Uma terceira força em Porto Alegre

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Quem fala em rivalidade gaúcha, logo pensa nas partidas entre Internacional e Grêmio – ou talvez nos clássicos entre Caxias e Juventude, em Caxias do Sul, ou Bagé e Guarany, em Bagé. De fato, o Gre-Nal tem dominado a cena da rivalidade porto-alegrense nos últimos 50 anos. Mas o cenário nem sempre foi assim – especialmente quando o Grêmio Esportivo Renner aprontava das suas entre as décadas de 40 e 50.

big_Gremio Esportivo Renner De Porto Alegrers01O Renner foi fundado em 27 de julho de 1931, bem depois de seus principais rivais municipais, Grêmio (15 de setembro de 1903) e Internacional (4 de abril de 1909). O clube foi idealizado diretores e funcionários das antigas lojas A. J. Renner & Cia. (atuais Lojas Renner), de forma a dar atividades de recreação esportiva aos operários das fábricas. De início, o time oficialmente criado por Victor Gottschold, Avelino Amaral e Apolinário Corrêa começou a disputar suas partidas na Rua Frederico Mentz, no bairro Navegantes. No entanto, pouco mais de quatro anos depois de seu estabelecimento, o Renner inaugurou seu próprio estádio, o Tiradentes.

O local foi construído em um terreno doado por Antônio Jacob Renner (proprietário das lojas que levavam seu nome), e não demorou para ganhar a alcunha de Waterloo, dada a dificuldade para que o clube fosse derrotado em suas dependências. E foi em uma dessas “batalhas de Waterloo” que o Alvirrubro inaugurou as dependências de seu campo, derrotando o Taquarense por 5 a 4 em 15 de novembro de 1935. No ano seguinte, um pouco mais ambicioso esportivamente, o Renner participou da criação da Liga Atlética Porto-Alegrense (LAPA), que organizaria uma das ligas municipais. Entretanto, o fracasso da competição porto-alegrense da LAPA fez com que o ‘Time dos Industriários’ deixasse de lado seu projeto inicial e integrasse a Associação Metropolitana Gaúcha de Esportes Atléticos (AMGEA), filiada à CBD (‘AMGEA cebedense’).

Em campo, os primeiros resultados logo vieram. Em 1938, o Renner conquistou o Torneio Início e o Campeonato Municipal da AMGEA cebedense, disputado contra Novo Hamburgo, Foot-ball Club Porto Alegre, Sokol e Ferroviário entre junho e outubro. No primeiro turno do Municipal, venceu Novo Hamburgo (2 a 0), empatou com Ferroviário (2 a 2), e goleou Porto Alegre (8 a 3) e Sokol (5 a 0). No segundo turno, venceu o Novo Hamburgo (4 a 1), perdeu para o Ferroviário (1 a 0) e derrotou Porto Alegre (3 a 1) e Sokol (2 a 0). Com o título da Zona Centro do Rio Grande do Sul, o Renner garantiu a vaga para o Campeonato Gaúcho do mesmo ano, mas acabou derrotado nas semifinais pelo Riograndense (campeão da Zona Litoral) e ficou de fora da final.

Em 1939, a AMGEA unificou seus dois ‘braços’, o Cebedense e o Especializado, inchando o Campeonato Municipal daquele ano. Entretanto, um acordo feito com a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA) do Rio de Janeiro em 1937 obrigou os gaúchos a colocarem apenas cinco clubes em sua primeira divisão. Fez-se então o Torneio Relâmpago, com 11 equipes de Porto Alegre disputando as vagas na elite. Originalmente, Internacional, Grêmio, Cruzeiro, Força e Luz, São José, Americano, Porto Alegre, Ferroviário, Renner, Sokol e Villa Nova disputaram o torneio, mas o Villa Nova abandonou a competição depois de três partidas. O Renner terminou na quarta colocação, empatado com Cruzeiro e Americano, mas foi o lanterna do torneio desempate, sendo ‘rebaixado’ para a Série B de 1940, ao lado de São José, Porto Alegre, Ferroviário e Sokol. Ainda em 1939, o Grêmio faturou a Série A do Citadino, enquanto o Americano foi rebaixado e deu lugar ao São José, campeão da Série B da capital gaúcha.

Décadas de 40 e 50 – o auge
Em 1940, o Renner chegou a cogitar a mudança de seu nome para Industrial ou Navegantes, de forma a tentar melhor sorte nos estatutos da AMGEA. Sem sucesso, o clube deixou escapar o acesso para a Série A, ainda que a boa fase do ataque valesse ao atacante Caburé uma convocação para a seleção brasileira, que disputaria o Campeonato Sul-americano na Bolívia – Caburé jamais jogou, já que os clubes gaúchos se recusavam a ceder seus atletas. Naquele mesmo ano, precisando apenas de um empate para voltar à elite sul-rio-grandense, o Renner foi derrotado pelo Porto Alegre, e permaneceu nas divisões inferiores. Aliás, não permaneceu, porque sequer se inscreveu para disputar o acesso em 1941.

Em 1942, com o início do profissionalismo no estado, o clube alvirrubro venceu a segunda divisão de Porto Alegre, mas não subiu. O acesso só veio em 1944, com mais um título da competição. Em 1947, o time foi quinto colocado do Citadino (que classificava seu campeão para o Campeonato Gaúcho, disputado contra os campeões de outras zonas regionais), ficando de fora da fase final (que contou com Internacional, Força e Luz, Cruzeiro e Grêmio); em 1948, ficou em sexto, à frente apenas do Nacional; em 1949, em sua melhor campanha até então, o Renner foi quarto, atrás de Grêmio, Inter e São José, e à frente de Nacional, Cruzeiro e Coríntians.

Mais estável, o Renner se tornou presença constante na elite porto-alegrense. Em 1950, a equipe do Tiradentes ficou em terceiro lugar, atrás da dupla Gre-Nal. No ano seguinte, ficou com a quinta colocação. Em 1952, foi vice-campeão municipal, perdendo o título para o Colorado por apenas dois pontos – no caso, o Inter venceu sete e empatou três de seus dez jogos, enquanto o Renner venceu seis, empatou três e perdeu uma, exatamente um 3 a 0 fora de casa para o próprio Inter, na segunda rodada do primeiro turno, em 14 de setembro. Em 1953, mais uma vez o título municipal ficou com o Internacional, que superou Grêmio e Renner.

A consagração, entretanto, viria em 1954, quando o Campeonato Citadino de Porto Alegre contou com clubes de São Leopoldo (Aimoré), Caxias do Sul (Flamengo e Juventude) e Novo Hamburgo (Floriano). Cruzeiro, Força e Luz, Grêmio, Internacional, Nacional e Renner – todos da capital – completaram o certame. Arrasador, o Time dos Industriários não perdeu nenhuma de seus 18 partidas, vencendo 15 e empatando três. Acabou campeão da cidade com três rodadas de antecipação, contabilizando 33 pontos (o Inter, vice, somou 27), e garantiu presença na disputa do título gaúcho.

Com isso, em janeiro de 1955, o Renner iniciou a disputa do quadrangular que decidiria o título estadual do ano anterior. Pela frente, o clube porto-alegrense teria o Grêmio Esportivo Gabrielense, de São Gabriel (representante da Serra), o Brasil de Pelotas (representante do Litoral e do Sul) e o Ferro Carril de Uruguiana (representante da Fronteira). O Gabrielense desistiu do torneio antes da primeira rodada, tornando a disputa ainda mais centralizada entre Brasil e Renner. Tanto que, no primeiro turno do triangular, os dois times venceram o Ferro Carril (2 a 1 para o Brasil e 2 a 0 para o Renner) e empataram entre si (1 a 1 na terceira rodada).

brenomello17030No segundo turno, os pelotenses venceram o Ferro Carril por 3 a 1, enquanto o Renner venceu por apenas 1 a 0. Em melhor fase, o Brasil viria a Porto Alegre para tentar a vitória sobre o Renner; porém, em mais uma batalha no Waterloo, os alvirrubros venceram por 3 a 0, com gols dois gols de Breno Mello (foto) e um de Pedrinho, e conquistaram – invictos – a maior glória de sua história. O time entrou em campo com Valdir de Moraes; Bonzo, Ênio Rodrigues, Orlando (depois Olavo) e Paulistinha; Leo e Ênio Andrade; Pedrinho, Breno Mello, Juarez e Joelcy, e ganhou tanta fama que ficou conhecido no Rio Grande do Sul como “Papão de 54”.

As boas campanhas se repetiram nos Citadinos dos anos seguintes (que passaram a se chamar Divisão de Honra), mas sem levarem novamente o Renner às fases decisivas do Gauchão. Em 1955, o clube foi terceiro em Porto Alegre, atrás de Inter e Grêmio. Em 1956, foi vice-campeão, atrás dos gremistas. Em 1957 e 1958, foi novamente terceiro, desta vez atrás de Tricolores e Colorados – na segunda, fez o artilheiro da competição: Higino, com 17 gols, ao lado de Gessi (Grêmio) e Marino (Aimoré). Em todas as ocasiões, o Municipal de Porto Alegre contou com pelo menos dez clubes, sendo que a edição de 1958 contou com 11. Ainda em 1957, o clube disputou o Torneio Quadrangular do Rio de Janeiro, ao lado de Vasco, Fluminense e Bangu (que se sagrou campeão).

Entretanto, ao final de 1958, a boa fase do Renner encontrou um adversário duro de ser combatido: as dívidas. Ao longo da década de 50, o clube vinha representando prejuízo para as lojas de A. J. Renner, que não pôde ser encoberto nem mesmo com o título estadual de 1954. Aí, ao final do Municipal de 1958, a empresa decidiu dar fim ao seu departamento de futebol profissional, encerrando o crescimento de um emergente dos gramados gaúchos.

O legado

valdirarq_11094Ainda assim, o Renner deixou importantes marcas para o futebol do Sul do Brasil. O time de 1954 contou com uma legião de craques do futebol das décadas de 50 e 60 – casos de Valdir Joaquim de Moraes (foto) e Ênio Andrade (que foram contratados pelo Palmeiras após o fechamento do clube gaúcho). Além disso, o Papão de 54 teve os artilheiros do Gauchão de 54, Joeci e Breno Mello – este segundo se transferiu para o Rio de Janeiro, onde defendeu o Fluminense e atuou como ator, participando de filmes como Orfeu Negro (vencedor da Palma de Ouro em Cannes), Os Vencidos, O Negrinho do Pastoreio e Prisioneiro do Rio.

Para ver mais:
Breno Mello fala sobre a Copa do Mundo de 2014, canta, e atua em cenas do filme Orfeu Negro (1, 2 e 3).

Fontes: Wikipedia e RSSSF.
Fotos: Brands of the World (distintivo) Milton Neves (Breno Mello e Valdir Joaquim de Moraes)

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