Botafogo de Futebol e Superstições

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“Há coisas que no universo só acontecem ao Botafogo.” Difícil encontrar alguém que nunca tenha ouvido a frase eternizada pelo jornalista Armando Nogueira. A máxima já entrou para história do futebol brasileiro e ajuda a explicar um pouco da ‘personalidade’ peculiar do clube da estrela solitária.

O Botafogo é, provavelmente, o clube mais supersticioso do Brasil, talvez de todo o mundo, especialmente desde o tempo em que Carlito Rocha, presidente do alvinegro entre 1948 e 1951, lançou mão de inúmeras superstições para ser campeão estadual de 1948. Das histórias que envolvem o cachorro-mascote Biriba, passando pelo título carioca de 89, chegando até os tempos mais recentes de Cuca e Dodô, o Botafogo tem a sua história contada por meio de conquistas, craques, mas também por muita mística e superstição.

O time de 89: Em pé: Josimar, Ricardo Cruz, Carlos Alberto Santos, Mauro Galvão, Marquinhos e Gottardo. Agachados: Maurício, Luisinho, Jéferson, Paulinho Criciúma e Vítor
O time de 89: Em pé: Josimar, Ricardo Cruz, Carlos Alberto Santos, Mauro Galvão, Marquinhos e Gottardo. Agachados: Maurício, Luisinho, Jéferson, Paulinho Criciúma e Vítor

1. O presidente e suas cortinas
Carlito Rocha foi presidente do alvinegro carioca e é considerado o grande responsável pela ‘implantação’ das superstições botafoguenses. Com o objetivo de ser campeão carioca em 1948, Carlito Rocha utilizava uma série de mandingas. Entre as mais famosas está a ordem para que as cortinas da sede de General Severiano estivessem sempre amarradas durante os jogos do time, segundo ele isso seria a garantia de vitórias. Em 1948, em uma partida contra o Olaria, o Botafogo perdia por 3 a 1. Carlito então pediu para que Aloísio Roupeiro, funcionário do clube, fosse a sede checar as cortinas. Realmente, alguém havia desamarrado as cortinas. Quando Aloísio voltou a partida já estava 3 a 3. Carlito bateu nas costas do Aloísio e disse: – Agora vamos ganhar. Minutos depois o Botafogo fazia 4 a 3.

O presidente Carlito Rocha segura o "amuleto" Biriba
O presidente Carlito Rocha segura o “amuleto” Biriba

2. O Cachorro Biriba
O Biriba, cachorro do ex-zagueiro Jamyr Sueiros, o Macaé, adotado pelo mesmo Carlito Rocha, faz parte da história do clube de General Severiano. Tudo começou quando a equipe de reservas do Botafogo venceu o Madureira por 10×2. No décimo gol, um cãozinho preto e branco invadiu o campo. Daí em diante, Biriba esteve sempre presente nas partidas do alvinegro. Tornou-se um verdadeiro membro da comissão técnica. O cachorro era um personagem tão importante que, em certa ocasião, a diretoria do Vasco da Gama tentou impedir a entrada do cachorro em São Januário, mas Carlito Rocha colocou o animal debaixo do braço e desafiou:

“Ninguém impede o presidente do Botafogo de entrar onde quer que seja e quem estiver com ele entra, com certeza.” – E entrou com o Biriba debaixo do braço.

3. Aloísio Roupeiro e as mangas longas
Aloísio Roupeiro era como uma aglutinação de todas as superstições do Botafogo. Além das superstições rotineiras, como repetir camisas, calças, ficar na mesma posição e com as mesmas pessoas da vitória anterior, Aloísio tinha vidências e as aplicava. Na final do Campeonato de 1962 (Clique aqui e veja no YouTube), Aloísio, em pleno domingo de sol, disse que tinha tido uma visão e que o Botafogo teria que jogar de camisas de mangas compridas. Assim foi. O Botafogo venceu de 3 a 0 em dia milagroso de Garrincha.

4. Campeões com jogadores ex-Flamengo
Outra superstição curiosa que corre desde sempre pelos corredores de General Severiano diz: o clube somente é campeão se tiver um ex-jogador do Flamengo no elenco.

Ao longo dos anos, são inúmeros os exemplos ex-flamenguistas campeões pelo Glorioso.

Segue-se a lista: Pirillo (campeão carioca de 1948), Servílio (campeão carioca de 1957), Dequinha (campeão carioca de 1961), Jadir (campeão carioca de 1962), Gérson (campeão carioca de 1967), Zequinha (campeão carioca de 1968), Vítor (campeão carioca de 1989), Gonçalves (campeão carioca de 1990), Wilson Gotardo (campeão brasileiro de 1995) e Aílton (campeão carioca de 1997).

5. Maradona e título carioca de 89
O dia 21 de junho de 1989 entrou para história botafoguense: após 20 anos o time se sagrava campeão carioca. Em final disputada contra o Flamengo, o Botafogo venceu com o gol do atacante Maurício. Entretanto, tudo isso poderia não ter se realizado, se não fosse a presença de camisa de Maradona no vestiário. Antes de todos os jogos do Alvinegro no Carioca de 89, o volante Luizinho sempre vestia o presente recebido de Maradona e aquilo já havia se tornado um amuleto. Mas, naquele dia, o técnico Valdir Espinosa chegou a temer pelo pior. Durante a preleção, olhou para os seus jogadores e não viu a tradicional camisa azul do Napoli. Mas a ausência era apenas uma brincadeira do jogador, que rapidamente retirou a camisa de uma bolsa e a preleção pôde continuar normalmente. O episódio retrata bem o clima que envolvia o elenco alvinegro naquele campeonato. Para se livrar do incômodo jejum de títulos, valia qualquer superstição.

Em entrevista ao GloboEsporte.com, Espinosa confessou que nunca foi de apelar para um amuleto ou comportamento supersticioso. Mas no Botafogo era muito difícil não ser envolvido pelo tradicional “clima místico”.

Eu não era assim, mas acabei ficando. Quando as coisas dão certo, você acaba repetindo certas atitudes. Isso não ganha jogo, é tudo uma bobagem, mas não faz mal nenhum. Lembro que usei a mesma calça, camisa e cueca em todos os jogos. Eu também fumava meu cigarro no banco de reservas e o deixava posicionado de um jeito que ninguém podia tocar, nem mesmo o presidente do clube.

6. Cuca e seu ônibus de marcha-ré
Em pleno século XXI, parece que o Botafogo ainda atrai para si gente supersticiosa, como o ex-presidente Carlos Augusto Montenegro, que mandava rezar missas em General Severiano para o Botafogo ganhar. Mas entre os mais recentes casos está o ex-treinador Cuca. A revista Placar (de 09/2008) revela que uma das principais mandingas do treinador paranaense era a de não deixar o ônibus da equipe andar de marcha ré. Cuca acreditava que a ação poderia dar azar para o time. Imaginem o trabalho que tinha o motorista do clube para estacionar o ônibus…

7. 7
Neste momento, caro leitor, você deve estar se perguntando: Onde está a sétima lenda botafoguense? Pois, aí vai! Uma lenda que curiosamente – ou não – envolve exatamente o número 7:

Para muitos torcedores alvinegros o sucesso de uma campanha passa pelo sucesso do jogador leva às costas o cabalístico número 7. Alguns exemplos: o gênio Garrincha; Rogério, bi-campeão em 1967 e 1968; Maurício autor do gol do título de 1989; o artilheiro irreverente e ídolo, Túlio Maravilha e, por fim, Lúcio Flávio, maestro do título carioca de 2006.

Seria, então, o 7 um número cabalístico, místico ou, simplesmente botafoguense?

Realmente existem coisas que somente acontecem com o Botafogo.

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