Como o pior game da história ajudou a afundar o New York Cosmos

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Durante anos uma lenda sinistra rondava as casas de fliperama e as locadoras de videogame da cidade. Ela contava a história da adaptação do blockbuster E.T. para o console Atari 2600, no início dos anos 1980; uma produção tão decepcionante que ganhou o infame título de Pior Game da História. O fracasso de vendas e crítica fez a Atari tomar uma medida desesperada: levou todos os cartuchos encalhados ao deserto do Novo México, nos EUA, e os enterrou em um buraco gigante.

A verdade é que o fiasco do E.T. teve consequências muito mais grandiosas para Atari do que uma suposta lenda e um buraco no deserto: o prejuízo causado pelo jogo foi um dos catalisadores do crash do mercado de games de 1983 e deu o golpe de misericórdia no New York Cosmos, clube que teve em seu elenco Pelé, Beckenbauer e Carlos Alberto Torres.

O elo entre essas peças aparentemente desconexas é o estúdio Warner Bros. Em 1971, o lendário CEO da WB, Steve Ross, e os irmãos Ertegun fundaram o Cosmos, apostando no então promissor soccer norte-americano. Desde os anos 60, iniciativas para popularizar o esporte nos EUA vinham sendo feitas, inclusive com um torneio internacional de clubes que contou com o Bangu.

No ano de 1972, a produtora de filmes como Batman, Matrix e Harry Potter expandiu seus negócios fundando a Warner Communications. E entre as marcas que seriam adquiridas pela holding está a Atari, em 1976.

O negócio estimado em 28 milhões de dólares na época acabou valendo a pena. O Atari 2600 dominou a segunda geração de consoles com mais de 30 milhões de unidades vendidas e 80% de market share e se tornava a companhia que crescia mais rápido nos EUA. Segundo dados da época, um terço do faturamento da Warner vinha da empresa de games.

Paralelo a isso, em 1975, Ross desembolsava 4,5 milhões de dólares para trazer Pelé para a Grande Maçã. A investida foi frutífera: a ida do Rei mudou a cobertura do futebol nos EUA, que passou a ganhar destaques nos jornais. A North American Soccer League (NASL) enfim tinha uma superestrela digna de um astro de Hollywood.

Seguido a isso, caras como Johan Cruijff, Gordon Banks e George Best passariam a jogar em terras norte-americanas atraídos pela mídia, pelo dinheiro e pelo American Way of Life, e expandindo a visibilidade da NASL, que passava a ganhar prestígio e credibilidade.

Gamer Over, E.T

Mesmo após Pelé pendurar as chuteiras em 1977, o Cosmos continuou papando títulos. Além do campeonato de 1972, em sua era pré-galática, o time de Nova York levantou outros cinco canecos (1977, 1978, 1980 e 1982) e ainda levou um vice em 1981. Se contarmos apenas a temporada regular, na fase de grupos, o New York Cosmos teve maior número de pontos de todas as conferências em 1972 e entre 1979 a 1983.

Só que a aposentadoria do Rei do Futebol custou caro à liga, que, sem um substituto à altura, via a média de público despencar no começo da década de 1980. Era Pelé quem mantinha a NASL em alta e, sem ele, os anos dourados do soccer norte-americano ficaram para trás. Com a queda na receita dos clubes, muitas franquias tiveram que fechar as portas, como o Los Angeles Aztecs de Elton John em 1981.

O Cosmos, que nunca deu lucros, ainda sobrevivia graças ao dinheiro da Warner Bros e da Atari, mas as coisas também estavam mudando no mundo dos games. A onda dos computadores pessoais atingia o mercado em cheio e abria um novo leque de possibilidades para desenvolvedores e consumidores. Apple e Commodore eram nomes que começavam a despontar naquela década.

A Warner Bros contra-atacou usando uma arma que conhece bem. Steven Spielberg já era sinônimo de sucesso naquele começo dos anos 80, com clássicos como Tubarão e Contatos Imediatos de Terceiro Grau no currículo, todos lançados pela Universal Studios. Steve Ross tentava a todo custo trazê-lo para a Warner e em 1981 acertou uma parceria para adaptar Indiana Jones para o Atari 2600.

Anos depois, Spielberg dedicaria A Lista de Schindler ao amigo Steve Ross

O game, lançado no ano seguinte, teve boas vendas, então Ross e o cineasta decidiram repetir a dose com seu novo blockbuster, E.T., lançado em junho de 1982. A Warner não mediu esforços e colocou as expectativas nas alturas: um contrato de exclusividade de 22 milhões de dólares (cerca de 20 vezes a mais do que se pagava em licenciamento em jogos na época) e lançamento garantido para o Natal daquele ano.

O problema: o contrato foi selado em julho, logo, o programador Howard Scott Warshaw teria meras cinco semanas para entregar o game pronto até setembro a tempo de ser fabricado e distribuído em dezembro. Em condições normais, o prazo para desenvolver um game não era menor do que 8 meses.

Obviamente que a operação não deu certo. A Warner investiu 5 milhões de dólares em marketing e colocou mais de 4 milhões de cartuchos nas prateleiras, mas apesar da boa vendagem inicial, logo se percebeu que o jogo era um desastre absoluto. Apenas um quarto das fitas foram vendidas e uma parte delas acabou sendo devolvida por consumidores insatisfeitos. No final do ano seguinte, as perdas da Atari foram calculadas em mais de meio bilhão de dólares.

Muitos culpam o lançamento de E.T. como o início do crash do mercado norte-americano de games de 1983, mas os sinais de que algo não estava bem são anteriores a isso. As práticas de mercado da Atari eram absurdas. Em 1981, a empresa lançou um protótipo mal acabado de Pac-Man e produziu mais cartuchos (12 millhões) do que consoles vendidos (cerca de 10 milhões na época). A aposta era que mais pessoas comprariam o videogame só para jogar Pac-Man.

O risco valeu porque Pac-Man vendeu 7 milhões de unidades e se tornou o título mais vendido da história da companhia. Só que de 1981 até o Natal de 1982 muita água correu sob a ponte. Os computadores estavam mais baratos e isso colocava os consoles em uma posição delicada. O fiasco de E.T. foi a gota d’água que afundou uma indústria que já se debatia em busca de socorro.

Sob nova direção

Em sérias dificuldades financeiras, a Warner Bros ainda sofreu uma tentativa de manobra do magnata Rupert Murdoch, que tentou tomar o controle da companhia em uma jogada chamada aquisição hostil. Para evitar o pior, os diretores não viram outra opção senão se livrar de suas subsidiárias em risco de falência, como a Atari e a Global Soccer, que administrava o NY Cosmos.

A Global Soccer acabou indo parar nas mãos de Giorgio Chinaglia, atacante que fez companhia com Pelé no ataque do Cosmos. O curioso é que ele tinha acabado de se aposentar do clube nova-iorquino para se tornar presidente da Lazio, outro time onde fez história.

Mas a situação do Cosmos não era nada fácil. Lotada de dívidas e com a NASL perdendo visibilidade e patrocinadores, era uma questão de tempo até as coisas irem abaixo. Na temporada pós-Warner Bros de 1984, que seria a última da NASL, o time ficou de fora dos playoffs pela primeira vez desde a chegada do Rei do Futebol.

Sem tempo para cuidar de dois clubes ao mesmo tempo, Chinaglia repassou o controle do time norte-americano para seu amigo e assistente pessoal Peppe Pinton, que diante da crise não viu outra alternativa senão fechar o clube. Pinton deteve os direitos da marca do Cosmos até 2009, quando a mesma foi vendida para o empresário Paul Kelmsley. Britânico e fã de futebol, ele já tinha sido vice-presidente do Tottenham Hotspur e refundou o New York Cosmos em 2010.

Por coincidência ou não, naquele mesmo ano a NASL também ressurgiu das cinzas, tornando-se a o equivalente à segunda divisão do futebol norte-americano. E entre seus times está justamente o novo New York Cosmos, que em sua nova roupagem contou com um outro ídolo nascido no Brasil: Marcos Senna.

Ah, e sobre a história dos cartuchos enterrados no deserto: em 2014, o  documentarista Zak Penn acompanhou a escavação do local onde os cartuchos teriam sido enterrados e descobriu que, sim, a lenda era verdadeira. Recomendo fortemente assistir ao filme, que está disponível na Netflix.

Fonte Atari.io
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