Técnico em 2007, Carbone aconselha Guarani a sair “o quanto antes” da Série C

Carbone dirigindo o Guarani em 2007
0 196

Jogadores desconhecidos, juízes duvidosos, viagens exaustivas. O Campeonato Brasileiro da Série C é uma competição desconhecida pela maior parte do público. Em 2013, o Guarani irá disputar o torneio pela terceira vez. A primeira vez aconteceu seis anos atrás e o técnico na oportunidade era José Luiz Carbone. Desta vez, o veterano treinador aconselha a agremiação a subir ainda esse ano. “Precisa sair o quanto antes dessa situação. Ficar mais anos nessa divisão irá prejudicar o Guarani ainda mais”.

Aos 63 anos, Carbone é comentarista esportivo da rádio Brasil de Campinas. O treinador conversou com exclusividade com a reportagem do Última Divisão por telefone,  relembrou a campanha de 2007 e fez um retrato cru da atual situação do clube campineiro.

Carbone dirigindo o Guarani em 2007

Última Divisão: O Guarani caiu pela segunda vez para a Série C do Brasileiro. Na opinião do senhor, por quê isso aconteceu mais uma vez?

José Luiz Carbone: O mesmo motivo das outras vezes: falta de dinheiro. O problema é que o time foi muito bem no Campeonato Paulista e a diretoria acabou se desfazendo de jogadores importantes. O Wellington Monteiro praticamente não jogou a Série B. O próprio Fumagalli teve lesão e disputou poucas partidas. O Domingos que era um jogador importante foi negociado com o exterior. O Guarani tem muitas dívidas, principalmente trabalhistas. Essa falta de receita acaba prejudicando muito na hora de contratar. A diretoria negociou o zagueiro Neto no meio da competição. Esse ano vai ser difícil. Mesmo assim, vários jogadores toparam continuar com redução de salários. A diretoria fez muitos erros de gestão, vacilou demais. O Campeonato Brasileiro da Série B tem 38 rodadas. Eles acharam que pela competição ser longa poderiam começar a subir nas últimas rodadas. Em qualquer divisão, um time precisa ficar sempre alerta com os maus resultados. Diferentemente da Ponte, o Guarani não paga em dia. Não possui crédito. Então, acaba sendo muito difícil dirigir um clube dessa maneira.

UD: Durante muito tempo, o Guarani era um dos clubes que mais revelavam jovens atletas. Por quê essa realidade mudou?

JLC: São épocas diferentes. Nas décadas de 1970 e 80, os clubes brasileiros tinham olheiros espalhados que traziam muitos garotos pro departamento amador. Atualmente, os clubes estão na mão dos empresários. Qualquer garoto de 14, 15 anos chega ao clube fatiado sendo que o maior dono dele é empresário. O clube acaba funcionando somente como uma vitrine. Existem equipes interessadas em revelar como o Santos e o São Paulo. Mas para os times do interior acaba sendo cada vez mais difícil. Ainda mais em um clube como Guarani que está cheio de dívidas. Os próprios funcionários do clube estão com o décimo terceiro atrasados. Então, qualquer dinheiro que entra acaba sendo bem-vindo. Essas equipes acabam sobrevivendo de vender as revelações. Muitos dirigentes ainda não entenderam que a partir da Lei Pelé os clubes tem que ser geridos de maneira diferente. Falta capacidade de gerência. Os clubes precisam entender que não podem viver somente da verba da televisão e da Federação. A maneira é revelando. Mas antes as equipes menores vendiam o atleta pronto. Agora eles vendem muitas vezes antes da hora.

UD: O senhor dirigiu o Guarani na Série C do Brasileiro em 2007. Como foi essa experiência?

JLC: Em 2007, eu assumi o Guarani durante o Campeonato Paulista da Série A-2. Nós conseguimos ficar entre os quatro primeiro colocados e conseguimos o acesso. Agora, o Campeonato Brasileiro da Série C foi complicado demais. Principalmente nas cidades em que você vai jogar. Nosso primeiro jogo foi em Jaguaré (interior do Espírito Santo), e numa entrevista eu perguntei onde ficava esse lugar. Quando chegamos lá, o pessoal local queria bater em mim. As viagens eram extremamente cansativas. Me lembro que pegamos um avião de Campinas para Vitória e de lá foram mais 160 quilômetros de ônibus. Fora essas viagens longas, é um futebol muito pegado, com muitas armações. Os jogos fora de casa eram complicadíssimos. Você tinha que tomar cuidado com os juízes. Um árbitro de Série A e mesmo de Série B tomam cuidado quando apitam uma partida porque o jogo está sendo televisionado. Já a Série C não era televisionada e a juizada se aproveitava pra fazer armação. Os jogos em Campinas eram tranquilos, mas reclamamos muito das partidas fora de casa. Você precisa montar um planejamento de tentar ganhar todos os jogos em casa e empatar todos fora. Com 75% de aproveitamento você fatalmente consegue subir. O técnico precisa armar o time numa retranca danada. Muitas vezes você não conhece o adversário e não consegue o vídeo pra saber como as equipes adversárias são formadas.

UD: Parece que a direção do Guarani não deu uma bonificação para os atletas pelo acesso da Série A-1 do Paulista. Isso acabou comprometendo o resultado final do time na Série C?

JLC: Na realidade, eu gostei muito dessa atitude do Leonel (Martins de Oliveira, ex-presidente do Guarani). Ele pediu pra reunir os jogadores quando faltavam umas cinco, seis rodadas pra acabar a competição. O Leonel foi claro em dizer que a equipe não tinha condição de dar prêmio nenhum para eles. Achei a atitude dele honesta. Eu falei pros atletas que eles deveriam lutar pelo acesso porque aquilo iria melhorar a carreira deles. Aquele elenco era composto de muita gente vindo dos juniores como Danilo Silva, Xandão, o Tales centroavante. Fizemos um pacto que teríamos que subir mesmo sem premiação. Depois, o Leonel fez um livro junto aos associados e conseguiu dar uma pequena doação aos jogadores pelo acesso. Foi uns mil reais pra cada um

UD: Como o senhor avalia a participação final do time naquele campeonato?

JLC: Foi uma campanha boa. Acabamos perdendo a classificação para a terceira fase contra o Vila Nova de Goiás. O Túlio marcou o gol que nos tirou da competição aos 45 minutos do segundo tempo. Fomos desclassificados por uma grande equipe, tendo inúmeros problemas com as arbitragens. Tanto que o Vila subiu e o Túlio foi artilheiro da competição. 

UD: Quais são as maiores dificuldades de se disputar a Série C?

JLC: São diversas. As viagens são muito complicadas. Fomos para muitos lugares que não tinha aeroporto, muitas viagens eram feitas de ônibus. Você precisa armar o time na retranca porque a maioria dos jogadores não tem grande técnica. A maioria dos atletas dão preferência em disputar a Série A. Depois, alguns acabam indo pra Série B. Somente aqueles que não conseguiram colocação nenhuma topam disputar a Série C. Então, é muito difícil você ver um jogador mais habilidoso nessa divisão. É mais gente começando que joga com raça e gana. Os jogos fora de casa são bem difíceis principalmente pela parte da arbitragem como comentei antes. 

UD: Quais características deve ter o técnico ideal para dirigir o Guarani nesse campeonato?

JLC: Precisa ser um treinador experiente. Não pode ser alguém que esteja iniciando a carreira. Acredito que o Zé Teodoro tenha o perfil ideal. É um técnico rodado que sabe disputar esse tipo de torneio. Precisa armar uma estratégia de ganhar a maioria dos jogos em casa e empatar os jogos fora. Ele conseguiu resultados satisfatórios com o Santa Cruz. O Campeonato Paulista pode funcionar para montar um elenco forte. Embora a maioria dos jogadores vá preferir fazer contratos até o meio do ano. O Guarani deve brigar pra permanecer na Série A-1 do Paulista. Mas o título do Brasileiro da Série C é fundamental.

UD: A Ponte Preta, maior rival do Guarani, estará disputando a Série A em 2013. Com o Bugre na Série C, a pressão da torcida pelo acesso será maior?

JLC: Sem dúvida. A pressão aumenta quando o rival está acima de você. Se a Ponte tivesse caído pra outra divisão o bugrino ficava mais calmo. A rivalidade continua sendo muito forte. Lógico que tiveram momentos em que essa rivalidade era maior. Muitos torcedores lembram a escalação do Guarani campeão brasileiro de 1978 de cor. Ninguém esquece aquele time. Duvido que os torcedores lembrem da escalação do time que jogou contra o São Caetano.

UD: Sua última passagem pelo Guarani foi essa em 2007. O senhor teve atrasos de salário?

JLC: Nós fizemos um acordo. Acertei com o diretor de finanças que eu ia receber 500 reais por semana. Levou mais de um ano pra eu receber tudo. Mas eu aceitei e acabei recebendo. O Guarani possui dívidas enormes com alguns jogadores que fizeram poucas partidas pela equipe.Tem um meia argentino chamado Liberman que fez cinco partidas pelo Bugre. Por conta das ações trabalhistas, o Guarani teve que pagar quatro milhões de reais pra ele. Um centro de treinamento teve de ser leiloado para um atleta que fez cinco partidas. Isso é falta de gerência, falta de experiência em saber comandar uma equipe de futebol. Teve um ano em que o (técnico) Roberval Davino foi contratado pra dirigir o clube. Ele trouxe 15 jogadores de confiança dele para formar o elenco. Foram quatro partidas e demitiram o Roberval. Mas os jogadores acabaram ficando. Essa insegurança dos dirigentes acabam prejudicando o clube.

Você pode gostar também
Comentários
Carregando...