A tragédia do Ellis Park

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A Copa do Mundo de 2010 transformou o torcedor de futebol em um amigo íntimo do Ellis Park. É fácil encontrar quem esteja disposto a contar que ele é a casa do Orlando Pirates, ou que ele foi palco da histórica final do Mundial de rugby de 1995. Porém, um dos fatos mais marcantes (e trágicos) da história do esporte sul-africano teve como palco o mesmo Ellis Park – no caso, a morte de 43 torcedores durante uma partida de futebol.

Aconteceu no dia 11 de abril de 2001, um sábado. Kaizer Chiefs e Orlando Pirates jogavam pela 29ª rodada da Premiership (a primeira divisão da National Soccer League). Os dois times eram protagonistas da temporada, e o Derby de Soweto em questão seria decisivo para definir o campeão. Além disso, como lembrado no relatório final da comissão formada para avaliar o caso, “os dois times têm as maiores torcidas da África do Sul, e são ambos sediados em Johanesburgo”. Desta forma, um clássico que já era carregado de rivalidade se desenhava ainda mais importante no momento.

Ellis-Park-2A partida era decisiva, mas falhas se sucederam desde o início. Mesmo com 60 mil ingressos a disposição, cerca de 14 mil haviam sido vendidos até a sexta-feira, véspera do jogo – enquanto os clubes não costumavam vender entradas via agências terceirizadas para não perder um percentual dos lucros, os torcedores não tinham o hábito de comprá-las com antecedência (clique aqui). Desta forma, era grande a quantidade de torcedores nos arredores do Ellis Park antes do jogo – segundo o próprio Kaizer Chiefs, mandante no clássico, seriam 80 mil, de todas as partes do país. “Os planos operacionais enfatizavam que a capacidade do estádio não seria excedida, e que um aviso de casa cheia seria divulgado às 15 horas”, conta o clube no relatório do desastre.

Ao que tudo indica, o estádio contava com 60 mil pessoas na hora da partida. Mesmo assim, dadas a diversas falhas operacionais, os números dão conta que até 120 mil torcedores estariam nas arquibancadas do Ellis Park durante o confronto entre Chiefs e Pirates. Fora do estádio, estariam cerca de 40 mil torcedores ávidos por entradas, cujas vendas já haviam se encerrado. Um telão seria utilizado para transmitir imagens do jogo para o lado de fora, mas seu uso foi cancelado por conta dos gastos elevados.

Dentro do estádio, o jogo começou às 20 horas (horário local), mas virou tragédia logo aos 33 minutos do primeiro tempo. Um suposto grito de gol de empate (1 a 1) fez com que a massa do lado de fora forçasse os portões para tentar acompanhar o que acontecia em campo. A partir daí, a cena descrita pelo relatório é assustadora.

“Está claro que, no momento em que o jogo começou, muitas pessoas já estavam feridas e/ou mortas. Eventualmente, operações de resgate foram iniciadas. Algumas das vítimas foram tiradas das arquibancadas e deitadas atrás de um dos gols com a partida ainda em progresso. Foi necessária a intervenção do presidente da PSL para paralisar o jogo por volta das 20h40. Vítimas eram mostradas no telão do estádio – um movimento sábio para que os espectadores pudessem entender porque o jogo estava sendo paralisado. Mais corpos e feridos foram trazidos para o campo. Os médicos e paramédicos então entraram em ação”, conta o documento.

Nenhuma das vítimas levadas ao gramado sobreviveu. No total, foram 43 mortos e cerca de 250 feridos.

A tragédia causou grande comoção no país. “É fundamental que cada elemento desta tragédia seja observado, para que tomemos as medidas necessárias para garantir que este tipo de coisa jamais aconteça novamente”, disse na época Thabo Mbeki, então presidente do país. “Realmente espero que tenhamos um relatório final da comissão judicial em curto espaço de tempo”, concordou Ngconde Balfour, ministro dos esportes em vigência.

De fato, o relatório saiu após pouco mais de um ano – mais exatamente em 29 de agosto de 2002. Nele, a Justiça sul-africana apontou diversos erros no caso (Kaizer Chiefs e Ellis Park Stadium Management empurravam um para o outro a responsabilidade da segurança da partida) e na estrutura do futebol sul-africano em geral. O documento ganhou ares de “Relatório Taylor” da África do Sul, exigindo melhores condições de segurança nos estádios do país – que nem sequer havia sido escolhido como sede da Copa do Mundo de 2010 na época.

2012_4$thumbimg111_Apr_2012_114634883-llCuriosamente, os mesmos clubes já haviam protagonizado desastre semelhante dez anos antes. Em 1991, Chiefs e Pirates disputaram um amistoso na cidade de Orkney, a 200 quilômetros de Johanesburgo. O estádio local, com capacidade para 23 mil torcedores, teria recebido 30 mil, sem que estivessem separados entre seus clubes. Em dado momento, o árbitro anulou um gol do Kaizer Chiefs, o que gerou protestos e brigas nas arquibancadas. No total, 42 pessoas morreram na ocasião.

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