Até beleza atrapalha, mas há esperança no futebol feminino

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O anúncio de Michele Kanitz como nova técnica da Ferroviária chamou muita atenção e gerou esperanças no futebol feminino. Ela vai treinar o time que é o atual vencedor da Copa Libertadores e tentar defender o título, então é um símbolo de como as mulheres podem conquistar mais espaços no esporte. Porém, ao mesmo tempo, Michele também é uma prova viva dos problemas que as mulheres enfrentam: até a beleza dela já atrapalhou. Em entrevista ao Última Divisão, ela explicou como é, ao mesmo tempo, um exemplo de problema e solução no futebol feminino.

Questionada qual foi o pior caso de preconceito que já sofreu no futebol, Michele já citou diretamente o problema da aparência e admitiu que viveu na pele essa dificuldade: “esse ‘pré-conceito’ de julgar as pessoas pela aparência e depois ver o profissionalismo já me deixou muito chateada. Quando você é nova na área, as pessoas confundem algumas coisas e se acham no direito de tentar algumas abordagens negativas. Já vi e já vivenciei essa falta de ética”.

Apesar disso, Michele diz que nunca pensou em desistir de trabalhar com futebol e hoje sabe como lidar com esse problema: “já atrapalhou em algumas situações, porém em contatos iniciais. Sempre soube me impor em relação a essas coisas, dessa forma o meu profissionalismo sempre fica em primeiro lugar e assim as pessoas começam a me olhar pelo lado profissional e não pela aparência”.

Michele participou de concurso de beleza relacionado ao futebol
Michele participou de concurso de beleza relacionado ao futebol

A técnica já ganhou até concurso de beleza, mas isso é bobagem perto do currículo que ela apresenta. Com apenas 25 anos, nunca foi técnica, mas diz que se preparou para isso com formação em educação física, pós-graduações em Futebol e Gestão de Esporte, cursos C e B da CBF, trabalhos nas categorias de base de times masculinos e estágio na equipe feminina do Santos.

Só não tem experiência como jogadora, exatamente porque desde a infância não encontrou incentivo para ir mais longe. Mas ela diz que pode driblar essa dificuldade se mantiver o diálogo aberto com as jogadoras e a comissão técnica. A Ferroviária concordou após encontrá-la na imprensa: “o convite foi feito pela diretoria da Ferroviária, que viu matérias na internet sobre minha atuação no futebol e começou a acompanhar minha trajetória e carreira”.

Michele diz que o fato de ter apenas 25 anos também não é um empecilho: “fiquei surpresa pela oportunidade de treinar uma equipe para uma competição de extrema importância, que é a Libertadores, porém não fico surpresa pela idade. Me preparei ao longo de cinco anos para este momento e chegou a hora de colocar em prática tudo o que aprendi e vivenciei”.

Michele elogiou as recentes mudanças no Campeonato Brasileiro feminino e acredita que não vai demorar para as mulheres terem mais espaço como técnicas. Recentemente Emily Lima foi anunciada como nova comandante da Seleção Brasileira, mas é um caso raro. Neila Rosas (Atlético-AC), Gleide Costa (Botafogo-PB), Patrícia Gusmão (Estancia Velha-ES), Kethleen Azevedo (Ipatinga-MG) e Ana Lúcia Gonçalves (Guarani-SP) são as poucas técnicas no cenário nacional atualmente.

Mas Michele é puro otimisto: “é de extrema importância ver que uma mulher (Emily Lima) alcançou um cargo tão expressivo. Com certeza ela se preparou muito para chegar onde está hoje. Conheço algumas mulheres que estão estudando muito para ganhar um espaço no mercado e tenho certeza que, se aprimorando sempre e trabalhando com seriedade e coerência, em pouco tempo muitas outras profissionais vão ganhar oportunidade para trabalhar no futebol”.

Michele e as "Guerreiras Grenás"
Michele e as “Guerreiras Grenás” da Ferroviária

A Copa Libertadores feminina de 2016 vai começar no dia 6 de dezembro no Uruguai. A Ferroviária caiu no mesmo grupo de Colo Colo-CHI (finalista da Libertadores do ano passado), Estudiantes de Guarico-VEN e Unión Española-EQU. O outro clube brasileiro na competição, Foz Cataratas, enfrentará Nacional-URU, ), San Martín de Porres-BOL e um time da Colômbia a confirmar.

De acordo com Michele, é difícil fazer um prognóstico de quais times chegarão como favoritos para a competição: “como o futebol feminino vive constantes mudanças durante o ano, dificilmente os times vão se repetir. O importante é mantermos o planejamento para executar um bom trabalho durante a competição”.

Por fim, Michele fez um tipo de apelo que também é adotado pelo Última Divisão e por todos que acreditam em mudanças no esporte: “o futebol feminino deveria deixar de ser segundo plano desde a formação inicial, digo nas escolas, por exemplo. Ele deve ser incentivado desde os primeiros passos da formação, assim como no masculino. Acredito que falte oportunidade para a prática do futebol feminino, porque interesse pelo esporte há muito”.

Ferroviária comemora título da Libertadores de 2015
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