Aos que ninguém vê (nem a ESPN)

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Discussões sobre quem foi melhor: Messi ou Pelé, Zidane ou Ronaldo, o Barcelona dos dias hoje ou a Seleção Brasileira de 70 dividem a crítica esportiva especializada e os especialistas críticos de boteco. Qualquer um, seja fã de futebol, cinema, política, capas de Playboy ou música sertaneja já se pegou perdendo tempo/ampliando horizontes tentando medir forças entre tudo que se conhece.

Difícil é encontrar alguém disposto a destrinchar algumas comparações menos consagradas, esdrúxulas talvez. Quem venceria os seguintes duelos imaginários: o São Caetano do início do século XXI ou o La Coruña do fim do século passado? O Paysandu, que venceu o Boca Juniors na Bombonera, ou o Rubin Kazan, que bateu o Barcelona no Camp Nou? O melhor Chievo Verona da década ou a seleção do Goiás na era do goleiro Harlei? A Portuguesa Santista sensação do Paulistão 2003 ou o Milwall, vice da Copa da Inglaterra no mesmo ano? A resposta que você der, se aceitar pensar a respeito, dirá muito sobre a sua visão de mundo.

Não encontro referências na internet, mas tenho na memória um comentário do narrador Luiz Roberto, da TV Globo, bastante ridicularizado por colocar o Monte Azul de 2010, que lutava contra o rebaixamento na elite do Campeonato Paulista, no mesmo nível de equipes que brigavam para não cair nas principais ligas europeias daquela temporada, como Livorno, Xerez, Hull City, Bochum e assim vai…

Monte Azul Paulista, uma cidade de 20 mil habitantes, fez o que podia para participar dignamente de um torneio que representava o auge dos 90 anos de história do seu clube representante. Seguiu a receita manjada: contratou jogadores rodados pouco conhecidos, medalhões em baixa e jovens promissores de diferentes partes do Brasil em busca da vitrine que é o maior campeonato estadual do país. Cumpriu o que geralmente dá para cumprir: teve brilharecos, lutou até o fim, mas caiu e teve a campanha marcada por alguma goleada sofrida diante de um grande (no caso, 5 a 1 para o São Paulo, com inconcebíveis quatro gols do estreante Fernandinho).

Até aí, dentro das devidas proporções, a comparação é perfeitamente plausível entre o Monte Azul e o Xerez de 2010. Tinham a mesma origem modesta, usaram a mesma estratégia e falharam em suas ambições comuns. Caíram e voltaram para a realidade, que é brigar por eventuais acessos e desempenhar o nobre papel daqueles que ocupam a base que sustenta a pirâmide de qualquer nação onde o futebol é popular. Sem os pequenos não existiria os grandes. Ponto.

Pouco adianta entrar no mérito de quão infeliz foi a declaração do Luiz Roberto e analisar os elencos e o nível das competições. É como discutir quem foi melhor entre Messi e Pelé; para alguns parece óbvio e para outros é o oposto. Fato é que maior salário não significa mais qualidade e nunca haverá um consenso sobre o peso das diferentes realidades: o Brasil, onde a renovação de talentos historicamente é maior, ou a Europa, onde historicamente foi possível comprar os maiores talentos do resto do mundo.

Não tenho opinião formada, portanto, sobre as comparações que levantei no segundo parágrafo, acho que seriam duelos bem parelhos. Mas a sensação que tenho é que grande parte das pessoas apontaria vantagem dos europeus em qualquer circunstância. Não que a maioria dos pequenos de lá provoque algum fascínio notável aqui (exceção feita àqueles clubes com história extracampo, como St. Pauli, West Ham e Torino – no caso do último, pequeno sim, há muito tempo). Porém, desprezamos tanto nossos clubes médios e nanicos que não conseguimos aceitá-los em um patamar melhor do que estão.

Se nem todos pensam assim, ao menos é esse tratamento que a televisão dá. Todo o meu raciocínio é embutido da seguinte pergunta: por que um canal respeitável como a ESPN transmite segunda divisão do Campeonato Inglês, segunda divisão do Campeonato Argentino, Campeonato Japonês, Campeonato Russo, Campeonato Holandês, jogos aleatórios da Turquia, etc., mas parou de passar a Série A-2 do Paulista há alguns anos, além de não procurar os direitos das Séries C e D do Brasileiro? Será que é mais fácil adquirir apenas ligas “enche linguiça” internacionais? Com todo o respeito a quem acorda cedo para assisti-las, sinceramente eu acho admirável.

Se José Trajano torce para o América-RJ. Se Eduardo Monsanto fala sempre do Tupi-MG. Se Celso Unzelte sabe cantar o hino do CSA-AL. Se Leonardo Bertozzi foi membro ativo da inconfundível comunidade Futebol Alternativo no Orkut. A ESPN deveria aproveitar esse potencial para assumir a tutoria dos degraus mais baixos do nosso futebol. A fórmula já vem dando certo em ótimos programas como Loucos por Futebol, O Brasil da Copa do Brasil e Histórias do Esporte, porém transmissões ao vivo são fundamentais.

Posso soar ridículo, mas, apesar do bom filme que é “Maldito Futebol Clube”, sobre o treinador inglês Brian Clough (que fez campanhas históricas com Derby County e Nottingham Forest), acho que daria um filme ainda melhor a trajetória do folclórico Aderbal Lana, responsável pela geração de ouro do São Raimundo-AM, que fez frente ao Fluminense de Carlos Alberto Parreira na Série C de 1999. Mas ninguém viu na TV.

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