A Crazy Gang de Wimbledon: 30 anos de uma das grandes zebras do futebol inglês

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Os jovens dos anos 90 reconhecerão Vinnie Jones como o gângster de Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (1998) ou o caçador de recompensas de Snatch: Porcos e Diamantes (2000). Os mais novos talvez o lembrarão como o Juggernaut de X-Men 3: O Confronto Final (2006) ou de algum outro filme de ação qualquer que esteja reprisando no Domingo Maior e que tenha algum cockney brutamontes de mal com a vida.

O fato é que para os mais antigos Vinnie Jones é reconhecidamente um dos jogadores mais sujos e desgraçados a pisar em campos ingleses. Sob as quatro linhas, ele era o típico cão-de-guarda raivoso do tipo que bate primeiro e pergunta depois, o primeiro da fila na hora em que o pau come e profissional na arte da treta. Enfim, o clássico volante anti-herói que faz a torcida amá-lo e odiá-lo em proporções igualmente balanceadas.

E muito além do que um jogador casca-grossa que fez sucesso nas artes dramáticas, Vinnie Jones participou ainda de um dos mais célebres casos de Davi e Golias do futebol. No dia 14 de maio de 1988, o pequeno Wimbledon e sua alcunhada Crazy Gang bateu o então campeão inglês Liverpool na final da FA Cup.

O mais incrível dessa história é que 11 anos antes, o Wimbledon FC sequer era um time considerado profissional pela regras do futebol inglês. Apesar de ter sido fundado em 1889, o clube londrino só alcançou a quarta divisão da Football Association em 1977, após décadas disputando as ligas regionais semi-amadoras.

Até 1983, o Wimbledon alternou entre a quarta e a terceira divisão diversas vezes até subir em definitivo para a segunda divisão em 1984. Duas temporadas depois, contrariando os prognósticos iniciais, os Dons finalmente fizeram sua estreia na elite do futebol inglês. E foi justamente naquele ano, em 1986, que Vinnie Jones, então com 21 anos, foi integrado ao time — e seu estilo de jogo bruto cairia como uma luva na Crazy Gang.

Um time de desajustados

Foto: Andy Hooper

A história do Crazy Gang começa antes disso. Com a saída de Dario Gradi do comando do time, em 1981, o jovem assistente técnico Dave Bassett foi promovido a treinador do Wimbledon. Foi sob sua gestão que os Dons adotaram o estilo que os levaram ao sucesso: jogo direto com bicuda para frente, muita correria e chutes para o gol a qualquer custo. Tanto que havia uma cota de chutes e cruzamentos que deveriam ser feitos por jogo, e que caso não fosse cumprida haveria algum tipo de punição para o time. Além disso, havia um receituário quase sudaca que envolvia jogadas baseadas na força física, intimidação e faltas desleais para desestabilizar o adversário — e que quase sempre dava certo.

Graças a esse estilo pouco convencional, o Wimbledon virou um time maldito em terras britânicas. As humildes instalações do estádio Plough Lane eram um inferno para os adversários da elite acostumados a vestiários modernos e bem equipados. O ex-atacante inglês Gary Lineker certa vez disse que a melhor maneira de assistir ao Wimbledon é pelo Ceefax (ou seja, à distância).

Não que essa fama incomodasse a equipe. A falta de estrutura (os treinos eram feitos em parques públicos e o banheiro de uma cafeteria virava um vestiário informal), a pouca idade dos jogadores e a imagem de outsiders ocupando um espaço que não era deles criou na equipe um espírito de união, no mínimo, diferente.

As brincadeiras sem noção eram comuns entre eles e ser razoável era um conceito inexistente por essas bandas. Certa vez, eles atearam fogo no carro do atacante Alan Cork apenas porque ele tinha pedido um aumento de salário. Outra piada comum era sempre deixar o aniversariante do dia pelado e fazê-lo correr pelo parque como veio ao mundo. Segundo Gary Blissett, os frequentadores já nem se assustavam mais quando viam um homem nu em disparada durante o passeio matinal pelo parque. “Deve ser o aniversário dele”, pensavam.

Com essa mistura de forte entrosamento, espírito de equipe e tática de futebol baseada no esforço e na força física, o Wimbledon em campo mais parecia uma equipe saída da guerrilha — e que aos poucos conquistava espaço no cenário nacional.

1988

Foto: Getty Images

A temporada 1987-1988 foi repleta de novidades para o Wimbledon. Após uma briga com o presidente do Dons, Sam Hammam, Dave Bassett deixou o time e foi treinar o Watford de Elton John. Em seu lugar entrou Bobby Gould, que logo se adequou ao espírito do time. Segundo ele, antes da decisão contra o Liverpool, ele conseguiu subornar um dos funcionários do estádio de Wembley para que os jogadores pudessem sentir a atmosfera do local.

Outra história que circula é que na véspera da partida, ele deu uma grana para os jogadores mais ansiosos irem relaxar no pub. Segundo Vinnie Jones, o local estava lotado de torcedores, que aos poucos começaram a reconhecê-los e perguntaram: “Espera um minuto, vocês não vão jogar amanhã?”

O nervosismo era justificado. O Liverpool tinha uma das melhores gerações de sua história, com a dupla de ataque Peter Beardsley e John Aldridge, além do meia John Barnes, fazendo miséria na primeira divisão. Os Reds levantaram o caneco com apenas duas derrotas e nove pontos de vantagem sobre o segundo colocado, o Manchester United. O título de 1987-1988 era o quinto deles em sete temporadas (o rival Everton conquistou os outros dois campeonatos), comprovando o protagonismo do Liverpool naqueles anos 80 (incluindo em casos tristes como na tragédia de Heysel de 1985 e no desastre de Hillsborough de 1989).

Para eles, o título da FA Cup de 1988 era importante porque seria a primeira vez que um time inglês conquistaria pela segunda vez na história o Double (ou seja, vencer a liga e a copa da Inglaterra na mesma temporada), uma marca para sacramentar aqueles anos dourados do futebol da terra dos Beatles.

Por causa de todos esses elementos, a final começou nervosa. Logo aos 9 minutos de jogo, Vinnie Jones entrou criminosamente com as duas pernas em Steve McMahon, e inexplicavelmente nem levou um cartão amarelo do juiz. Mais tarde, em um documentário, Jones revelaria que ele ficou dias planejando a jogada para desestabilizar McMahon ou, na melhor das hipóteses, tirá-lo do jogo.

https://twitter.com/empireofthekop/status/801085417898512384

O Liverpool até tentava o gol, mas o futebol envolvente dos Reds era interrompido pela defesa sólida do Wimbledon, com Andy Thorn e Eric “Ninja” Young na zaga e Dave Beasant fechando o gol. Enquanto isso, os Dons tinham dificuldade para se lançar ao ataque, mas quando isso acontecia conseguiam mostrar algum perigo. Até que aos 36 minutos do primeiro tempo, após uma cobrança de falta de Dennis Wise pela lateral esquerda, a bola encontrou a cabeça de Lawrie Sanchez, que foi o suficiente para tirá-la do goleiro Bruce Grobbelaar. Wimbledon 1 x 0 Liverpool.

O Liverpool continuou atacando e a zaga do Wimbledon continuou estragando a festa vermelha. Até que aos 15 minutos do segundo tempo, um pênalti para os Reds tornou o empate uma questão de honra. John “Aldo” Aldridge, que jamais errara nenhuma cobrança naquela temporada, chutou forte no canto esquerdo, mas Beasant se esticou e foi lá buscar, tornando-se assim o primeiro goleiro a salvar uma penalidade na história da FA Cup.

Tudo parecia conspirar a favor dos Dons e esse foi um sinal forte demais para ignorar. Uma das zebras mais improváveis do futebol britânico mostrava sua cara — e era uma cara de poucos amigos.

Fim de uma era

O triunfo em Wembley foi o ápice e o momento final da Crazy Gang. Alguns jogadores importantes daquele time, como Dave Beasant, Dennis Wise e Vinnie Jones, foram vendidos algum tempo depois. O Wimbledon continuou firme na primeira divisão até a temporada de 1999-2000, quando terminou na antepenúltima posição e foi rebaixado.

Em 1991, com as novas regras de modernização no futebol inglês, criadas para que não se repetisse a tragédia de Hillsborough, o Wimbledon teve ainda que dar adeus ao clássico Plough Lane e passou a mandar seus jogos no Selhurst Park, do Crystal Palace. Essa situação se perdurou até 2003, quando os administradores do time enfim encontraram um lugar próprio para mandar seus jogos… a 90 km dali.

Numa jogada extremamente controversa, o chairman Charles Koppel decidiu transferir o clube para Milton Keynes, uma cidade vizinha a Londres e que há tempos tentava se desenvolver econômica e culturalmente. Por isso, um estádio e um time local cairiam como uma luva nos planos da prefeitura. Em uma decisão apertada , a comissão formada pela Football Association aprovou a transferência em 2002.

A mudança foi um golpe duro na torcida que, compreensivelmente, parou de apoiar o time na temporada seguinte. A média de público, ainda no Selhurst Park, caiu vertiginosamente e muitos torcedores não viam mais naquele Wimbledon FC o time que aprenderam a amar quando mais novos. Tanto que, em maio de 2002, nasceu o AFC Wimbledon, o clube de torcedores abandonados pela modernidade.

Já o velho Wimbledon FC agonizava. Sem apoiadores para comprar ingressos ou consumir seus produtos, suas finanças entraram em colapso. Para piorar, o Wimbledon FC voltou a ser visto como um time maldito pelos fãs de futebol da Inglaterra. Só que agora não pelas jogadas desleais dentro de campo, mas por sua administração ter dado as costas à comunidade e manchado seu passado em troca de uma promessa no paraíso.

Sem muitas opções, Pete Winkelman, líder do consórcio que construía o novo estádio em Milton Keynes, decidiu comprar o time e refundá-lo sob o nome de Milton Keynes Dons em 2004. Assim, o Wimbledon FC deixava de existir tal qual como surgiu: um estranho no ninho que sabe fazer barulho como ninguém.

Fonte Shortlist Telegraph WDSA
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