Nos cem anos do Fonseca Atlético Clube, a (complexa) história do futebol fluminense

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A partir do final da década de 1950, o Brasil passou a ter uma competição de fato nacional, colocando frente a frente representantes de diversos estados. Era a Taça Brasil – que, embora fosse disputada em confrontos regionalizados de mata-mata, seria reconhecida em 2010 pela CBF como a origem do Campeonato Brasileiro.

Entre 1959 e 1968, a competição teve sempre a participação de um clube do então estado do Rio de Janeiro, antes mesmo da fusão com a Guanabara. E em três delas, o representante – no caso, o campeão fluminense do ano anterior – foi o Fonseca Atlético Clube, de Niterói.

Embora pouco conhecido nos dias atuais, o clube fundado em 1917 ajudou a escrever, por si só, boa parte da história do futebol fluminense – do qual nem mesmo é o maior campeão. Vamos a ela?

Niterói, a origem do futebol fluminense

Então capital do estado do Rio de Janeiro, Niterói viu nascer diversos clubes no início do século XX, como Canto do Rio, Ingá, Esperança, Fluminense (do bairro do Cubango), Ararigboya, Guarany e Rio Branco. Assim, em 1913, foi disputado pela primeira vez o Campeonato Niteroiense de Futebol, que contou com Fluminense, Ingá, Esperança e Guarany – este, o campeão. O torneio ficou conhecido como Taça Gazeta da Manhã, graças ao jornal que ofereceu ao vencedor o troféu.

Embora o torneio tenha pouco valor como um Campeonato Fluminense, ganhou uma segunda edição em 1914, vencida pelo Ararigboya. Assim, em 1915, os clubes – todos da capital – se viram obrigados a fundar uma entidade que os representasse coletivamente. Surgia então a Liga Sportiva Fluminense (LSF), reconhecida pela Confederação Brasileira de Desportos (CBF) e pelas ligas de cidades menores do Rio de Janeiro como, entre outras incumbências, a organizadora do Campeonato Fluminense. Em 1915, o Ararigboya conquistou novamente o título do estado.

Em 1917, alguns dos clubes filiados à LSF romperam com a entidade e fundaram a Associação Nictheroyense de Football (ANF), de forma a organizar uma competição apenas municipal – o Campeonato Fluminense, até então, valia também o título niteroiense. A ANF, porém, teve vida curta: sem o reconhecimento da CBD, realizou apenas uma edição de seu Campeonato Niteroiense (vencido pelo Odeon Football Club em 1917) e encerrou suas atividades. Melhor para a LSF, que seguiu soberana junto à CBD a partir de 1918.

Foi também em 1917, mais exatamente em 12 de outubro, que comerciantes da Alameda São Boaventura, no bairro niteroiense de Fonseca, fundaram uma equipe própria: o Fonseca Atlético Clube. O time adotou camisas com listras verticas pretas e brancas, ganhando o apelido de Galo Carijó. Mas falaremos sobre ele mais adiante.

Embora tenha tido vida curta, a ANF apresentou uma pretensão inicial que acabou adotada posteriormente pela liga rival: atrair times de outras cidades. Assim, com o encerramento da entidade niteroiense, então rebatizada de Associação Fluminense de Desportos Terrestres (AFDT), a rival LSF passou a contar com equipes das ligas municipais de Campos dos Goytacazes, Nova Friburgo e Petrópolis. Cabia também à LSF a organização da seleção fluminense para o Campeonato Brasileiro de Seleções.

Até o início da década de 1920, porém, a LSF ainda restringia seus jogos aos clubes de Niterói – embora fontes apontem o Neves Athlético Club, de São Gonçalo, com um dos times da edição de 1922. Foi só em 1924 que, em meio à pressão do resto do estado, o campeão niteroiense disputou um triangular contra representantes de Campos dos Goytacazes e Petrópolis – o Petropolitano venceu o Campos nas semifinais, mas perdeu por WO a final do I Campeonato Fluminense de Futebol para o Byron. O título do Byron sem entrar em campo colocou a LSF em xeque.

Nasce a AFEA, e os olhares foram além de Niterói

Assim, em 1925, surgiria mais uma dissidência importante: a Associação Fluminense de Esportes Athléticos (AFEA), liderada por clubes – inclusive de Niterói – revoltados com o descaso da LSF com o restante do estado. Em seu campeonato, a AFEA permitiu que os clubes do interior recebessem jogos em seus próprios campos – até então, os torneios da LSF determinava que todas as equipes tivessem local para disputar jogos em Niterói. Naquele ano, Serrano e Fluminense terminaram empatados, mas o time de Petrópolis venceu um jogo-extra (no campo do Rio Cricket, em Niterói) e ficou com o troféu, quebrando pela primeira vez a hegemonia niteroiense. Ao Fluminense, restou receber a Taça 22 de Novembro, dada pela Prefeitura de Niterói ao clube da cidade com melhor campanha no torneio.

Em 1926, a LSF chegou ao fim e foi burocraticamente substituída pela Federação Fluminense de Desportos Terrestres (FFDT). Naquele ano, ficou decidido que o campeonato estadual seria disputado entre os campeões de ligas municipais; no entanto, diante do esvaziamento da FFDT, o torneio não aconteceu. Paralelamente, a recém-criada Associação Nictheroyense de Desportos Terrestres (ANTD) realizou um torneio municipal naquele ano, vencido pelo Ypiranga. O torneio da AFEA, por sua vez, parecia estabelecido, com títulos de SC Elite em 1926 e Gragoatá em 1927 – ambos de Niterói.

O Campeonato Fluminense de Seleções

Parecia, mas eis que novos problemas surgiram em 1928. Diante dos elevados custos para disputar jogos em outras cidades, vários times de fora de Niterói decidiram substituir o Campeonato Fluminense de Futebol pelo Campeonato Fluminense de Seleções, no qual o título era disputado por representantes das cidades – no caso, pelos vencedores de ligas municipais. Foi assim até 1940, antes que o certame perdesse espaço no futebol do estado.

Neste intervalo, os clubes de Niterói voltaram a se organizar em entidades próprias. Entre 1928 e 1933, foi a Associação Nictheroyense de Esportes Athleticos (ANEA), que inclusive dominou o Campeonato Fluminense de Seleções.

Em 1933, em meio a esta confusão de siglas, quatro clubes se desvincularam de suas ligas municipais e se profissionalizaram: Tamoio (São Gonçalo), Fluminense, Byron e Niteroiense (todos de Niterói). Nascia ali a Liga Nictheroyense de Football, que contou com o apoio das ligas amadoras de Campos dos Goytacazes e Petrópolis. Este grupo daria origem à Federação Fluminense de Esportes (FFE), reconhecida pela Federação Brasileira de Futebol (FBF) como principal entidade do estado. No entanto, entre 1934 e 1940, o torneio da FFE manteve os mesmo moldes do Campeonato Fluminense de Seleções da AFEA.

A ruptura entre AFEA e FFE, entretanto, não iria longe. Em 1941, a Lei dos Desportos sancionada por Getúlio Vargas determinou que uma mesma cidade não poderia ter duas federações. Assim, as duas entidades se uniram para a criação da Federação Fluminense de Desportos (FFD). Enquanto o órgão passou a se responsabilizar pela organização do Campeonato Fluminense (que contava com seleções municipais e clubes), o Campeonato Niteroiense era organizado por uma divisão da própria FFD, o Departamento Autônomo de Futebol (DAF).

Nos anos seguintes, a coisa passou aos poucos a mudar de figura. Em 1947, o DAF virou o Departamento Niteroiense de Futebol (DNF), mas com as mesmas funções. Quatro anos mais tarde, em 1951, o Campeonato Fluminense deixou de ser amador: a FFD adotou o profissionalismo, criando o Departamento Estadual de Profissionais (DEP) e organizando o I Campeonato Fluminense de Profissionais. O Adrianino, da cidade de Engenheiro Paulo de Frontin, faturou os títulos em 1951 e 1952.

Adrianino, 1952 (Crédito: Click nos Campeões/Reprodução)

Tudo certo, certo? Bem, não. O Campeonato Fluminense passaria por mais mudanças.

A DDP, a calmaria e o fim

Em 1956, o DEP foi reorganizado e se tornou a Divisão Departamental de Profissionais (DDP). A nova organização dividiu o Campeonato Fluminense em zonas regionais, cujos representantes disputavam entre si o título estadual. A partir daí, os clubes de Niterói passaram a dividir o protagonismo com os rivais de Campos dos Goytacazes – entre 1958 e 1974, as duas cidades faturaram 14 dos 17 títulos disputados, inclusive o torneio extra de 1964 que classificou a Eletrovapo para a Taça Brasil de 1965.

O Campeonato Fluminense encontraria alguma estabilidade até 1975, quando o Rio de Janeiro se uniu ao estado da Guanabara. Embora as federações fluminense e carioca não tenham se fundido logo de cara, os clubes fluminenses aos poucos ganharam espaço no Campeonato Carioca. Em 1978, por determinação da CBD, as duas entidades estaduais finalmente se uniram. O antigo Campeonato Fluminense ainda teve quatro edições (1975 a 1978) antes de, finalmente, se despedir.

Em Niterói, por sua vez, o DNF – que organizava o campeonato municipal desde 1947 – foi dividido em duas entidades a partir de 1953: o Departamento Niteroiense de Futebol Profissional (DNFP) e o Departamento Niteroiense de Futebol Amador (DNFA), com maior peso para o primeiro. Em 1955, as duas entidades se uniram e criaram o Departamento Especial de Futebol Niteroiense (DEFN) – que, no entanto, seguia organizando competições paralelas de profissionais e de amadores.

Em meio à profissionalização no restante do Rio, o DEFN mudou de nome e de filosofia em 1963. Virou novamente Departamento Niteroiense de Futebol (DNF) e passou a ser apenas amador. Foi assim justamente até a fusão entre Rio de Janeiro e Guanabara, em um processo que sepultou de vez o DNF em 1978. Hoje, as competições amadoras da cidade são organizadas pela Liga Niteroiense de Desportos, entidade criada em 1977 e que não tem qualquer relação com suas antecessoras.

O Fonseca em Niterói, no Rio de Janeiro e no Brasil

Voltemos então a falar do Fonseca. Fundado em 12 de outubro de 1917, o clube começou a disputar o Campeonato Niteroiense pelo menos em 1929. Os primeiros bons resultados, porém, começaram a chegar na década seguinte, com os vice-campeonatos de 1933 e 1934 – ambos pela ANEA.

Os primeiros títulos fonsequenses vieram no final da década, nos campeonato municipais de 1937 e 1939. Na ocasião, a competição era organizada pela Associação Nictheroyense de Athletismo (ANA), uma liga autônoma formada pelos clubes de Niterói em resposta à LNF.

Em meio às várias ligas municipais e estaduais, o Fonseca começou a se transformar em uma força niteroiense. Assim, conquistou o título da cidade em 1950 (pelo “primeiro” DNF), 1953, 1954 (pelo DNFP), 1955, 1957, 1959, 1960, 1961 e 1962 (pelo DEFN). No fim das contas, tudo uma coisa só.

Fonseca, 1950 (Crédito: cedida por Antonio P. da Rocha ao Grupo Prazer de Jogar)

Até 1974, quando o “segundo” DNF organizou o Campeonato Niteroiense, o Fonseca dividia com o Ypiranga o título de maior vencedor da competição – foram 11 títulos cada. Mas não foi apenas isso: nos tempos de DEP, os títulos municipais valeram ao Fonseca a chance de disputar o Campeonato Fluminense.

O primeiro deles foi disputado em 1954, mas válido por 1953: entre três times, foi o terceiro colocado, atrás do campeão Barra Mansa e do vice Goytacaz. Depois, em 1957, o representante niteroiense ficou com o quarto lugar.

Fonseca, 1957 (Crédito: cedida por Antonio P. da Rocha ao Grupo Prazer de Jogar)

O auge, porém, não tardaria: os primeiros títulos do Fonseca no Campeonato Fluminense chegariam em 1959 e 1960, ambos sobre o Goytacaz. O time de Niterói seria vice em 1961, perdendo o primeiro lugar para o Rio Branco de Campos dos Goytacazes, mas voltaria a levantar o caneco em 1962 – justamente diante do Rio Branco.

Cada troféu valia a seu detentor uma vaga na disputa da Taça Brasil do ano seguinte. Assim, em 1960, o Fonseca foi um dos participantes da mais importante competição nacional do país à época.

Jornal do Brasil do dia 1º de setembro de 1960 noticia a vitória do Fluminense sobre o Fonseca por 8 a 0 na Taça Brasil (Crédito: Reprodução)

Integrante do Grupo Leste, ao lado dos campeões estaduais de Guanabara, Minas Gerais e Espírito Santo, o Fonseca estreou nas semifinais diante do Fluminense. Diante do rival carioca, porém, não teve chances: derrota por 3 a 0 em Niterói e por 8 a 0 nas Laranjeiras. O Flu foi campeão do grupo em cima do Cruzeiro, eliminou o Grêmio na segunda fase e só caiu nas semifinais nacionais diante do Palmeiras, que seria campeão.

Nos anos seguintes, a sorte fonsequense não mudou muito. Na Taça Brasil de 1961, o time estreou nas quartas de final da Zona Sul diante do América (RJ), mas foi eliminado com um empate (0 a 0) e uma derrota (3 a 0). Os americanos venceram o zonal diante do Palmeiras, mais caiu nas semifinais nacionais diante do Santos, campeão paulista. O time de Pelé e Coutinho faturaria a taça frente ao Bahia.

Na Taça Brasil de 1963, última participação do clube niteroiense na competição, o retrospecto pouco evoluiu. O time estreou nas oitavas de final da Zona Sul diante do Rio Branco (ES), mas foi eliminado com uma derrota (3 a 0) e uma vitória (1 a 0). Os capixabas dariam adeus nas semifinais do grupo frente ao Atlético-MG, que perdeu a decisão regional (e a vaga para as semifinais nacionais) para o Grêmio. Os gaúchos, por sua vez, seriam eliminados pelo Santos, que repetiria o título diante do Bahia.

O voo alvinegro, porém, não duraria muito mais do que isso. Em 1965, por conta de uma crise financeira, o time se viu obrigado a abandonar o futebol profissional. Ainda houve boatos de um retorno aos gramados em 2009, mas que não se concretizaram. Hoje, o Fonseca é um clube restrito a esportes amadores – destaque para o futsal – e a atividades sociais.

Crédito: Wikipédia, blog História do Futebol, Sensagent, RSSSF Brasil (Campeonato Fluminense e Campeonato Niteroiense), Campeões do Futebol, Click nos CampeõesGrupo Prazer de Jogar e A Bola e o Tempo.

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