A Copa dos Campeões de 2002: o grande título de um Paysandu inesquecível

0 1.412

A vitória do Paysandu contra o Boca Juniors, em La Bombonera, será para sempre recordada como um momento épico do futebol do Norte do Brasil. Caminhando para treze anos sem representante na Série A – justamente desde o rebaixamento do Papão, em 2005 – a região vive de lembranças daquele memorável elenco bicolor, que se classificou para a Libertadores graças ao título da Copa dos Campeões de 2002.

O troféu da Copa dos Campeões – torneio realizado pela CBF entre 2000 e 2002

A Copa dos Campeões

Disputado no início do segundo semestre, antes do Brasileirão, o torneio teve três edições, entre 2000 e 2002. Com o atrativo de oferecer uma vaga na Libertadores, a Copa dos Campeões reunia os melhores colocados dos campeonatos regionais, que viveram seu auge naquele período (Torneio Rio-São Paulo, Copa Sul-Minas, Copa Centro-Oeste e Copa Norte; além dos campeões Paulista e Carioca nos dois primeiros anos).

Palmeiras, campeão da Copa dos Campeões de 2000

Em 2000 e 2001, a competição teve nove equipes, com uma fase preliminar (triangular entre campeões do Norte, Nordeste e Centro-Oeste para eliminar um participante) e mata-mata até a final. Os jogos de ida e volta eram disputados alternadamente entre Maceió e João Pessoa, capitais pouco habituadas a receber os maiores clubes do país – uma fórmula de sucesso para lotar estádios.

Palmeiras x Sport (título alviverde), em 2000; e Flamengo x São Paulo (vitória rubro-negra), em 2001, foram decisões marcantes, provando que a taça crescia em popularidade ano a ano.

Flamengo, campeão da Copa dos Campeões de 2001

Em 2002, a Copa dos Campeões ganhou mais importância com o chamado calendário quadrienal (proposta da CBF para enfraquecer os estaduais em detrimento a copas regionais mais longas). O nome do projeto indicava que ele duraria pelo menos quatro anos, mas foi completamente abandonado já na temporada de 2003.

A maior e mais valorizada edição do torneio foi, portanto, também a última. Hoje até se comenta a ideia de ressuscitar a competição, apesar das chances serem mínimas. O Brasileiro de pontos corridos inviabiliza qualquer encaixe no calendário para a Copa dos Campeões.

O torneio de 2002
Voltemos a 2002. O Brasil havia se sagrado pentacampeão do mundo três dias antes do pontapé inicial da maior Copa dos Campeões da história. Eram 16 participantes, divididos em quatro grupos com quatro equipes cada.

Flamengo (campeão da Copa dos Campeões de 2001), Corinthians (campeão do Torneio Rio-São Paulo de 2002), Cruzeiro (campeão da Copa Sul-Minas de 2002) e Bahia (campeão da Copa do Nordeste de 2002) eram os cabeças de chave. O número de sedes também aumentou, ainda prestigiando cidades pouco habituadas a receber os maiores clubes do país: Teresina, Natal, Fortaleza e Belém.

O Paysandu, campeão da Copa Norte, foi beneficiado como único clube capaz de mandar partidas em sua cidade. Atuando sempre no Mangueirão, o grande estádio de Belém, o Papão segurou empates com Corinthians (1×1) e Fluminense (0x0) nas duas primeiras partidas, assegurando a liderança do seu grupo (e vaga na fase final) com uma vitória de virada diante do Náutico (3×2) na última rodada.

A classificação final dos quatro grupos ficou assim:

Grupo A
1. Paysandu – 5 pontos (passou em primeiro por maior número de gols marcados)
2. Fluminense – 5 pontos
3. Náutico – 2 pontos
4. Corinthians – 2 pontos

Grupo B
1. Flamengo – 9 pontos
2. Goiás – 6 pontos
3. São Caetano – 3 pontos
4. Atlético-PR – 0 pontos

Grupo C
1. Cruzeiro – 5 pontos
2. Vitória – 4 pontos
3. São Paulo – 4 pontos
4. Grêmio – 2 pontos

Grupo D
1. Palmeiras – 7 pontos
2. Bahia – 6 pontos
3. Vasco – 2 pontos
4. Atlético-MG – 1 ponto

Apesar de contarem com menos representantes, as Copas do Nordeste, Norte e Centro-Oeste fizeram bonito, classificando metade dos clubes das quartas de final. Ainda assim, todos caíram no primeiro mata-mata (disputado em jogo único), menos o Paysandu, que seguia com a vantagem de atuar em Belém.

Quartas de final
17/07/2002 – Estádio Castelão, em Fortaleza
Flamengo 2 x 1 Vitória

17/07/2002 – Estádio Machadão, em Natal
Cruzeiro 2 x 1 Goiás

21/07/2002 – Estádio Mangueirão, em Belém
Paysandu 2 x 1 Bahia

21/07/2002 – Estádio Albertão, em Teresina
Palmeiras 1 x 0 Fluminense

Robgol marcou contra o Paysandu na Copa dos Campeões, jogando pelo Bahia. No ano seguinte seria contratado pelo Papão e se tornaria ídolo do clube

A vaga para a semifinal veio de forma emocionante para o Papão, com gols de Jajá e Jóbson (o decisivo aos 48 minutos do segundo tempo). Pelo Bahia, Robson marcou o seu – ele mesmo, o Robgol que depois se tornaria um grande ídolo bicolor.

Na semi, novamente contando com o Mangueirão, o Paysandu recebeu o Palmeiras – que seria rebaixado no Brasileirão de 2002, mas vinha embalado com Marcos no gol (um dos heróis do penta um mês antes) e nomes de peso como Paulo Assunção, Arce e Nenê. O alviverde saiu na frente, mas levou a virada pelos pés de Vandick, Trindade e Albertinho.

O time paraense, comandado por Givanildo Oliveira, estava na decisão – disputada em ida e volta. A duas partidas de conquistar um título nacional e chegar à Libertadores!

Semifinais
24/07/2002 – Estádio Castelão, em Fortaleza
Cruzeiro 2 x 1 Flamengo

27/07/2002 – Estádio Mangueirão, em Belém
Paysandu 3 x 1 Palmeiras

Na ida da final, o Paysandu fez sua última partida no Mangueirão, sem a mesma eficiência que marcou a campanha até ali. O Cruzeiro do técnico Marco Aurélio tirou a invencibilidade do Papão com gols de Fábio Júnior e Joãozinho, em jogo marcado pelo pênalti que Albertinho desperdiçou para os donos da casa aos 45 minutos do segundo tempo. Os mineiros, que já eram favoritos no confronto, aumentaram ainda mais sua confiança com a vitória por 2 a 1 em Belém.

Vandick fez um hat-trick na final contra o Cruzeiro

Bastava um empate na volta, disputada em Fortaleza, para que a Raposa levantasse o troféu. Logo com 9 minutos, Fábio Júnior abriu o placar e deixou tudo encaminhado. Foi então que os paraenses mostraram seu grande poder de reação, virando com gols de Vandick aos 11 e 22 minutos. Ainda na etapa inicial, Cris voltou a empatar o marcador, porém Vandick marcou seu terceiro e a decisão foi para o intervalo com o placar Paysandu 3 x 2 Cruzeiro.

A segunda etapa começou idêntica à primeira, com gol cruzeirense logo no início: Fábio Júnior, aos 3 minutos. Ainda assim, o inspirado ataque bicolor (muito beneficiado também pela desastrosa atuação do goleiro cruzeirense Jefferson) chegou ao 4 x 3 pelos pés de Jóbson, aos 12. E o resultado se manteve até o apito final, levando a disputa para os pênaltis.

Nas penalidades, muito menos equilíbrio: os mineiros perderam todas as cobranças (Ricardinho e Vânder chutaram no travessão, enquanto Jussiê teve pênalti defendido por Marcão). Já pelo lado paraense, 100% de aproveitamento: gols de Jóbson, Vélber e Luís Fernando.

O Papão era campeão e estava na Libertadores de 2003!

Final 
31/07/2002 – Estádio Mangueirão, em Belém
Paysandu 1 x 2 Cruzeiro

04/08/2002 – Estádio Castelão, em Fortaleza
Paysandu 4 x 3 Cruzeiro (3 x 0 nos pênaltis)

O Paysandu coroava, de maneira surpreendente, sua reestruturação construída ano a ano. Em 1999, o Papão foi 19º colocado na Série B do Brasileiro – e deveria ter sido rebaixado para a Série C, não fosse a criação da Copa João Havelange no ano seguinte. A partir de 2000, já sob o comando de Givanildo Oliveira, os resultados começaram a melhorar: veio um tricampeonato paraense (2000/01/02), o 4º lugar no Módulo Amarelo da Copa JH (perdendo a disputa do 3º lugar e vaga no mata-mata para o rival Remo) e, finalmente, o título de Série B em 2001. 

Givanildo Oliveira é o treinador mais vencedor da história do Paysandu. Na passagem entre 2000 e 2002, conquistou a Série B de 2001, a Copa dos Campeões de 2002, a Copa Norte de 2002 e 3 Paraenses (2000/01/02)

Embalado, o clube fez uma campanha impecável na Copa Norte de 2002, encerrando a hegemonia do então tricampeão São Raimundo (AM), treinado pelo folclórico Aderbal Lana, outra equipe que marcou época. Aquela conquista garantiu lugar na Copa dos Campeões – que, por sua vez, possibilitou a disputa da Libertadores de 2003.

O Papão permaneceu por quatro anos na Série A, sem nenhuma campanha de grande destaque até ser rebaixado, em 2005. No ano seguinte, caiu para a Série C e lá ficou por seis anos, bem longe dos dias de glória.

A equipe que venceu a Copa dos Campeões de 2002 é ainda mais especial por ter um elenco com fortes raízes paraenses. Pelo menos dez jogadores eram naturais ou fizeram carreira no Estado. Nasceram no Pará o zagueiro Sérgio; o volante Vanderson; os meias Luís Carlos Trindade, Magnum, Vélber (com passagens pelos rivais Remo e Tuna Luso, que depois jogou no São Paulo, sem brilho) e Jóbson (não confundir com outro Jóbson paraense, mais novo e envolvido em várias polêmicas); além dos atacantes Balão e Albertinho. Podiam ser considerados paraenses “adotivos” o volante Rogerinho (paulista, de várias passagens pelo Papão, além de Remo e Tuna Luso); o volante Sandro Goiano (ex-Tuna Luso, depois famoso por vestir a camisa do Grêmio); e o meia Lecheva (paulista, ex-Tuna Luso).

Isso para não falar no treinador Givanildo Oliveira, pernambucano meio mineiro (lenda do América) e muito paraense (com quatro passagens pelo Remo e seis no Paysandu). Ainda eram peças fundamentais o goleiro Marcão, o zagueiro (e capitão) Gino, o defensor Tinho, o lateral direito Marcos (que ficou paraplégico após um acidente de trânsito em 2015 e motivou uma campanha de solidariedade da torcida bicolor), o lateral esquerdo Luís Fernando e os atacantes Zé Augusto, Jajá e Vandick.

Em 2003, o elenco seria fortalecido com o meia Iarley e o atacante Robgol, dois nomes imprescindíveis para se comentar a campanha na Libertadores. O goleiro Ronaldo Wills, paraense de nascimento e reserva de Marcão, também marcou seu nome no jogo da Bombonera (e em outros tantos momentos do Papão). Givanildo já não era mais o treinador, dando lugar ao uruguaio Dario Pereyra. Mas isso é outra história…

Elenco que levou a Copa dos Campeões tinha fortes raízes paraenses
Você pode gostar também
Comentários
Carregando...