torneio, o plano inicial era contar com 88 clubes, sendo: 40 da J1 League e da J2 League (18 e 22, respectivamente); os campeões das províncias (47 no total) e uma equipe amadora convidada pela JFA (Japan Football Association) — no caso o Honda FC, que venceu a quarta divisão em 2019. Por conta da pandemia, o número de participantes caiu para 52, mas os campeões das províncias e o Honda FC ainda estarão na disputa. As outras 4 vagas ficarão com o campeão e vice da J1 League, o campeão da J2 League e o campeão da J3 League em 2020. Eles entrarão no torneio a partir das quartas de final, que serão disputadas em dezembro.

 

Só Garotos

Na fatídica Copa do Imperador de 2003, o regulamento era ainda mais generoso com as equipes amadoras. Além dos campeões das 47 províncias, também participavam o campeão e vice do torneio universitário nacional, duas equipes amadoras convidadas pela organização e o campeão do torneio colegial nacional.

E vale abrir um parênteses: o torneio colegial nacional é um dos grandes eventos esportivos no Japão, com direito à cobertura televisiva e estádios lotados. Anualmente, entre dezembro e janeiro, os colégios campeões das 47 províncias se reúnem na região metropolitana de Tóquio e se enfrentam entre si em uma disputa de mata-mata. Se você já assistiu Super Campeões, talvez tenha uma boa ideia de como esse sistema funciona.

Em 2003, o campeão do torneio colegial nacional foi o colégio municipal de Funabashi, localizado em Chiba (cerca de 25 km do centro de Tóquio). Essa seria sua segunda participação na Copa do Imperador; a primeira foi em 1997 como representante da província.

Na primeira fase, que não conta com clubes da J1 League, os garotos de Funabashi enfrentaram o representante de Gunma, Thespa Kusatsu, que atualmente disputa a J2 League. Um 1 a 0 bastou para avançarem de fase (lembrando que as partidas são em jogo único).

Na segunda fase, o adversário foi a Universidade Hannan de Osaka, então vice-campeã do torneio universitário nacional. Nova vitória por 1 a 0 colocou o Municipal de Funabashi na terceira fase, que é quando os 16 times da J1 League entravam no torneio.

O sorteio, porém, não foi dos mais felizes para os estudantes. O adversário seria o Yokohama F. Marinos, um dos maiores e mais ricos clubes do Japão. De quebra, eles tinham sido campeões da J. League apenas duas semanas antes do jogo mais importante da história do Funabashi. No elenco estavam jogadores da seleção, como o zagueiro Yuji Nakazawa e o atacante Tatsuhiko Kubo, além de ter no banco o técnico Takeshi Okada, que viria a comandar os Samurais Azuis na Copa de 2010.

 

Conto de fadas

Um dos principais jogadores do Funabashi na época, o atacante nipo-norte-irlandês Robert Cullen, disse ao jornal The Guardian sobre esse encontro: “Já esperávamos perder de uns 10 a 0, então pensamos: ‘Vamos apenas nos divertir e curtir o momento’”.

Os piores pesadelos de Cullen pareciam se tornar realidade quando, aos 6 minutos de jogo, o Yokohama F. Marinos já abria uma vantagem de 2 a 0, com gols de Sotaro Yasunaga e Ryuji Kawai. Era literalmente uma grande seleção contra um time de meninos.

Mas seja por conta da ressaca do título japonês, seja por salto alto, ou seja porque a ideia de atropelar psicologicamente menores de idade em rede nacional não cairia bem, o fato é que o Yokohama F. Marinos decidiu pisar no freio e terminou o primeiro tempo sem fazer mais gols.

Na segunda etapa, o time de Yokohama voltou a pressionar a defesa adversária, mas, surpreendentemente, quem colocou a bola nas redes foi o Funabashi: aos 24 minutos, após uma falha bisonha do goleiro, o capitão Tatsuya Masushima marcou de dentro da pequena área e deu início à reação. 2 a 1.

O Yokohama F. Marinos não deixou barato e partiu para cima da garotada, só que a retranca do Funabashi estava alerta. Até que, aos 39 minutos, Cullen conseguiu puxar um contra-ataque, se livrou de QUATRO marcadores e serviu para um solitário Kota Tanaka empurrar sem dificuldades. 2 a 2

Os jogadores do Yokohama F. Marinos pareciam atônitos com tudo isso, tanto que, dois minutos depois, Toru Kotobuki recebeu sozinho na frente do goleiro, tentou chutar por cima e a bola beijou o travessão.

Então, veio o drama. Quando o terceiro gol do Funabashi parecia uma questão de tempo, o capitão e então herói Tatsuya Masushima tentou simular uma falta na frente do juiz e falhou miseravelmente. Resultado: tomou o segundo cartão amarelo e foi expulso.

Mesmo com um jogador a menos, os colegiais não se entregaram e seguraram o resultado durante toda a prorrogação. Com isso, a decisão foi para as penalidades, e aí a diferença com o futebol profissional ficou nítida: o Yokohama F. Marinos converteu todas as 4 cobranças e o goleiro Kenichi Shimokawa agarrou duas bolas do Funabashi. Era o fim do sonho dos garotos de Chiba e um momento embaraçoso para o então campeão japonês.

 

O que aconteceu depois?

O Yokohama F. Marinos não foi muito longe na competição: após passar por Sanfrecce Hiroshima nas oitavas, se despediu nas quartas de final com uma derrota de 4 a 1 para o Kashima Antlers. Porém, uma prova de que aquele time era bom mesmo é o fato do Yokohama F. Marinos ter se sagrado bicampeão consecutivo da J1 League em 2004, até hoje um feito inédito para o clube.

Do lado do Funabashi, sua geração de ouro rendeu alguns frutos. O zagueiro e capitão Tatsuya Masushima logo foi contratado pelo FC Tokyo, mas viveu seu melhor momento no Kashiwa Reysol de Nelsinho Baptista. Inclusive, ele esteve presente na derrota dos Aurinegros para o Santos no Mundial de Clubes de 2011.

E Robert Cullen foi para o Júbilo Iwata, mas depois foi fazer a carreira no exterior, jogando na Holanda, na Coreia do Sul, na Tailândia, na Índia e na Inglaterra. Em 2012, ele foi convidado a defender a seleção da Irlanda do Norte, terra natal de seu pai, mas as conversas não avançaram.

Tanto Masushima quanto Cullen ainda integraram a seleção japonesa que disputou o Mundial sub-20 na Holanda em 2005. Entre os jogadores convocados para aquele torneio estava um jovem meia promissor chamado Keisuke Honda.

Fontes The Guardian Japan Times Reddit