Capitão da Inter em 86 relembra título e torce por novos Ituanos

FUTEBOL - BOLÍVAR - ESPORTES - ACERVO - Bolívar, jogador da Internacional-SP, antes da partida contra o São Paulo FC, válida pelo Campeonato Paulista de 1981 - Estádio Cícero Pompeu de Toledo(Morumbi) - São Paulo - SP - Brasil - 14/10/1981 - Foto: Acervo/Gazeta Press
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“Dinamarca caipira”. Assim a Internacional de Limeira ficou conhecida pela imprensa esportiva em seus anos dourados. Em 1986, o Leão da Paulista despachou as equipes grandes e conquistou o primeiro título paulista do interior – feito repetido 28 anos depois, pelo Ituano.

Capitão do time limeirense de 1986, o ex-zagueiro Bolívar Modualdo Guedes acredita que a conquista recente pode fortalecer o futebol caipira. “Todas as federações deveriam ajudar os clubes interioranos. Se os grandes passam dificuldades, imagina os menores”, defende.

Aos 59 anos, o xerife curte a aposentadoria em Santa Cruz do Sul, interior do Rio Grande do Sul, mas atendeu o Última Divisão para uma conversa sobre o mais antigo e o mais recente campeão paulista do interior.

Última Divisão: O que o senhor achou do título do Ituano?

Bolívar Modualdo Guedes: Foi algo importante.  Parece bastante com a importância do título que nós tivemos com a Inter. Espero que isso fortaleça as equipes do interior e que mais times consigam esse título.

UD: O senhor acredita que essa conquista pode impulsionar o futebol do interior de São Paulo?

BMG: Eu espero que sim. Isso porque eu acompanho a situação em que a Inter está. Esse título do Ituano talvez empolgue e fortaleça todo o futebol interiorano.

UD: Antes de chegar na Inter, o senhor atuou por equipes do Rio Grande do Sul. O campeonato gaúcho era muito diferente do paulista?

BMG: Eu cheguei na Inter com 31 anos. Não era nenhum garoto e tinha bagagem dentro do futebol. A diferença era que os clubes do interior do Sul tinham poucos recursos e pouca estrutura. Em São Paulo, era diferente. Na década de 1980, equipes como a Inter tinham grande estrutura e a cidade toda se envolvia com o time. Em Limeira isso aconteceu. Esses fatores foram preponderantes pra conquista daquele título.

A Inter de Limeira passou pelo Palmeiras em dois jogos no Morumbi em 1986
A Inter de Limeira passou pelo Palmeiras em dois jogos no Morumbi em 1986

UD: Qual foi o diferencial da Inter naquela conquista de 1986?

BMG: Cheguei na Inter quando me transferi da Portuguesa em 1980. Naquele ano, nós fizemos uma grande campanha com jogadores de alta qualidade. Tínhamos atletas habilidosos como Elói, Camargo, Toinzinho. Nisso, a Internacional foi se estruturando. Esse time de 86 começou a ser formado um ano antes. Eles contrataram jogadores experientes como eu, Kita, Juarez. Nisso, houve uma mescla com meninos que estavam sendo lançados como Tato e Lê. O Pepe trabalhou muito pra gente realizar aquela campanha. Isso tudo colaborou pra gente conseguir aquela marca.

UD: A Inter era tida como um azarão. Isso incomodou vocês em algum momento?

BMG: Não. Em momento algum incomodou o nosso elenco. Isso porque estávamos com jogadores acostumados a jogar em grandes clubes e passar por decisões. A gente confiava no nosso trabalho, no seu Pepe e no apoio da cidade. Sabíamos da nossa capacidade.

UD: Qual importância teve o Kita naquela conquista?

BMG: O Kita foi o artilheiro e marcou 24 gols naquele campeonato. Ele treinava muito. Após os treinamentos coletivos, ele ficava um tempão na entrada da marca de pênalti chutando. Ele foi importantíssimo. A gente sabia que segurando o adversário devíamos deixar a bola pra ele. Nisso, numa oportunidade ele ia lá e fazia o gol. Essa era a importância do Grandão, como a gente chamava ele. O Kita batia bem na bola e ainda voltava ajudando na marcação. Mas aquele grupo era muito unido.

UD: Ter como técnico um homem como o Pepe foi  importante?

BMG: O seu Pepe foi fundamental. Primeiro na honestidade, ele sempre foi uma pessoa honesta naquilo que ele pensava, jogava aberto com o grupo. Tratava todos da mesma maneira e trabalhava muito. Uma coisa que eu não vejo na maioria dos técnicos e ele falava sempre era o seguinte: “Futebol é arroz com feijão. Colocar maionese pode complicar tudo”. Ele sabia tudo. Lógico, ele passou pelo Santos de Pelé, marcou mais de 500 gols como jogador. Todos esses anos de futebol deram um grande conhecimento pra ele.

UD: O que foi mais difícil naqueles dois jogos no Morumbi contra o Palmeiras? 

BMG: Depois que passamos pelo Santos, entendemos que estávamos na final e começamos a nos preparar. As dificuldades foram enormes. Mas nos preparamos sabendo que não podíamos perder o primeiro jogo contra o Palmeiras. Sempre jogávamos da mesma maneira, fosse em Limeira ou fora. Nós, os mais velhos, sabíamos que aquela era a nossa última chance de sermos campeões. A gurizada mais jovem, como o Tato e o Lê, também se esforçou muito. Essa mescla acabou dando certo.

UD: O senhor acredita que algum dia seja possível a equipe voltar a conquistar um título estadual?

BMG: Eu espero que a Inter volte a ser grande de novo. Isso não é fácil. Limeira é a minha casa porque foram dez anos que eu vivi na cidade e com o povo de Limeira. Espero que a Inter consiga ser grande e que o título do Ituano colabore num incentivo maior aos times do interior. Acho que todas as federações do Brasil deveriam ajudar os clubes do interior. Se os grandes passam dificuldades, imagina os menores. As federações deveriam ajudar esses clubes a jogar o ano todo. Os clubes deveriam estruturar melhor suas categorias de base pra ter uma boa estrutura.

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