Acesso, 12 mil pessoas no estádio e um vice-campeonato indigesto: a Inter de Limeira quer voltar a rugir alto

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Eu fui um dos 23 pagantes no pior público da história do Limeirão em 30 de março de 2008, em um Inter de Limeira 2 x 4 XV de Jaú – e olha que errei o horário do jogo e comprei o ingresso no intervalo, assistindo só ao segundo tempo. No último sábado, 27 de maio, eu fui um dos 12.396 pagantes para ver Inter de Limeira 0 x 2 Nacional – e tive que entrar com quase uma hora de antecedência para garantir meu lugar.

Eu particularmente não me lembrava quando dois times em divisões de acesso jogaram entre si com um público superior a 10 mil pessoas. Até o Limeirão, no último sábado, superar a barreira dos 12 mil pagantes na decisão da Série A3 e mostrar duas coisas: a) a Inter de Limeira é gigante, seja em história como em torcida; b) o interior ainda é muito forte.

A diferença abissal entre o duelo da já rebaixada Inter em 2008 com o da finalista, com acesso garantido e favorita – que tragicamente perdeu o título em casa – em 2017 pode ser normal para alguns. Podem dizer: “ah, final é fácil”. Sim, é claro que o Limeirão estava lotado de simpatizantes no clima de final. Mas não, a história recente do interior paulista aponta que não é tão tranquilo assim encher um estádio em decisões.

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O ano de 2017 foi realmente atípico para a torcida da Inter. Acostumada aos famosos “500 torcedores de sempre”, logo na estreia a torcida já tomou um susto ao se deparar com fila no Limeirão para comprar ingressos – eu, por exemplo, consegui entrar apenas com dez minutos de bola rolando – e mais de mil pagantes. Em campo, vitória por 2 a 0 sobre o Paulista de Jundiaí.

A presença em peso da torcida é, também, de vital importância para todo o interior paulista. Com a alta cúpula da Federação Paulista de Futebol (FPF) no estádio, inclusive o presidente Reinaldo Carneiro Bastos, o jogo entre Inter e Nacional pode ser uma mensagem de que o interior vive e merece mais carinho. E isso vai muito além da Inter. Como explicar os públicos de mais de quatro mil pessoas em partidas recentes de XV de Jaú, na última divisão, e do Noroeste, na Série A3?

(Crédito: Inter de Limeira/Divulgação)

Pode-se dizer que a presença da torcida na final da Inter é fruto de um trabalho iniciado há pelo menos cinco anos. Depois de sofrer humilhação atrás de humilhação até 2010, quando disputou a quarta divisão estadual, a campeã paulista de 86 enfrentou a agonia de sete anos seguidos de Série A3, uma das divisões mais difíceis de aguentar – você está a um passo do inferno da chamada “Bezinha” e ainda longe do paraíso da A1.

Prova de amor

Não houve prova de amor maior ao torcedor do que a sequência de fracassos seguidos nos últimos anos. Em 2011, uma derrota na última rodada em Taubaté tirou a Inter de Limeira da fase decisiva do certame. De 2012 a 2015, foram quatro anos seguidos de classificações ao quadrangular final que terminaram com lamentações em Limeira.

Até 2012, quando contava com o atual santista Lucas Lima no time, havia a administração de um empresário paulistano. A reviravolta da Inter, de verdade, começou a ocorrer em 2013, quando limeirenses e torcedores se uniram ao projeto.

O fundo do poço do Leão da Paulista é discutível: para alguns, é o fatídico rebaixamento em 2009 para a última divisão do Estado. Para outros, é o maldito maio de 2014, quando viu o rival Independente subir pela primeira vez para a Série A2 do Paulista com uma vitória acachapante sobre a própria Inter ainda na penúltima rodada do quadrangular final da A3.

João Vallim: o Tite de Limeira

Depois de mais uma decepção na última fase em 2015, a temporada 2016 começou de forma lastimável e a Inter caminhava a passos largos para o retorno à Segunda Divisão do Campeonato Paulista. Uma administração nova, um elenco desconhecido… Tudo apontava para um descenso e, quem sabe, um fechamento das portas.

(Crédito: Inter de Limeira/Divulgação)

Até a chegada de João Vallim.

Pense na importância de Tite para o torcedor do Corinthians. Pensou? É o que Vallim significa para os apaixonados pelo Leão.

Apesar de estrear com uma derrota em um jogo terrível no Limeirão contra o São Carlos, João Vallim fez milagre para deixar a Inter na Série A3. Com contrato renovado, teve toda a responsabilidade de montar o elenco para 2017. Trouxe velhos conhecidos seus e, com um elenco jovem, viveu muito mais altos do que baixos na A3 deste ano.

A Inter terminou com a melhor campanha geral do campeonato, somadas todas as fases. A escapada do título deixou, sim, um gosto amargo na boca de muitos torcedores da Inter. Ninguém, nem provavelmente o torcedor mais pessimista, esprava perder para o Nacional, que era apontado por muitos como o mais fraco entre os oito classificados e surpreendeu levando os três mata-matas com vitórias com autoridade fora de casa frente a Rio Branco, Olímpia e Inter.

Talvez muito da derrota da Inter tenha a ver com o ambiente criado após a vitória por 1 a 0 no duelo de ida, em São Paulo. O clima durante a semana em Limeira era o melhor possível. Vendas de ingressos a rodo. Camisas da Inter que sumiam do estoque como há tempos não acontecia. Até o avião promocional do circo hospedado ao lado do Limeirão resolveu sobrevoar a cidade divulgando a decisão – quer algo mais interiorano do que isso?

O Limeirão estava magnífico no último sábado como há tempos não se via – o último público dessa magnitude foi no jogo contra o Corinthians em 2005, com maioria de corintianos para ver o primeiro gol de Carlitos Tevez pelo clube. Tudo isso com um porém: uma recomendação do MP barrou a entrada de faixas e baterias das torcidas da Inter para a final. A única vez que isso havia acontecido no ano foi na outra única derrota da Inter em casa, 1 a 0 para o Flamengo de Guarulhos. Coincidência?

(Crédito: Inter de Limeira/Divulgação)

A Inter está preparada para a Série A2?

“A gente começa a Série A2 de 2018 com R$ 600 mil a menos que os outros times.”

A frase, dita pelo ex-presidente e atual membro da diretoria leonina Taymon Bueno logo após o acesso conta o Monte Azul, diz respeito à cota da FPF que a Inter – e outros times, verdade seja dita – tem barrada por causa de processos judiciais. E dá uma dimensão do trabalho que a equipe terá pela frente.

Não, a Inter não está preparada para a Série A2 de 2018, uma competição que tem muito mais gastos do que a A3. Em 2017, o que se viu foi uma luta diária para conseguri ajuda de patrocinadores – em dinheiro ou de outras formas – e manter as contas em dia, sem nenhum atraso de salário durante a competição.

A presença de 12 mil pessoas em um sábado à noite no Limeirão pode e deve, contudo, dar um gás extra para a Internacional buscar mais ajuda de patrocinadores e parceiros em busca de atrelar o nome a um time com torcida, prestígio e, por enquanto, vencedor novamente. A ideia da diretoria é que a Inter esteja na Série A1 em no máximo três anos. Para quem está longe desde 2005, pode soar audacioso. Mas o Leão quer mesmo é rugir alto como nos velhos tempos.

(Crédito: Inter de Limeira/Divulgação)
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