A história dos videogames (contada pelas camisas de futebol)

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Nos anos 90, havia dois uniformes que para mim eram considerados lendários: a do Arsenal com o logo da Sega e o da Fiorentina com o da Nintendo.

O que eu não sabia na época era como futebol e games possuem uma certa ligação histórica – e obviamente que não estou falando apenas dos games de futebol, cujos primórdios já falamos por aqui.

Há uma história de que o Atari 2600 foi um dos responsáveis pelo fim da Era de Ouro no soccer norte-americano. O New York Cosmos (aquele) era de propriedade de Steve Ross, então presidente da Warner Bros; e a WB era dona da marca Atari desde 1976.

Com o fiasco da adaptação de E.T. para o console no Natal de 1982 e a quebra do mercado de games nos EUA no ano seguinte, a Warner perdeu uma montanha de dinheiro e rapidamente teve que se desfazer de boa parte de suas empresas subsidiárias, incluindo o NY Cosmos e o Atari. Já esvaziada pela falta de recursos, a North American Soccer League (NASL) fecharia as portas em 1984.

O Atari 2600 ao menos ganhou um jogo com Pelé (Reprodução)

No vácuo do crash do mercado de games nos EUA – que só se recuperaria na metade final dos anos 80 – os computadores pessoais começaram a despontar como a grande coqueluche entre gamers e geeks. Alardeada como O Futuro (e eles estavam certos), os micro-computadores tinham o potencial de explorar dois públicos: o dos pais que trabalham e dos jovens que jogam.

Uma dessas empresas foi a canadense Commodore, que patrocinou alguns dos grandes clubes europeus, como Bayern de Munique (1985 a 1989), o Chelsea (1987 e 1994, incluindo o modelo Amiga) e o Paris Saint-Germain (1993).

Time da Commodore: Bayern de Munique (acima, à esq.), PSG (acima, à dir.) e Chelsea (abaixo) (Reprodução/The Unheard Nerd)

Mas foi nos anos 90 que as coisas ficaram interessantes. Foi a época da maior rivalidade da história dos games, com a Sega e a Nintendo disputando o mercado cabeça a cabeça, com direito a cutucadas pouco amistosas nas publicidades. Eram tempos selvagens (e que se refletia no comportamento dos fãs mais exaltados), mas o lado bom é que as séries clássicas que conhecemos hoje surgiram ou se consolidaram nessa época.

Também foi no começo dos anos 90 que o futebol no Japão se profissionalizou. Em 1992, com a criação da J. League, patrocinar as equipes nascentes virou um terreno fértil para muitas empresas japonesas.

A Sega escolheu a JEF United de Chiba, região que fica a 40 km de Tóquio, para estampar sua marca entre 1992 e 1996. A Nintendo investiu no time onde fica sua sede, o Kyoto Sanga, no qual inclusive detém ações minoritárias. E ao mesmo tempo tivemos a Capcom, que na época explodia com Street Fighter 2, dando aquela força ao clube da cidade, Cerezo Osaka. A parceria durou entre 1994 e 1996.

As belas camisas da J. League: JEF United (acima, à esq), Cerezo Osaka (acima, à dir.) e Kyoto Sanga (abaixo, com o ideograma da Nintendo nas costas)

Na Europa, a Nintendo decidiu apostar suas fichas no Sevilla, que em 1992 montava um time de respeito: Maradona e Davor Suker como dupla de ataque, Simeone no meio de campo e o campeão mundial Carlos Bilardo no comando técnico. O problema é que o clube andaluz não foi bem naquela temporada, e com a saída de El Pibe de Oro para o Newell’s Old Boys, a empresa japonesa também decidiu pular fora.

Diego Maradona no Sevilla: longe do auge (DIARIO AS)

Here Comes a New Challenger

A segunda metade da década de 90 viu o surgimento de um novo protagonista no mercado de consoles. A gigante dos eletrônicos Sony tinha trabalhado em um projeto com a Nintendo para criar uma entrada de CDs para o Super Nes. A ideia foi cancelada e apenas alguns protótipos foram produzidos, mas a Sony partiu em carreira solo e lançou seu console Playstation no final de dezembro de 1994 no Japão.

Essa mudança nas peças do tabuleiro obrigou as antigas rivais a se mexerem. Em 1997, a Nintendo retornou ao velho continente patrocinando o timaço da Fiorentina, que tinha Batistuta, Edmundo e o português Rui Costa na linha ofensiva, e Giovanni Trapattoni na área técnica. O supertime de estrelas, porém, novamente não conseguiu títulos sob a Big N – o máximo que conseguiram foi um vice-campeonato da Copa da Itália em 1999, último ano da parceria.

Timaço da Fiorentina em 1999 ficou no quase (Reprodução/Trivela)

Já a Sega, que foi quem mais sofreu com a chegada do Playstation, esperou até 1999 para contra-atacar. Com o lançamento do Dreamcast marcado para setembro daquele ano, a empresa do Sonic estampou sua marca não apenas no clássico uniforme do Arsenal como também no do Saint-Etienne, do Sampdoria e do Deportivo La Coruña.

O investimento acabou não valendo muito a pena já que o Dreamcast foi descontinuado apenas dois anos depois, vendendo menos de dez milhões de unidades e obrigando a fabricante a se reestruturar e abandonar o mercado de consoles para sempre. A culpa disso foi o lançamento do Playstation 2 em 2000, que entre outras vantagens sobre o console da Sega, como gráficos melhores e retrocompatibilidade com o PS1, trazia ainda um leitor de DVDs.

Mas se serve como consolo, o Arsenal levou os títulos da Liga Inglesa e da FA Cup justamente na despedida da parceria, na temporada 2001-2002.

Sorte para o Arsenal, azar para a Sega (Premier League)

Também em 1999, a Sony (que tinha patrocinado a Juventus em grande fase de 1995 a 1998) passou a estampar a marca Playstation no francês Auxerre em um negócio que durou até 2006 e que passou por três consoles diferentes: PS1, PS2 e PSP.

Djibril Cissé era o grande nome daquele time (AFP)

Current Gen

Na virada do século, com a entrada de novos patrocinadores no futebol, que logo se transformaria em um negócio de cifras bilionárias, as empresas de games foram cada vez mais se afastando do mercado europeu – com algumas exceções, como o patrocínio da Sony à UEFA Champions League.

Porém, as três principais companhias ainda anunciam no futebol, mas em nível local. A Nintendo, como já dito, patrocina o Kyoto Sanga, enquanto a fabricante do Playstation tem seu próprio time, a Sony Sendai, que disputa a quarta divisão do futebol nipônico.

Sony Sendai (Site oficial)

Já a Microsoft patrocina o Seattle Sounders, clube que fica próximo à sede da empresa, em Redmond (WA). A parceria começou em 2008, no ano em que o time se filiou à Major League Soccer – a estreia aconteceria apenas no ano seguinte.

Por coincidência ou não, as cores do time possuem um tom de verde semelhante ao da marca Xbox. Por isso seus uniformes costumam ser os mais bonitos da liga norte-americana.

Poucos clubes fazem tão bem a dobradinha futebol e games quanto o Seattle Sounders (Site oficial)

It’s in The Game

Sem dúvida as marcas Fifa, Pro Evolution Soccer e Football Manager se tornaram tão grandes e famosas quanto o de qualquer outra empresa no futebol. E em alguns momentos, eles ultrapassaram a linha do virtual e do real.

Em 2009, o Pro Evolution Soccer fez um anúncio pontual na camisa da Lazio para um jogo contra a Inter de Milão, válido pelo Campeonato Italiano. Há dois detalhes nessa história: primeiro que a partida em questão foi em dezembro, época próxima ao Natal. E segundo que, na ocasião, o reinado do PES estava sendo seriamente ameaçado pelo Fifa entre o preferido da galera – este último acabou se saindo melhor com o passar dos anos.

Infelizmente, a camisa nunca foi comercializada (Reprodução)

Até onde descobri, a franquia da EA Sports patrocinou apenas dois times pouco conhecidos da Inglaterra. De 2010 a 2014, a empresa anunciou a série Fifa no Swindon Town – atualmente na terceira divisão – e, de 2012 a 2014, no Leyton Orient – que disputa a quarta divisão. Esse último, aliás, já tinha sido patrocinado pela finada Acclaim, o que resultou numa camisa das mais estilosas.

Mas o porquê dessa investida da EA no futebol alternativo inglês ainda é um mistério.

Camisas do Swindon Town (2011-2012) e do Leyton Orient (2013-2014) (Divulgação)

O que não é tão misterioso é a série Football Manager estampar a camisa de algumas equipes britânicas. Desde 2012, o Watford é patrocinado pelo game manager mais famoso do mundo e por um motivo simples: Miles Jacobson, um dos cabeças da produtora Sports Interactive, é torcedor declarado do time.

Miles Jacobson com o então técnico do Watford, Gianfranco Zola, em 2012 (Divulgação)

Outro clube que tem o apoio do FM é o AFC Wimbledon, clube criado em 2002 por torcedores descontentes do Wimbledon FC. Na época, a diretoria decidiu mudar o time centenário de local, que posteriormente passaria a se chamar Milton Keynes Dons FC. O espírito do novo clube, cujas decisões são tomadas pelos fãs, inclusive o design das camisas, inspirou a SI Games a entrar com tudo na empreitada (inclusive a SI ironicamente sofreu algo semelhante quando romperam com a então distribuidora Eidos em 2003 e perderam o direito de usar o nome Championship Manager. Eles, porém, renasceram das cinzas sob a alcunha Football Manager).

AFC Wimbledon é alternativo desde o berço (Reprodução)

 

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Fonte The Unheard Nerd
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