A Batalha do Campo da Liga

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Rivalidade é coisa séria, seja no futebol ou seja na política, na religião ou na vizinhança. No futebol catarinense, há uma grande rixa entre os times do Litoral (como Figueirense e Avaí) e os times do Interior (como Criciúma e Chapecoense). No entanto, mesmo em Florianópolis, as diferenças entre alvinegros e azzurros nunca foi pequena, como pôde se ver em 1° de abril de 1971.

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Era a 181ª vez que Figueirense e Avaí se enfrentavam, e talvez a primeira partida entre os dois rivais que sequer chegou ao final. Curiosamente, as duas equipes entraram em campo para realizar um amistoso, organizado pelo Governo militar do Brasil na época para comemorar o golpe – tratado como “revolução democrática” – dado em 1964. O saldo: 22 jogadores expulsos.

A partida (realizada no antigo Estádio Adolfo Konder, do Avaí) teve um primeiro tempo comum, sem gols. No entanto, aos dez minutos do segundo tempo, o zagueiro avaiano Deodato exagerou em uma dividida com o atacante Cláudio, do Figueira. Começou o empurra-empurra entre os dois, e antes que o árbitro Gilberto Nahas conseguisse esfriar os ânimos ou expulsar a dupla, os demais jogadores dos dois times também se envolveram na confusão.

O árbitro nem pensou duas vezes: expulsou todo mundo e acabou com a brincadeira. “Não tinha o que fazer. Simplesmente eu peguei o cartão vermelho, girei no ar para todos os lados”, explicou Gilberto Nahas, em entrevista dada ao portal ClicRBS, garantindo que faria a mesma coisa que o jogo valesse por um campeonato oficial ou fosse realizado hoje. “A regra tem que ser cumprida.”

Gilberto Nahas, em 2008 (Crédito: Koldeway A.C.)
Gilberto Nahas, em 2008 (Crédito: Koldeway A.C.)

Nahas, entretanto, quase pagou caro pela valentia em campo. Homenageados com o amistoso, os militares presentes ao estádio decidiram intervir para que a decisão fosse repensada – e o jogo, reiniciado. Sargento da Marinha, o árbitro da partida recebeu a visita de seu comandante no vestiário, onde recebeu recados do governador, o recém-empossado Colombo Machado Salles. Mesmo assim, a ordem não foi atendida.

“Dentro de campo, eu era a autoridade máxima e que tinha que cumprir as regras da Fifa”, explicou Gilberto, que não escapou de punição pela insubordinação: ficou um dia impedido de baixar em terra – ou seja, sem poder deixar o quartel para voltar para casa. Na época, comentou-se até mesmo de uma semana de prisão militar para o árbitro do confronto.

Os dois clubes, por sua vez, também não se mostraram felizes com os 22 cartões vermelhos distribuídos na partida. Os dois times temiam pelo início da participação no Campeonato Catarinense daquele ano, que começou três dias depois do amistoso, no qual os jogadores expulsos teriam que cumprir suspensão logo na rodada de estréia. Figueirense e Avaí chegaram a pedir o reinício do jogo, mas não teve jeito.

É claro, deu-se um jeito para que os jogadores pudesse disputar normalmente o Estadual. Em julgamento da Federação Catarinense de Futebol, os advogados dos dois clubes alegaram que Gilberto Nahas deveria ter dado o cartão vermelho para cada jogador, anotando os números de suas camisas na súmula – que apresentava apenas a inscrição “todos os jogadores foram expulsos”. A FCF acatou.

Avaí 0 x 0 Figueirense

Local: Estádio Adolfo Konder (Campo da Liga), em Florianópolis (SC)
Data: 1° de abril de 1971
Público: Não disponível
Árbitro: Gilberto Pedro Hoffmann Nahas (SC)
Gols: Nenhum
Cartões amarelos: Não disponível
Cartões vermelhos: AVAÍ: Egon, Paulinho, Deodato, Juca, Raulzinho, Moacir, Rogério, França, Mickey, Cavallazzi e Carlos Roberto. FIGUEIRENSE: Jocely, Arnoldo, Luiz Carlos, Beto, Fernando, Pelé, Jair, Arildo, Caco, Cláudio e Paulinho

AVAÍ: Egon; Paulinho, Deodato, Juca e Raulzinho; Moacir, Rogério e França; Mickey, Cavallazzi e Carlos Roberto
Técnico: Nelinho

FIGUEIRENSE: Jocely; Arnoldo, Luiz Carlos, Beto e Fernando; Pelé, Jair, Arildo e Caco; Cláudio e Paulinho
Técnico: Ítalo Arpino

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Não foi, porém, o único clássico entre os rivais a terminar em pancadaria. Em março de 2008, no Orlando Scarpelli, quatro jogadores foram expulsos, em partida que teve troca de socos entre Élton, que estreava pelo Figueirense, e o meia Marquinhos, ex-São Paulo, logo aos 16 min do primeiro tempo – ambos se estranharam após dividida na lateral e foram expulsos pelo árbitro Luiz Orlando da Silva.

Não foi só. Aos 49 min do segundo tempo, Bebeto marcou o segundo gol da vitória azul por 2 a 0 e foi comemorar dançando em frente à arquibancada rival. O zagueiro Asprila não gostou e resolveu tomar as dores dos torcedores, protagonizando novas cenas de pugilato com o adversário. O técnico Silas, do Avaí, disse ainda que “alguns atletas do Figueirense não souberam perder”, sem citar nomes.

O título catarinense de 2008 ficou com o Criciúma, à frente de Avaí, Figueirense e Cidade Azul. Já o de 1971, ficou com o América de Joinville, embora haja divergências em torno do vice-campeão – Próspera (de Criciúma) ou Caxias (de Joinville). A FCF e a imprensa consideram a primeira hipótese, enquanto a segunda é defendida pela RSSSF e pela população de Joinville.

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