Como o Rangers foi parar na última divisão da Escócia?

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Nesta temporada 2013/2014, o Rangers Football Club conquistou mais um título para sua ampla sala de troféus. Só que não é exatamente um título que orgulharia qualquer torcedor. Vencedor de 54 torneios da primeira divisão escocesa, o tradicional time de Glasgow agora pode-se dizer campeão da Terceirona.

Não há nenhuma novidade em um time grande caindo para divisões inferiores nos tempos atuais. A mesma coisa aconteceu com a Juventus da Itália, após o escândalo do Calciopoli de 2006. Ou mesmo na América do Sul, onde tivemos Corinthians, Palmeiras e River Plate fora do torneio de elite de seus países. Mas nenhum deles chegou a ir além da Segundona – fora o Fluminense, claro (aliás, quando o Flu vai pagar a Série B?).

O que aconteceu no Rangers foi uma mistura explosiva de trapaças, loucura financeira e cegueira provocada pela rivalidades entre torcidas. Segundo Stephen Henderson, do Left Foot Forward, as evidências de que havia alguma coisa errada no clube eram claras, mas nem a imprensa e muito menos os torcedores do Light Blues conseguiam enxergar o óbvio. Era mais fácil achar que as críticas eram picuinhas do pessoal do Celtic do que ver que o barco estava pra afundar. Quando eles entenderam o que estava acontecendo, já era tarde demais.

Um passo maior que a perna

Essa sucessão de presepadas começou em algum momento após 1988, quando a administração do Rangers passou para as mãos do magnata escocês David Murray. Ele tinha planos ambiciosos para o clube. A ideia era fazer o Rangers virar o que os grandes clubes ingleses são hoje: máquinas de fazer dinheiro. Para isso, tomou alguns empréstimos, reformou o Ibrox Stadium e construiu um moderno centro de treinamento. Também investiu pesado para atrair nomes conhecidos, como Paul Gascoigne, Brian Laudrup, Ronald de Boer e Tore André Flo.

Outra jogada esperta foi a de tirar a imagem de clube sectário ao contratar o atacante Mo Johnston, ex-Celtic, que se tornou apenas o segundo jogador católico a defender as cores do time desde a Primeira Guerra Mundial. Isso causou reações iradas dentro e fora do clube, mas foi um primeiro passo importante para a internacionalização do Rangers.

No campo, a receita teve seus altos e baixos. Foram conquistados 11 campeonatos nacionais em 14 anos, igualando o recorde de nove conquistas seguidas do rival Celtic. Porém, em torneios europeus, o investimento trouxe resultados aquém do esperado, com o time caindo quase sempre na fase de grupos.

Na virada do século, porém, as coisas começaram a degringolar. O campeonato escocês não conseguia mais concorrer com a montanha de dinheiro que a televisão oferecia à Premier League inglesa, e o multicampeão Rangers ganhava muito menos em direitos de transmissão do que um fraquíssimo Bolton ou Blackburn na liga vizinha. A consequência disso é que, para atrair grandes jogadores, era necessário levantar somas absurdas de dinheiro.

Uma das saídas foi usar um esquema de contrato chamado employee benefit trust fund (EBT), que basicamente sonegava impostos do governo britânico. O esquema foi usado de 2001 a 2010, ano em que foi descoberto pelo fisco. O clube foi, então, multado em 49 milhões de libras. Some-se a isso a dívida avaliada em 18 milhões de libras com o Lloyds Banking Group e obviamente o caldeirão estava prestes a transbordar.

Operação salvamento

Tudo isso já era sabido pelo empresário Craig Whyte quando ele virou o novo dono do Rangers, em maio de 2011, após pagar 1 libra (menos que 4 reais) por todo o espólio do clube. Só que em menos de um ano, em fevereiro de 2012, sua administração entrou com pedido de solvência e colocou o Rangers em sérios apuros.

Seguindo o regulamento da Premier League escocesa, o time foi punido com a perda de 10 pontos, o que não fez grandes estragos. Celtic e Rangers têm tanto domínio sobre o futebol local que, mesmo assim, os Light Blues conseguiram o vice-campeonato. Por outro lado, sem conseguir entregar o balanço do ano fiscal de 2011, o time não pode disputar nenhum torneio europeu e ficou de fora da Champions League.

O verdadeiro pesadelo teve seu pontapé inicial quando o fisco britânico recusou qualquer tipo de acordo com relação ao esquema EBT e ordenou o pagamento imediato da dívida, o que significaria a liquidação do time e a criação de uma nova entidade para administrá-la. O espólio do clube foi então negociado com a Sevco Scotland em junho de 2012 (que depois mudou seu nome para The Rangers Football Club Ltd) e Charles Green virou seu novo dono.

A questão agora era se os administradores da Premier League escocesa aceitariam o velho novo clube na competição. Por dez votos a um, a decisão foi que não. Apenas o próprio Rangers votou a favor, e o Kilmarnock FC se absteve. O argumento era que o novo time não poderia pular etapas e que isso faria mal à “integridade do esporte”, nas palavras do arquirrival Celtic.

Restava ao clube partir da Segundona, mas novamente seus oponentes votaram contra, já que eles se sentiram forçados a lidar com uma situação que não fora criada por eles. A saída foi começar do zero, na Scottish Football League Third Division, também conhecida como quarta divisão do Campeonato Escocês.

Se as coisas não tinham como piorar, certamente elas ficaram bem ruins. Durante o impasse, diversos jogadores conseguiram rescindir seus contratos e saíram do clube de graça. Patrocinadores, como a Audi, pularam fora do barco, e a anunciante master Tennent’s só manteve o acordo após a renegociação dos valores. Para piorar, o Rangers ainda foi punido com uma sanção de 12 meses sem poder contratar reforços.

Lógico que os torcedores do Rangers, com sua habitual mania de perseguição, sentiram que tudo isso tinha o cheiro sinistro de traição, uma apunhalada nas costas de quem menos se esperava. No livro Follow We Will – The Fall and Rise of Rangers, David Edgar vocifera: “Fãs de outros clubes não queriam que o Rangers fosse simplesmente humilhado; eles o queriam morto. Eles desejavam o fechamento do clube. Eles queriam que as autoridades enfiassem a bota na cara do clube e, com a complacência – aliás, cumplicidade – da mídia, eles gritam pelo que eles chamam de justiça. O fato de não saberem por quais crimes o Rangers era acusado é meramente incidental. Nós eramos culpados de algo, tínhamos que ser, e nós deveríamos ser massacrados por isso.”

Recomeçar (por baixo) é preciso

Toda essa confusão ficou refletida imediatamente no começo da temporada 2012/2013, quando o time não conseguia engrenar duas vitórias seguidas. Passado mais alguns jogos, o Rangers se acertou e mostrou que não queria ficar ali por muito tempo: foram nada menos do que uma acachapante sequência invicta de 19 jogos!

Apesar de tudo, jogar a última divisão, que hoje se chama Scottish League Two, não foi um estorvo para os torcedores. O Rangers teve uma média de público de 45 mil pessoas, bem alto para uma liga de quarto nível. E a conquista do título inédito veio no dia 30 de março de 2013. No final, foram 83 pontos conquistados, mais de 20 acima do Peterhead FC, o segundo colocado, que somou 59.

Na temporada seguinte, as coisas foram ainda melhores: o Rangers sagrou-se campeão invicto da Scottish League One (a terceira divisão local) com nove rodadas de antecedência; chegou às semifinais da Copa da Escócia, perdendo para o rival Dundee United; e foi vice da Scottish Challenge Cup. A campanha consagrou até um irlandês católico, o atacante John Daly, a ídolo incontestável do time – uma heresia que seria digna de guerra civil em tempos remotos.

Só que, ao contrário do que se pode imaginar, a torcida chiou com os resultados. Ainda assim, com o clube em recuperação financeira e as contas em estado crítico, era o que dava para fazer.

Até mesmo agora, com o time fazendo o caminho de volta dentro de campo, o fantasma da crise ainda ronda o Rangers. Com as dívidas batendo na porta, a administração atual precisa urgentemente levantar uma grana, caso contrário a ameaça da insolvência voltará e ninguém tem certeza do que pode acontecer depois. Fãs descontentes já organizam uma campanha na internet pedindo para que os colegas não renovem a anuidade das entradas, em protesto contra a má gestão do clube.

A proposta, chamada de Union of Fans, pede para que o torcedor use o valor da anuidade em um fundo gerido por um comitê formado por diversas torcidas organizadas. A ideia é pressionar os diretores do clube para que eles não usem o Ibrox Stadium como garantia em um inevitável novo empréstimo. A iniciativa foi apoiada por algumas lendas do Rangers, como John Brown, Richard Gough e Lorenzo Amoruso. Até onde isso vai dar, ninguém sabe ao certo. O fato é que o mundo tem grandes chances de passar mais um ano sem um Old Firm. A última partida oficial entre Rangers e Celtic foi em 29 de abril de 2012.

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