Así Jugamos: glórias, traumas e sonhos argentinos na Copa

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Já conhecia a fama dos argentinos de lerem mais do que os brasileiros, mas não deixou de ser surpreendente me deparar com três ou quatro livrarias em cada quarteirão do centro de Buenos Aires. Durante minhas três semanas por lá, parava em ao menos uma por dia, como se fossem lojas de suvenires, repletas de preciosidades impossíveis de serem encontradas no meu país.

O ritual acabou me custando alguns milhares de pesos e muito peso na bagagem, mas não há qualquer arrependimento: cada livro que abro me faz voltar um pouco para lá, como se ainda pudesse agora pedir um chá e duas medialunas em algum dos vários cafés portenhos capazes de unir ares dos anos 50 e boa conexão wi-fi.

Podemos ser diariamente educados a odiar os argentinos em nossos programas de TV, mas não conheci um brasileiro que tenha voltado de lá sem repensar essa bobagem toda. Alguns, como eu, vão ainda mais longe e conseguem até admitir certa admiração pelos vizinhos (mas, calma, barra-bravas do Grêmio, sem querer mudar de nacionalidade também).

Pensando melhor, talvez seja apenas no futebol que eu ainda não tenha conseguido me tornar totalmente imparcial – é claro que eles sempre serão nossos grandes rivais. Dito isso, ok, assumo que algo dentro de mim tem muito medo do quão devastador pode ser ter a Argentina de Messi campeã da Copa do Mundo no Brasil. Mas, se isso acontecer, tentarei me conformar lembrando da minha ótima convivência quando estive lá…

Outro alento será imaginar, a cada partida em solo brasileiro, um novo capítulo de um dos melhores “suvenires” que trouxe da viagem: o livro Así Jugamos: los 25 partidos más transcendentes de la Argentina en los Mundiales, de Diego Borinsky (jornalista da revista El Gráfico e do canal Fox Sports) e Pablo Vignone (editor de esportes do jornal Página/12, terceiro maior em circulação no país).

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Somos educados a odiar os argentinos

O que havia na garrafa de Branco?

Me forcei a uma certa reflexão antes de comprar essa obra de 493 páginas. Apesar do assunto naturalmente me interessar, a concorrência era grande (a quantidade de livros sobre futebol na prateleira de qualquer livraria de Buenos Aires mostra bem o quanto o esporte e as leituras são paixões nacionais). Além disso, por cerca de R$ 40, o Así Jugamos também estava consideravelmente mais caro do que 90% dos livros que poderia encontrar.

Minha dúvida acabou quando li a sinopse na contracapa: “o que realmente havia na garrafa dada a Branco? Diego foi trapaceado em 94 ou se complicou sozinho? Que jogadores peruanos pediram ao treinador que não escalasse Quiroga em 78?”, dentre outras questões feitas para intrigar qualquer amante ou inimigo da seleção argentina.

Começo suspeito

Logo de cara, a impressão que fica é de um jornalismo pouco isento. A final de 1930 é descrita como uma grande injustiça, na qual uma Argentina mais técnica teria sucumbido diante das mutretas de um Uruguai desleal, reproduzindo, sem qualquer questionamento, os relatos dos jornais que circularam em Buenos Aires na época.

Apesar de ser uma leitura agradável e compreensiva até para alguém com espanhol intermediário, passei a pensar que o livro valeria apenas como diversão. Parecia que a paixão confessa dos autores pela camisa albiceleste comprometeria todo o trabalho de pesquisa. Aos poucos, a coisa muda.

Traumas

As desastrosas Copas de 34, 58, 62 e 66, com direito a derrota por 6 a 1 para a Checoslováquia e duas eliminações pela Inglaterra, são abordadas de maneira mais rica e convincente, repleta de curiosidades.

Na queda diante dos ingleses em Londres, por exemplo, a história mostra que a rivalidade entre duas nações tão distantes já existia vinte anos antes fatídica guerra. “Eles não se conformam de nos terem roubado as Malvinas e também querem nos roubar em um campo de futebol”, protestou o meia Alberto González na época.

Nem apenas de registros do passado se faz o livro, que entrevistou dezenas de participantes das campanhas argentinas, como Menotti, Bilardo, Kempes, Filol, Goycochea, Crespo, Mascherano e Sorín. Já Maradona e Messi, sempre mencionados com reverência, não falaram aos autores, mas opinam sobre as partidas em muitos trechos de entrevistas pinçados de biografias e da imprensa.

Coroando a sequência de capítulos depressivos, um deles intitulado “O Avião Partiu Vazio” é o único a descrever uma partida de Eliminatórias. Cruelmente, dois ex-jogadores remoem seus traumas ao lembrar do Argentina 2×2 Peru em La Bombonera, no dia 31 de agosto de 1969, última vez que uma potência desse porte ficou fora da fase final da Copa do Mundo.

Copa de 1986 é o ápice do livro (e do futebol argentino)
Copa de 1986 é o ápice do livro (e do futebol argentino)

Campeones del Mundo

A melancolia só é quebrada nos capítulos referentes ao time campeão de 1978. Porém, mesmo relatando em tom épico as conquistas daquela equipe, em nenhum momento se esconde os pontos obscuros da campanha, abrindo espaço a quem crê em uma “entrega” da seleção peruana naquele sempre lembrado 6 a 0. “Foi um resultado estranho, em todos os sentidos”, analisou o peruano Velásquez em entrevista reproduzida no livro sem qualquer censura.

Outras polêmicas, como a “água batizada” dada a Branco em 90 e o doping de Maradona em 94, são tratadas com seriedade, em textos neutros. Conforme as Copas passam, as descrições dos jogos se tornam mais completas, talvez pelo fato dos autores terem testemunhado as partidas mais recentes.

O ápice da leitura coincide com o grande momento da albiceleste e de Maradona: os capítulos sobre 1986 são insuperáveis em emoção, em muito por reproduzirem as narrações dos gols mais marcantes de Diego (e todos temos esses gols na memória) na televisão da época.

Duas décadas de ressaca

A um apaixonado seria melhor parar de ler ali. A cada novo capítulo seguinte, a auto-confiança argentina vai sendo minada. Mesmo em 90, quando a seleção chega à final derrotando a anfitriã Itália, os autores lamentam um futebol ”feio” em uma Copa “feia”. Nos Estados Unidos-94 e na França-98 – mesmo eliminando os ingleses na segunda -, o livro quase sempre coloca a Argentina como inferior aos rivais.

Em 2002, um golpe violentíssimo, quando acreditavam ter o melhor time no mundo e caem na primeira fase. A ressaca só começa a passar em 2006, no Argentina 6 x 0 Sérvia e Montenegro, primeira partida de Lionel Messi em uma Copa do Mundo (e na qual anotou seu único gol na competição até aqui).

Messi e a esperança de novas conquistas

Com La Pulga no elenco, mesmo muito novo para grandes decisões, o tom muda e as duas eliminações seguidas diante da Alemanha parecem não doer tanto. O livro termina com um otimismo raro na história do país. Em um capítulo final de estatísticas, todas são complementadas com uma observação comum: Messi pode superá-las nos próximos anos.

O último parágrafo tenta ser profético: “Lionel Messi tem a chave, falta que seus companheiros o ajudem a encontrar a fechadura. Apenas isso. Nada menos que isso. Enquanto isso, vamos entrando no clima do Mundial. Já estamos no Brasil”.

A sede de títulos e os sonhos dos autores são grandes. Resta saber se é o mesmo para Messi – e se realmente a sua chave pode abrir qualquer porta.

Argentina's Lionel Messi celebrates his game-winning goal - his third of the game - against Brazil during their international friendly soccer match in East Rutherford
A ressaca pós-86 só é amenizada com o surgimento de Messi – e um otimismo inabalável de que ele fará história no Brasil

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