Cláudia Malheiro: no Acre, quem manda é ela

3 143

Mesmo sendo um esporte machista, o futebol tem lá seu espaço para as mulheres – pequeno, é verdade, mas merecidamente crescente. Além do surgimento de craques como Mia Hamm, Marta, Birgit Prinz e Ragnhild Gulbrandsen pelos gramados, ainda tem se tornado comum a presença de mulheres apitando partidas, comentando jogos e treinando times, acrescentando competência e beleza ao esporte bretão.

Mas sempre que uma mulher ameaça entrar no futebol masculino, é recebida com olhares de desconfiança. Foi assim quando Marta chegou a ser especulada no time do Perugia, ou quando a auxiliar Ana Paula de Oliveira cometeu erros cruciais na partida entre Botafogo e Figueirense pela Copa do Brasil de 2007 – e não foi o que aconteceu, por exemplo, quando José Duarte assumiu a seleção brasileira feminina. Afinal, mulheres podem demonstrar um talento acima da média para o futebol feminino, mas não para o Clube do Bolinha.

O que aconteceria, então, se uma treinadora fosse contratada para assumir uma equipe masculina? A sueca Pia Sundhage, por exemplo, faz um trabalho indiscutivelmente bom à frente da seleção feminina dos EUA, mas não poderia mostrar a mesma eficiência no comando de onze homens, certo? Errado. Quem pode provar isso é a carioca Cláudia Malheiro, uma das poucas treinadoras de times masculinos profissionais no Brasil.

Cláudia nasceu em 1966, mas só surgiu para o futebol em 1999, quando era auxiliar do técnico Ulisses Torres no comando do Vasco-AC na Série C do Campeonato Brasileiro. O treinador acabou sendo suspenso da equipe naquele ano, e sua auxiliar – engenheira agrônoma de formação – precisou então assumir o time no jogo contra o Rio Negro-AM. Cláudia não decepcionou, e o Vasco venceu por 2 a 1. Curiosamente, foi a única vitória vascaína no Grupo A da competição, do qual a equipe foi lanterna. Em compensação, ficou a fama de pé-quente da treinadora, que conseguiu dois empates nas duas partidas seguintes, contra São Raimundo-AM (1 a 1) e Ji-Paraná-RO (2 a 2).

O desempenho de Cláudia impressionou a ponto de render a ela uma oferta para treinar um novo clube no ano seguinte. Por meio de um convite de seu presidente, Marquinhos Gomes, o Andirá convocou a técnica para assumir o comando do time no Campeonato Acreano de 2000. O Alvinegro, acostumado a ser um dos sacos de pancadas do Estadual, terminou o primeiro turno na lanterna, mas conseguiu reagir no segundo, graças ao apoio de patrocinadores e de sua treinadora. Tanto que terminou o returno na segunda colocação, perdendo apenas para o Rio Branco – que faturou o título invicto.

Dadas as dificuldades com pagamentos de salários (R$ 600 em média) e com a estrutura do clube, que levava os atletas para os treinos em caminhões, Cláudia deixou o cargo de lado por algum tempo – ao todo, foram seis anos longe do futebol profissional, dedicando-se à família. Por coincidência, o clube também se licenciou dos gramados em 2005, alegando problemas financeiros. Mas a história mudou em 2006, quando o Andirá retornou aos gramados.

Em sua volta, o time mudou suas cores e tratou de convocar a treinadora para tentar repetir o quarto lugar geral do Estadual de 2000. Na reestréia, em um jogo-treino contra o Juventus local, os comandados de Cláudia (agora com uniforme verde e preto, em homenagem à Amazônia e à borracha do Acre) foram derrotados por 2 a 1, com gols de Tonho e Rogério para os juventinos – Artemar, pelos andiraenses, descontou.

Mesmo assim, a treinadora não perdeu o crédito com a nova diretoria do clube – Gilberto Braga assumiu a presidência, enquanto Marquinhos Gomes se tornou seu vice. Resultado: o time chegou às semifinais do primeiro turno da competição, e só não avançou à decisão porque perdeu a semifinal (em jogo único) para a Adesg com por 3 a 2 gol um gol nos acréscimos. O time de Senador Guiomard venceu os dois turnos e faturou o caneco inédito , deixando o Andirá na quarta colocação. Missão cumprida.

Mas o grande salto de qualidade do Andirá ainda estava por vir, e só aconteceu em 2007. Foi quando o clube, fundado em 1964 e diversas vezes afastado do profissionalismo por falta de dinheiro, conseguiu seu inédito vice-campeonato acreano. O título, mais uma vez, ficou com o imbatível Rio Branco. Em seus 12 jogos, o Morcegão – que manteve a mesma base do elenco de 2006 – conquistou seis vitórias e quatro empates, sofrendo apenas duas derrotas.

O ano de 2008, que poderia representar uma projeção ainda maior no trabalho de Cláudia, acabou ficando marcado por problemas. Mesmo com pendências financeiras, o Andirá tentou sua inscrição no Campeonato Acreano. A tentativa foi vetada pela federação local, sob alegação de falta de representatividade legal e problemas na conjuntura política no clube, que precisou ficar afastado das competições. Cláudia acabou demitida, e mais uma vez ficou sem clube para comprovar sua já comprovada competência.

Cláudia trabalhou com o futebol até 2012, quando decidiu se afastar para cuidar dos negócios da família na pecuária. “Fizemos o que pudemos. E o mais difícil ainda é trabalhar com pessoas da diretoria que querem resultados sem dar condições. Por isso que abandonei, em função das condições de trabalho. Nunca recebi nada pelo meu trabalho de treinadora”, contou ela, em entrevista ao Globoesporte.com em 2019.


Esta não foi, porém, a única experiência de uma mulher no comando de um time profissional. Em 2003, Maria Zilda Dalmolin de Souza assumiu o cargo de treinadora da Camboriuense, de Camboriú (SC), para disputar a segunda divisão do Campeonato Catarinense. Porém, o time ficou na lanterna do Grupo A na primeira fase, com um empate e quatro derrotas em cinco jogos disputados. Na segunda, o time perdeu os cinco jogos que disputou, sem sequer marcar gols.