A estranha geografia da bola: quando clubes de futebol competem fora de seus estados (ou países)

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A segunda divisão do campeonato candango encerrou no mês de outubro. Depois de 15 anos, o Paranoá voltou a vencer o torneio local. A pequena cidade satélite, homônima do clube, se encontra a 16 km de Brasilia e tem a tradição de apoiar a equipe nas arquibancadas.

De imediato, o título trouxe festa para a cidade, porém em menos de quinze dias, estourou a bomba que o clube mudaria de nome e local, indo parar na cidade mineira de Paracatu. Segundo o presidente, a transferência ocorreria devido a falta de apoio financeiro da cidade, mas a população sussurrava que havia algumas cifras envolvidas.

Paranoá foi campeão invicto da Segundinha (Facebook)

Toda a situação expõe duas temáticas atuais no futebol. Primeira, a venda de vagas das equipes em divisões superiores, vide o Bragantino (SP). Segundo, o desrespeito à geografia política, fato esse que incomoda o futebol candango, talvez o único que tem esse sentimento. Este texto focará na segunda situação.

 

No futebol Candango

Desde 1996, a Federação de Futebol do Distrito Federal abriu as portas para os clubes do Entorno (cidades vizinhas ao Distrito Federal) para se filiarem. A ideia do então presidente Weber Magalhães, que buscava a criação da segunda divisão local, teve aceitação da maioria dos clubes filiados. A exigência era que as equipes não ficassem a mais de 200 km (União Paracatu a 236 kms conseguiu) e que a sede social precisava se encontrar em Brasília.

A abertura fez com que várias equipes se filiassem: Alexaniense (GO), Bosque Formosa (GO), Cristalina (GO), Cristalinense (GO), Grêmio Valparaíso (GO), Luziânia (GO), SE Planaltina (GO), Unaí (MG), União de Paracatu (MG) e Paracatu (MG). Além do Botafogo (DF) já ter sido sediado no Novo Gama (GO) e Santo Antônio do Descoberto (GO). Esta história é bem contada com Emanuel Colombari em “A história dos times de Minas Gerais e Goiás no Campeonato Brasiliense”.

Pacaratu foi semifinalista do Candangão 2019

O incômodo acentuou em 2014 com o título do Luziânia, pois o clube bloqueou as vagas em campeonatos nacionais até então ocupadas pelos legítimos candangos, fato que repetiu-se em outros anos. O ano de 2016 também se tornou marcante, pois um terço das equipes do campeonato local eram de fora do DF: Formosa, Luziânia, Planaltina e Paracatu.

 

No futebol Nacional

Essa geografia “esquisita” não é exclusiva do futebol brasiliense. No Nordeste do país temos uma situação mais curiosa. A cidade de Timon é um município que a própria população não sabe a qual estado pertence. O município é maranhense, porém a proximidade com Teresina, separados por uma ponte, faz com que todos se sintam mais piauiense do que maranhense.

Imagem aérea das duas cidades (Google Maps)

A confusão se estendeu ao futebol. A cidade possui duas equipes profissionais: Timon Esporte Clube (equipe maranhense) e Esporte Clube Timon (clube piauiense). O primeiro foi fundado em 2005, com cores azul, branco e verde, e conhecido como “papagaio dos cocais”. Nunca participou da elite maranhense e estreou profissionalmente em 2007.

O segundo foi fundado em 2015, com cores amarela, preta e branca, e conhecido como soberano timonense. Em 2015, mandou seus jogos em terras maranhenses, mas nos anos seguintes os realizou na capital piauiense. Este ano, conseguiu o inédito acesso a elite piauiense.

Timon EC e EC Timon

No futebol Internacional

No futebol exterior, é cada vez mais comum essa situação. Quem nunca pensou: “Por que na Copa América e demais competições não temos representantes das Guianas e do Suriname?” ou “Por que a Austrália vai para a Copa do Mundo ocupando a vaga da confederação asiática?”.

As respostas são simples. A primeira é porque o nível técnico dos selecionados são tão inferior aos demais sul-americanos que a CONMEBOL e as federações locais acham injustos se confrontarem (para saber mais assista no vídeo abaixo). Para a segunda, a Federação Australiana de Futebol prefere disputar uma competição que dê vaga direta a copa (apesar de melhor nível técnico) do que a frágil eliminatórias da Oceania que leva a uma repescagem.

Em campeonatos nacionais, podemos citar inúmeros equipes que disputam campeonatos de países diferentes de sua sede.

A Major League Soccer (maior ligar americana de futebol) tem 3 equipes canadenses (Montreal Impact, Toronto FC e Vancouver Whitecaps) como participantes. Inclusive em 2017, teve o canadense Toronto FC como campeão estadunidense. Estendendo a USL PRO (similar a uma segunda divisão) temos equipes do Caribe, principalmente de Porto Rico e Antígua e Barbuda.

Na Grã-Bretanha, a geografia de País de Gales dificulta o desenvolvimento da liga local. Isto faz com que várias equipes disputem a famosa Premier League (liga inglesa). Entre as mais conhecidas temos Cardiff City e Swansea.

Swansea City e Cardiff: rivalidade galesa no campeonato inglês (Kieran Mcmanus/BPI/Shutterstock)

Há diversos outros casos pelo mundo, desde Mônaco indo pra França como Brunei e Malásia. Pensando na geografia do Brasil, poderíamos ter situações interessantes e benéficas. Listamos algumas:

  • Petrolina (PE) jogando o Baianão, já que a distância é menor e temos o Juazeirense do lado de Petrolina;
  • Portela de Teixeira de Freitas (BA) pouco participou do futebol profissional baiano. A proximidade do Espírito Santo (metade da distância para Salvador) facilitaria com custos. Inclusive, a cidade gosta de futebol, tanto que recebeu o Serrano (BA) em 2013 na elite baiana;
  • Ituiutaba (MG) poderia ressurgir ao futebol após a saída do Boa Esporte indo para o futebol goiano, pois a maior distância a percorrer seria para Goiânia, que é a metade do caminho de Belo Horizonte. Lembrando que ainda temos Montes Claros (MG), que fica a 800 km de distância.
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