Carajás, Tapajós e Tocantins

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Em junho de 2011, o Congresso Nacional aprovou a realização do plebiscito que pode dividir o estado do Pará em três.  Além do estado que já existe, mais dois novos seriam criados: Tapajós e Carajás. Obviamente, muita coisa muda no âmbito político, econômico e também esportivo: novas federações serão criadas, novos times no Brasileirão, na Copa do Brasil e, talvez, muitas equipes novas. Em Carajás, a principal força no momento é o Águia Marabá. Já no Tapajós, o domínio atual é do São Raimundo.

A intenção desse texto não é detalhar as potências futebolísticas dos novos estados e nem analisar o impacto das possíveis mudanças. Quero que os novos dirigentes tentem aprender com o estado que vem crescendo muito no futebol brasileiro, que já apresenta melhores resultados do que muitos estados mais ricos, que em pouco mais de 20 anos já tem o décimo time da região norte e que, em 2010, conseguiu seu primeiro acesso num campeonato nacional com o Araguaína.

Estou me referindo ao estado mais novo do Brasil, o Tocantins.

Fundado em 5 de outubro de 1988, o Tocantins evolui de maneira significativa quando o assunto é futebol. Antes da divisão do estado de Goiás, os times do norte era muito inferiores aos do sul, reflexo também da situação econômica do estado. Poucos se aventuravam em disputar o Estadual e preferiam jogar um campeonato de futebol amador denominado de TIN (Torneio Integração do Norte), que foi criado no final da década de 1970 e se consolidou como principal competição da região.

Um ano depois da emancipação da região, porém, os políticos locais se mobilizaram para criação de uma federação local que fosse filiada a CBF. O grande responsável pela conversa com a Confederação Brasileira de Futebol foi o então deputado federal Leomar Quintanilha, que também foi o primeiro presidente da FTF, criada em 1990. Com a criação da federação estadual, as seleções das cidades que disputavam o TIN foram se transformando em clubes, como as seleções gurupiense (Gurupi Esporte Clube), colinense (Kaburé Esporte Clube), araguainense (Transtrevo Esporte Clube e Araguaína Esporte Clube, atualmente Araguaína Futebol e Regatas), miracemense (Miracema esporte Clube e Tocantins Esporte Clube), paraisense (Intercap), alvoradense (Alvorada Esporte Clube) e  tocantinopolina, que deu origem ao Tocantinópolis Esporte Clube.

No segundo semestre do referido ano, houve a primeira Copa Tocantins de Futebol Amador (competição equivalente ao campeonato estadual na época), vencida pela equipe do Kaburé.

Equipe do Kaburé, campeã estadual Amadora

Assim, aos poucos o futebol tocantinense foi crescendo. As principais praças esportivas já contavam com arquibancadas, alguns clubes de maneira ainda muito tímida contratavam jogadores de outros estados e a imprensa dava seus primeiros passos no cenário esportivo. Em 1993, tudo mudou novamente. Depois de várias viagens para o Rio de Janeiro, o presidente Leomar Quintanilha finalmente conseguiu o objetivo de profissionalizar o futebol tocantinense. A Confederação Brasileira de Futebol anunciava a participação de equipes do estado nas competições nacionais por ela promovidas. Outro grande passo foi a inclusão do União Atlética Araguainense e do Tocantinópolis na Loteria Esportiva da Caixa Econômica Federal.

Com isso, o dia 3 de abril de 1993 se tornou um dia histórico para o futebol tocantinense: é o dia que foi disputado a 1ª partida profissional da história do futebol do estado. Válido pelo campeonato local, Tocantinpólis e Miracema jogaram em Tocantinópolis.  O TEC venceu a equipe adversária por 4 x 1 e o primeiro gol profissional do estado foi marcado por Maurinho.

E foi justamente o Tocantinópolis, que abriu o Estadual, o primeiro campeão do futebol profissional tocantinense, vencendo na final o Intercap, da cidade de Paraíso do Tocantins. Com o título, o TEC seria pioneiro também ao ser o primeiro clube do estado a disputar uma competição nacional – porém a Série C de 1993 não aconteceu por uma série de viradas de mesa feita pela CBF.

Coube então ao Kaburé, que no segundo semestre de 1993 venceu a Copa Tocantins, a honra de ser o primeiro clube do estado que disputou uma competição nacional, a inesquecível Copa do Brasil de 1994. Inesquecível, porque não pense que o Kaburé fez feio: a equipe, que tinha “craques” como Gilberto Corneta, Nica, Taguá e Pará, protagonizou uma das maiores zebras da história da competição ao eliminar o América, campeão mineiro na época. No entanto, o Kaburé caiu na fase seguinte diante do Comerical do Mato Grosso do Sul.

Em 1995, o time também passou da 1ª fase superando o Maranhão. No confronto seguinte, encarou o Flamengo. Atuando de maneira heróica no Estádio Bigodão, a equipe foi derrotada pelo placar mínimo e garantiu o jogo de volta no Rio de Janeiro. O placar de 8×0 no jogo de volta é um mero detalhe para os jogadores que puderam conhecer a Cidade Maravilhosa mais de perto. Em 1997, o Kaburé participou pela terceira vez da Copa do Brasil. O adversário foi a Portuguesa de Desportos. O empate em 1×1 garantiu a viagem para São Paulo, levou na bagagem os mesmos oito gols de 2 anos antes, mas fez o time entrar na história como único clube do estado a jogar nas duas maiores cidades do país.

Kaburé, primeiro representante do estado na Copa do brasil

Tocantinópolis, primeiro campeão profissional do estado

Em 1997, surge o primeiro time profissional da Capital, o Palmas Futebol e Regatas – hoje principal time do estado e maior campeão estadual. Em 1997 também aconteceu a última Copa Tocantins; assim, o Campeonato Tocantinense passa a dar vagas para Copa do Brasil e Série C.

Os anos 2000 foi marcado por glórias do time do Palmas FR. Depois de ser o primeiro clube da capital a jogar futebol profissional do estado, agora foi a vez de ser primeiro da capital campeão estadual: chegou a cinco finais seguidas de 2000 a 2004, só perdendo o título em 2002 para o Tocantinópolis.

De 2000 a 2002, os representantes do Tocantins na Série C não foram bem. Palmas em 2003 foi até a 5ªFase do Campeonato sendo derrotado pelo Botafogo-PB – até então a melhor campanha de um time do estado na Série C. No nível estadual, os times do interior voltaram ao domínio com títulos de Colinas e Araguaína.

O ano passado foi talvez o maior ano do futebol local: foi o primeiro ano de realização da segunda divisão estadual, prova da organização e do crescimento do futebol local. E foi também o ano do acesso do Araguaína da série D para a série C, o primeiro de um time tocantinense na história do Campeonato Brasileiro. Para aumentar o drama, com dois empates em 0x0 com Uberaba a decisão da vaga foi para os pênaltis. O Tourão do Norte perdia por 2×0 com dois penais perdidos. Incrivelmente, o Uberaba perdeu quatro cobranças seguidas com defesas do goleiro Huanderson, o grande herói do acesso. E mais uma vez o clube tocantinese fazia história – belo presente para um estado que havia terminado de completar 21 anos.

Se Criados, Carajás e Tapajós vão pegar uma situação futebolística bem superior que a do Tocantins de 22 anos atrás, mas é preciso apreender com os tocantinenses que é preciso ter calma, consolidar os times locais com torneios amadores e só depois criar uma federação, e não jogar toda a responsabilidade para cima de Águia e São Raimundo e se estabilizar nos outros âmbitos também. Quanto ao Tocantins, que o futebol local não pare de evoluir que aconteça mais intercâmbio com o futebol goiano e candango e que o acesso do Araguaína sirva de exemplo para os rivais.

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