A seleção de Martinica em quatro atos

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Martinica é uma pequena ilha pertencente à França na região das Antilhas com 385 mil habitantes. Sua área total é de 1.128 quilômetros quadrados, menor do que a cidade de São Carlos (SP).

Por não ser um território independente, ela não pode se filiar à Fifa, embora seja membro da Concacaf desde 1983. Isso significa que Martinica não pode disputar eliminatórias ou mesmo amistosos oficiais contra países de fora do continente, já que seus jogadores são oficialmente considerados franceses. A seleção martinicana seria equivalente a uma seleção estadual nossa.

Mas isso não impede que os jogadores da ilhota batam uma bola de vez em quando nas competições continentais. Mais precisamente nas únicas competições em que eles podem disputar: a Copa do Caribe e a Copa Ouro. E, em 2017, eles disputam seu principal campeonato continental pela 5ª vez na história.

Por isso selecionamos aqui os quatro momentos mais memoráveis do Les Matinino:

Ato I: Estreia e triunfo na Copa do Caribe

Antes de se filiar à Concacaf, Martinica já era integrante da Caribbean Football Union (CFU) desde 1978. E era sob o guarda-chuva dessa última que começou a ser disputada a CFU Championship.

Martinica levantou a taça em duas ocasiões: em 1983 e 1985. Mas, em 1989, o torneio foi extinto para a criação da Copa do Caribe, e que valeria vaga para a recém-criada Copa Ouro da Concacaf.

A edição de estreia deixou poucas saudades. O time terminou em terceiro do grupo B e ficou pelo caminho, mas ao menos deu para garantir uma goleada histórica: 10 a 0 em cima da pobre São Martinho. São Vicente e Granadinas e Antilhas Holandesas avançaram para a fase final.

No torneio seguinte, em 1990, Martinica quase chegou lá. Com apenas dois grupos de três times, a ilha se garantiu na final com uma vitória, um empate e um saldo de gols melhor. O confronto seria contra Trinidad e Tobago, os donos da casa.

Mas uma tentativa de golpe de estado do grupo radical islâmico Jamaat Al Muslimeen e a chegada de uma tempestade tropical na região fizeram com que as partidas fossem suspensas e o torneio cancelado sem um vencedor.

Duas edições depois, em 1992, com a Copa reformulada com mais times, Martinica terminaria em terceiro lugar, após perder para a Jamaica na semifinal. Os jamaicanos, porém, perderiam o título para os donos da casa, que novamente foi Trinidad e Tobago.

No ano seguinte, em 1993, de novo a Jamaica entrou em seu caminho. Só que agora numa final, e em terras jamaicanas. Após um 0 a 0 no tempo regulamentar, Martinica levou a melhor nos pênaltis.

O campeonato suado não era apenas uma amostra da força de Martinica no cenário local, mas também a garantia de que disputaria a Copa Ouro, o teste definitivo para saber se eles eram tudo aquilo mesmo.

Ato 2: O choque de realidade

A estreia de Martinica na Copa Ouro de 1993 foi num grupo complicado: México (que dividia a sede com os EUA), Costa Rica e Canadá. Logo na estreia, contra os mexicanos, levaram um sacode: 9 a 0, sendo 7 gols do atacante Zaguinho, filho do ex-corintiano Zague.

(Para não ser tão injusto com a ilhota, os mexicanos aplicaram goleadas em quase todos os adversários daquele torneio, marcando 28 gols em cinco jogos. Inclusive a final terminou em 4 a 0 para cima dos EUA.)

Depois do baque, Martinica conseguiu um empate em 1 a 1 contra o Canadá e uma derrota por 3 a 1 para a Costa Rica e acabou voltando para casa com uma experiência meio amarga para contar.

Mas o choque de realidade não afetou imediatamente a seleção. Em 1994, eles ficaram com o vice da Copa do Caribe – apesar de terem tomado de 7 a 2 de Trinidad e Tobago na final. Em 1996, eles chegaram à terceira posição, mas depois disso a estrela de Martinica parou de brilhar durante alguns anos. Mais precisamente, até a virada do novo milênio.

Ato 3: O quase

Em 2001, Martinica alcançou novamente um terceiro lugar na Copa do Caribe, e, pelas novas regras, isso já lhe garantia uma vaga na Copa Ouro de 2002, a segunda de sua história.

Aquela Copa Ouro, aliás, foi recheada de histórias alternativas. Teve jogadores cubanos deserdando para os EUA, teve Equador eliminado no sorteio após o grupo terminar empatado, teve a Coreia do Sul de Guus Hiddink mostrando uma prévia do que faria na Copa do Mundo daquele ano e teve a seleção martinicana.

Na primeira fase, eles enfrentariam dois velhos conhecidos: Costa Rica e Trinidad e Tobago. Pelo regulamento, apenas o último colocado não iria para a fase final.

Após uma derrota para a Costa Rica na estreia por 2 a 0, apenas a vitória interessava. E no estádio Orange Bowl, em Miami, aos 6 minutos do segundo tempo, Patrick Percin fez o gol salvador que tirou o Trinidad e Tobago de Renê Simões da competição e garantiu ao Les Martinino uma inédita classificação para a fase seguinte.

Nas quartas de final, mais um jogo duro, dessa vez contra o Canadá. Martinica abriu o placar com um gol contra do canadense Mark Rogers, mas o empate veio logo em seguida com Kevin McKenna.

Na decisão por pênaltis, o placar estava 4 a 3 para os martiniquenses e, caso convertessem a quinta cobrança, eles estariam nas semifinais. Eles só não contavam que Fabrice Reuperné mandaria a bola para a Lua e colocaria o Canadá de volta à disputa.

Na última cobrança de Martinica, Pascal Lina carimbou a bola na trave; e Jason Bent meteu um chutaço no ângulo sem chance para o goleirão Eddy Heurlié, e o Canadá avançou no torneio.

Nas semifinais, os canadenses foram eliminados pelos EUA em uma nova cobrança de pênaltis. Já na disputa de terceiro lugar, eles conseguiram passar pela Coreia do Sul por 2 a 1 graças a um gol contra bizarro de Kim Do-hoon seguido do gol da virada marcado pela lenda local Dwayne De Rosario.

Ato 4: A redenção

Martinica voltaria a disputar a Copa Ouro em 2003 e 2013, mas em ambas as ocasiões eles não conseguiram ir muito longe, caindo na fase de grupos.

Só que em 2013 os canadenses novamente passaram por seu caminho. E Fabrice Reuperné, o próprio, que poderia ter feito história 11 anos antes, se vingou de seus algozes com requintes de crueldade.

Quando o jogo caminhava para um empate em 0 a 0, já nos acréscimos do árbitro, a zaga do Canadá cortou um cruzamento do ataque martinicano. A bola viajou para a entrada da área, onde justamente estava Reuperné. Sem pensar duas vezes, ele meteu uma bomba de primeira e marcou um tremendo golaço, garantindo a vitória da Martinica, que viria a ser a única daquela edição. Se isso não é lavar a alma, eu não sei de mais nada.

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