A depressão de Buffon reflete a relação torcida-jogador no mundo inteiro

Jure Makovec/AFP
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Publicado originalmente em Falando de Esporte

No último dia 8 de janeiro de 2018 foi publicada na revista “Vanity Fair”, dos Estados Unidos, uma conversa com o goleiro Gianluigi Buffon. Nesta, o campeão mundial com a Itália em 2006 declarou ter sofrido com depressão no auge da sua carreira, chegando a pedir para não entrar em campo.

”Foi há 15 anos, durante alguns meses, quando tudo deixou de fazer sentido. Senti que as pessoas não estavam interessadas em mim como pessoa, apenas como jogador. Todos perguntavam por Buffon, mas ninguém por Gigi. Foi um momento complicado”, disse o goleiro.

Ídolo da Juventus, clube pelo qual jogou por 17 temporadas, Gianluigi Buffon é considerado um dos melhores goleiros da história do futebol. Nas costas são nove títulos italianos pela Juve, uma Copa da UEFA (atual Liga Europa) pela Parma e uma Copa do Mundo pela seleção italiana. Além de várias premiações individuais como estar na lista do FIFA 100, em 2004, e títulos de melhor goleiro do mundo pela FIFA e IFFHS.

Depressão é algo sério, mas infelizmente tratado por muitos como besteira e drama. Como o próprio goleiro falou, é uma doença difícil de conviver e se ele não tivesse buscado ajuda na época, provavelmente não a teria vencido. “Nunca tive medo de demonstrar minhas emoções, de chorar. Não devemos ter vergonha de fazer isso”, declarou Buffon.

Buffon foi um dos principais nomes do título mundial da Itália em 2006 (Foto: Getty Images)

Gianlugi Buffon é o meu maior ídolo se tratando de futebol, era goleiro por causa dele e até hoje é a posição que mais admiro e gosto de jogar. Com todo o sucesso que teve, é difícil de imaginar que passou por essa doença, mas como eu disse mais de uma vez aqui, é uma doença. Não escolhemos se vamos tê-la.

Ver ele declarando isso em entrevista me fez pensar em como o torcedor em geral trata os jogadores de futebol. Eu também já fui assim, até viver ao lado de jogadores e acompanhar essa rotina diariamente dentro e fora de campo. É uma vida muito difícil, ainda mais para o risco enorme de nada dar certo. Como mostrou um levantamento da Confederação Brasileira de Futebol em 2017, mais de 80% dos jogadores de futebol recebem menos de mil reais por mês.

Como grande parte dos torcedores acompanha apenas das arquibancadas, acabam por ser leigos quanto ao assunto, achando que é uma vida fácil de pessoas que conquistaram seus sonhos. Mas não é bem assim. Jogadores que treinam, em grande parte dos clubes, dois turnos por dia, jogam com dor, muitas vezes moram até em alojamentos ou casas caindo aos pedaços, sem saber se receberão salários, têm que escutar quase todo o jogo que “só fazem isso” ou então serem chamados de “sem vergonha”, “mercenário”, entre outros apelidos e frases que não condizem com a realidade.

Se o Buffon, que recebe salários extremamente altos e tem uma estrutura magnífica para a prática do futebol, sofre com a pressão da rotina de jogador e acaba tendo seu psicológico afetado. Imagina aquele jogador de segunda divisão nacional, que muitas vezes tem salário atrasado, vive longe da família, tem uma estrutura horrível para treinar e ainda pouco auxílio na parte física.

Sei que muitos jogadores que lerem esta matéria irão se identificar. Falta empatia no mundo do futebol. Falta compreensão e conhecimento sobre a vida de um jogador. E acima de tudo, falta respeito com a profissão de muitos indo atrás dos seus sonhos. Do jogador do Paris Saint-Germain ao jogador do Blumenau Esporte Clube, todos precisam lutar diariamente para ganhar o seu pão. Não vivem vidas fáceis e têm dificuldades para estarem com a família, independente do quanto ganham. O torcedor precisa entender que atrás daquele cara correndo pelo seu time tem um ser humano, um filho, um pai, um irmão.

Vamos respeitar o profissional.

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