“Ainda falta surgir um grande filme de futebol no Brasil”

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Há quatro anos, Antonio Leal teve um estalo: por que o país do futebol não tem um festival de filmes exclusivamente sobre o assunto? A partir dessa questão, ele começou a pesquisar o assunto e resolveu criar o Cinefoot (Festival de Cinema de Futebol), que está em sua segunda edição, exibindo filmes nacionais e internacionais sobre o esporte bretão.

Nesta edição, o festival sofreu um boom no número de inscrições de filmes nacionais, refletindo uma tendência que deve ser a tônica dos próximos anos, já que o país do futebol será também o país da Copa do Mundo. Para Antonio Leal, no entanto, apesar desse aumento, ainda falta um grande título para impulsionar o mercado.

Nesta entrevista exclusiva ao Última Divisão, o curador do Cinefoot contou um pouco dos bastidores do festival e traçou um panorama do mercado cinematográfico de futebol no país. “É preciso acontecer um grande filme de futebol, com grande bilheteria, sem estar necessariamente vinculado a um time”, crê Leal, esperando que isso aconteça num futuro próximo.

Última Divisão: Como foi a versão carioca do Cinefoot 2011?
Antonio Leal: No Rio, o Cinefoot tem um caráter competitivo. Então, tivemos um ambiente de futebol durante as oito sessões de disputa. Além disso, o festival deste ano foi internacional e contou com a presença de filmes da Argentina, Inglaterra, Alemanha e Uruguai, o que criou um intercâmbio legal, servindo também para os brasileiros terem mais noção de como são feitos os filmes de futebol fora do país.

UD: E a seleção dos filmes, como foi feita?
AL: Os filmes brasileiros nos chegam através das inscrições, que cresceram muito neste ano, principalmente no campo dos longas-metragens. Os curtas se estabilizaram, mas ainda são maioria, até pela facilidade de produção. De 2010 para cá, para nossa surpresa, percebemos um aumento no número de longas produzidos, todos com muita qualidade, o que é muito bom. Há ainda a parte internacional, já que frequentamos festivais fora do Brasil buscando filmes de futebol e temos ainda uma parceria com o 11mm, o mais importante festival do gênero, que acontece há oito anos na Alemanha.

UD: Existem muitos festivais deste tema no mundo?
AL: Não. O Cinefoot é o único festival de filmes de futebol na América Latina. Além dele, tem o 11mm na Alemanha, que é o mais “rodado”, e um nos Estados Unidos, por mais curioso que possa parecer. O que a gente tem notícia são esses, e foi justamente por isso, pela falta, que criamos o Cinefoot. Acreditávamos que o país do futebol tinha que ter o seu festival de cinema de futebol. E, se olharmos pela perspectiva da Copa do Mundo ser realizada aqui, eu acho que o mundo vai querer conhecer as histórias de futebol do Brasil. Isso é muito importante.

UD: Qual seria o motivo desse aumento da produção audiovisual sobre futebol no Brasil?
AL: O Brasil nunca produziu filmes de futebol de acordo com a sua representatividade. Temos muitas histórias para contar, muitas mesmo. Aí tem vez que alguém acorda para isso, consegue um investidor e faz algo. Então, o que eu acho que está acontecendo é a concretização de alguns financiamentos que já vinham sendo tentados há algum tempo. Somado a isso, acho que todos já estamos começando a viver um clima de Copa do Mundo, o que faz com que essa produção floresça. Para você ter uma ideia, do Cinefoot passado para este, foram lançados quatro filmes de futebol no circuito comercial, entre eles “Soberano”, que teve 45 mil pagantes. Para este ano, existem mais três projetos em execução, sendo um deles “Heleno”, com Rodrigo Santoro.

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UD: E o que falta para o filme de futebol se concretizar e ser mais aceito no Brasil?
AL: Não sei, mas acredito que seria preciso acontecer um grande filme de futebol, com uma grande bilheteria, sem estar necessariamente vinculado a um time. Isso daria uma impulsionada, com certeza. Aliás, esse fato de o filme ser vinculado a um clube, tem uma grande contradição, porque quando uma produtora busca realizar um filme com a marca de um clube, ela tem a expectativa de que uma torcida imensa compareça. E um filme brasileiro, qualquer que seja, que atinja 1 milhão de espectadores é considerado bem-sucedido. Por isso, fazer um filme ‘clubístico’ gera essa expectativa de que vá render uma boa presença. O problema é que nem isso tem acontecido.

UD: E qual seria a fórmula de um filme de sucesso nacional, sem ser ligado a qualquer clube?
AL: Eu acho que seria interessante ter um roteiro bem construído, abordando uma figura que possa transcender essa questão de clube e ter ligação com qualquer tipo de torcedor. O nome do Ronaldo, que você citou, pode ser uma opção. Só que eu acho também que, independente disso, existem muitas boas histórias para contarmos sobre futebol no Brasil, e é preciso começar a ter essa prática. Nesse sentido, eu acho que a existência de um festival voltado para isso é uma forma de incentivar. A gente que trabalha com festivais sabe que, quando nasce um festival, ele acaba dando um empurrão na produção. Claro que a gente ainda não tem esse alcance com o Cinefoot, mas vamos, aos poucos, conseguindo isso ao longo dos anos.

UD: E para a próxima edição do Cinefoot, em 2012, qual a expectativa?
AL: Ao final de toda edição, a gente faz  reuniões de avaliação para saber o que deu certo ou o que precisa ser modificado. Para o ano que vem, queremos aproximar a programação do Rio com a programação daqui (São Paulo), e já estamos negociando isso com o Museu do Futebol. O principal problema quanto a isso é que a sala daqui não é propriamente de cinema, então se  a gente trouxer um filme internacional, por exemplo, teremos que investir em legendagem e até no sistema de exibição, caso o filme esteja em um formato que não seja digital. Temos a possibilidade de usar o Unibanco Arteplex daqui, já que usamos o do Rio. No entanto, queremos continuar a parceria com o Museu, que é muito interessante. Por isso, acho que devemos dar um passo de cada vez. E estamos dando.

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