#AgoraÉQueSãoElas: É mulher e gosta de futebol? Prepare-se!

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A campanha “Agora é que são elas” chegou ao Última Divisão. O site abre espaço para esse movimento importante que busca valorizar os direitos das mulheres em um momento que elas sofrem tantos ataques – nas ruas, na Câmara dos Deputados e inclusive dentro dos estádios. Abaixo, nossa amiga Carol Canossa, que já fez participações especiais no UD, faz seu relato sobre o assunto e mostra que lugar de mulher é onde ela quiser.

Eu sou um pessoa de sorte. Ou, numa perspectiva mais pessimista, sou uma distraída que não percebe alguns dos assédios nojentos que a gente sabe que acontece por aí. Talvez uma mistura dos dois, aliada a uma vigilância que toda mulher acaba criando ao longo do tempo para prever e escapar de situações constrangedoras.

Isso, porém, não me impediu de viver momentos chatos relacionados ao futebol. Primeiro, com a paixão: desde que passei a ter um pouco mais de consciência da vida, lá pelos meus seis, sete anos, passei a curtir esportes em geral. Dada a popularidade do futebol, era natural que a paixão por ele viesse na mesma proporção. Mas acredite: isso, quando você é menina, é praticamente um atestado de que um dia você vai se revelar lésbica.

Não sou homossexual, mas posso dizer que já senti um pouquinho do preconceito que elas sentem. Sabe aquele olhar torto da família ou das coleguinhas de escola quando você comenta que quer jogar? Apesar de ter rolado alguma melhora nesse sentido nos últimos anos, era como se fosse um pequeno crime uma mulher gostar de futebol. Quando as pessoas dedicam energia para julgar o gosto alheio (seja por futebol ou por mulheres) é que percebemos o quanto nossa sociedade é doente.

Cresci em uma família de palmeirenses, mas não fanática a ponto de ir e me levar ao estádio. Naqueles anos 90, auge da pancadaria das organizadas, havia ainda um certo receio de se meter em um ambiente desses. Era melhor acompanhar só pela TV. Por isso, só comecei a frequentar os jogos do Palmeiras quando já ganhava o meu dinheiro, no começo da vida adulta. Esse processo se itensificou recentemente, agora que tenho companhia.

Pois é: por mais que a gente fique confiante, ir a um estádio sozinha ainda dá um certo receio. Pra mim, o mais chato era sempre o caminho: vestir a camisa de um time por aí faz com que você chame a atenção e acabe sendo alvo de brincadeiras. Muitas vezes é só uma coisa saudável, sem problemas, mas você nunca sabe quando aquilo pode virar um assédio ou uma provocação a sério de gente disposta a matar ou morrer por conta do futebol.

Dentro do estádio, o pior momento ocorreu há poucos meses, durante o Palmeiras x Avaí válido pelo primeiro turno do Brasileirão 2015. Estava no Gol Sul com o meu marido e, duas cadeiras à direita, dois homens passaram o jogo inteiro berrando para os rivais “voltarem pra Santa Catarina, aquela terra de putas” e outros impropérios nessa linha. O incômodo com esse machismo foi tão grande que até tirou um pouco da graça da vitória por 3 a 0. Inclusive, boa parte dos homens ali no setor pareciam estar constrangidos com esses dois caras.

Longe de mim ser uma pessoa cheia de “não-me-toques”. Na verdade, eu até acho que provocar o adversário faz parte do esporte, mas há um limite. Nesse caso, o limite foi ultrapassado sem a menor cerimônia. Mesmo assim, sou uma pessoa que gosta de ver o lado bom das coisas e acho que estamos evoluindo. A iniciativa #AgoraÉQueSãoElas, impensável anos atrás, é uma prova disso, só que ainda temos um longo caminho a percorrer. Sera que um dia eu vou me sentir tão tranquila como um homem para gostar de futebol?

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