Até quando essa estranha mania da sociedade em condenar a vítima e arrumar desculpa ao opressor?

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Como já bem disse Abdias do Nascimento (1914-2011):

O racismo no Brasil se caracteriza pela covardia. Ele não se assume e, por isso, não tem culpa nem autocrítica. Costumam descrevê-lo como sutil, mas isto é um equívoco. Ele não é nada sutil, pelo contrário; para quem quer se iludir, ele fica escancarado ao olhar mais casual e superficial.

De um lado, pesquisas apontam que a grande maioria dos brasileiros acredita que o racismo existe, mesmo que poucos assumam ser racistas; contudo, confirmam acreditar na existência dessa chaga que tanto assola a sociedade brasileira e mundial. Por outro lado, temos o mito da democracia racial que acredita que a mistura de raças faz do Brasil um país onde todos convivem em harmonia.

E, talvez, o futebol seja um exemplo de que o talento não tem cor – basta capacidade técnica para se sobressair num esporte tão inclusivo. O esporte mais popular do país produziu nosso maior ídolo: Edson Arantes do Nascimento, um negro. E com essas duas últimas afirmações, seria possível concluir o texto e afirmar que casos de racismo no esporte brasileiro são fatos isolados.

Mas não.

Mesmo que a maioria da sociedade se assuste quando alguém grita indignado ao sofrer insultos racistas.

Mesmo que a mídia leve o debate aos programas esportivos com entrevistas a atletas e especialistas.

Mesmo que o governo leve os envolvidos para conversar e tirar foto.

Mesmo com a grande repercussão que cada fato gera.

É necessário lembrar que não são fatos isolados ou que acontecem com pouca frequência. Casos de racismo no futebol são cada vez mais frequentes.

O que acontece depois de cada incidente racista segue a mesma receita de bolo: atletas em programas esportivos, especialistas ouvidos, punição ao clube envolvido (ou não), a velha discussão desnecessária – se foi racismo ou injúria racial – e depois o abandono ao tema e, principalmente, as vítimas.

Se pararmos para ouvir com atenção os atletas, árbitros e torcedores, entre outros que já sofreram racismo, todos serão unânimes em dizer que o incidente denunciado não foi o primeiro sofrido e não será o último. Mas que, naquele momento, uma luz vermelha se ascendeu e o fez denunciar, mesmo sabendo das possíveis represálias.

E se a vítima de racismo acredita que o pior foi ouvir os xingamentos e insultos racistas no estádio, cometerá um ledo engano: descobrirá, com o passar dos dias, que o pior será o abandono ao qual será submetido por quase toda a sociedade, inclusive aqueles que no primeiro momento o apoiaram. Afinal, um país que não se assume racista e que acredita na democracia racial, acredita que a vítima tem seu papel – denunciar e, depois, sair de cena.

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Se depois da denuncia a vítima continuar a falar do incidente e decidir não perdoar seu algoz, será linchada pela opinião pública. E pior será se o denunciante tiver posicionamento firme, falar que o racismo nos estádios é só a ponta do iceberg. Afinal, o racismo de fato está na grande quantidade de jovens negros mortos, na diferença econômica que existe entre brancos e negros, da falta de oportunidade para negros em todas áreas (inclusive no futebol), na diferença econômica e defender as cotas raciais. Se assim o fizer, vai virar persona non grata.

Com receio das represálias, com medo que as portas irão se fechar, com medo da opinião pública, muitos atletas vão preferir silenciar, e se acaso – por um lapso causado pela indignação de momento – falarem do racismo, logo mais à frente vão preferir não ir adiante com a denúncia e vão silenciar novamente.

Mas a culpa não é deles.

Não são eles covardes.

Errados somos nós, que iremos abandonar o atleta.

Errado será quem desejar que este vire mártir e que, a partir daquele momento, lute contra o racismo.

Mas, errados de verdade são os clube e as federações, que nada irão fazer por esta vítima.

O maior erro é do Brasil como um todo, por não discutir o combate ao racismo, não aproveitar o momento para promover campanhas efetivas e deixar  de ficar apenas em ações pontuais.

Errado é quem acredita que o racismo pode ser considerado “zoeira”, “mimimi”, “vitimismo” ou um simples erro.

O Brasil precisa se assumir racista e dar o primeiro passo no combate a discriminação racial. Já passou da hora.

Ou vamos continuar sendo um país tão covarde que, na sua inversão de valores, condena as vítimas que denunciam a violência do racismo, exigindo punição aos culpados, e sempre arranja um desculpa para desculpar que comete tamanha atrocidade de subjugar e ofender alguém por sua cor de pelo, por sua raça.

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