Chico, o mais brasileiro dos coreanos. Ou o mais coreano dos brasileiros

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Chico poderia ser mais um jogador, destes que troca um time do interior de São Paulo por um da Ásia. Foi isso que ele fez em 2016, após o Campeonato Paulista: deixou o Capivariano e acertou com o Seoul E-Land.

Mas a história não é tão simples assim.

Chico é, na verdade, o coreano-brasileiro Francisco Hyun Sol Kim. Nascido em 16 de maio de 1991, é o protagonista de uma história curiosa fora dos gramados. Seus pais, nascidos na Coreia do Sul, migraram para o Paraguai, onde moravam; Francisco, porém, nasceu em Cascavel (PR) por opção do casal, que preferia que o filho tivesse cidadania brasileira. Logo depois, voltou com a família para o Paraguai.

Aos 16 anos, em 2007, Chico se mudou para o Brasil. Dois anos depois, entrou para as categorias de base do Atlético Sorocaba – que, coincidência ou não, havia sido adquirido em 2000 pela Igreja da Unificação, criada pelo reverendo sul-coreano Sun Myung Moon.

O meia esteve sob as asas do Reverendo Moon durante boa parte dos primeiros anos da carreira. Sua primeira passagem pelo Atlético Sorocaba terminou em 2011, quando foi para o CENE (MS) – outro clube comandado pela Igreja da Unificação. Terminou o ano no Brasiliense, então na Série C do Campeonato Brasileiro.

(Crédito: Piervi Fonseca/Agif/Gazeta Press)
(Crédito: Piervi Fonseca/Agif/Gazeta Press)

Nas temporadas seguintes, Chico teve mais duas passagens pelo Atlético Sorocaba, integrando o elenco que disputou o Campeonato Paulista em 2013 e 2014 (foto). Passou ainda por Olímpia (2013), Tupi (2014), Bragantino, XV de Piracicaba, Rio Claro (todos em 2015) e Capivariano (2016).

O Última Divisão conversou por telefone com Chico em 2015, antes de sua transferência para a Coreia do Sul – onde, por conta da dupla nacionalidade, não atua como estrangeiro. Em um rápido bate-papo, falou sobre sua vida e seus planos de carreira. No final, com um sotaque asiático bastante carregado, fez um pedido especial a respeito desta entrevista: “Capricha aí, parceiro”.

Confira nosso bate-papo com Chico, meia do Seoul E-Land:

UD: Você é brasileiro, coreano, paraguaio… Você sabe como foi essa decisão que seus pais tomaram de que você nascesse no Brasil?
Chico: Eles sempre falaram que o Brasil é um pais maior que o Paraguai, com mais futuro e portas abertas. Mas nunca pensaram que eu ia virar jogador de futebol. Aqui (no Brasil), a nacionalidade, o fato de ser brasileiro me ajudou muito na carreira. Agora, a gente entende melhor, dá para ver que Deus encaminhou tudo.

85464_med_chicoUD: Ao longo da carreira, você jogou três vezes no Atlético Sorocaba e uma no Cene. Isso teve alguma influência do Reverendo Moon?
Chico: Não, não. Não teve nada de ajuda. Ele me acolheram. Fui lá fazer o teste, eu e meu irmão. Acolheram bem, têm uma estrutura muito boa. Graças a Deus, pude trabalhar, me profissionalizar lá. Me ajudou muito a acostumar no futebol brasileiro.

UD: Em 2014, você jogou a Série C do Brasileiro pelo Tupi e o time quase subiu (caiu nas quartas de final diante do Paysandu, promovido). Como foi a experiência para você?
Chico: Esse ano (2015) subiu. Ano passado (2014), a gente montou uma base no time, de onde vieram os frutos. Nós colocamos uma base muito boa. Tivemos um treinador muito profissional, o Léo Condé, que fez um baita campeonato (Mineiro) pela Caldense. Com o Léo Condé, a comissão dele, fizemos um trabalho excelente. Pena que não colocamos o time na Série B, porque o trabalho foi muito bom e a torcida nos apoiou. Passamos em primeiro lugar no ano passado (2014), em uma chave muito difícil que tinha times de São Paulo, do Rio de Janeiro. Foi muito legal.

UD: E como foi sua passagem no Bragantino em 2015?
Chico: Realmente, tive uma sequência muito boa. A gente quase subiu (o time foi sexto na Série B de 2015). Tivemos um bom aproveitamento também no XV de Piracicaba. O Bragantino fazia não sei quantos anos que não brigava pelo acesso.

(Nota: Na época da entrevista, Chico e seu agente, Beto Rappa, estavam “conversando” a respeito de propostas – inclusive de renovação de contrato com o Bragantino, com quem tinha compromisso até o final de 2015. O meia comemorava então uma sequência “muito boa” na carreira” e dizia que o presidente do clube de Bragança Paulista havia dito ter sido procurado pelo Corinthians. Na época, uma transferência para a Coreia do Sul era mais complicada para ele por problemas de documentação.)

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