1946: o ano que transformou o papa Francisco em torcedor

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Jorge Mario Bergoglio é o sócio da carteirinha número 88.235 do San Lorenzo (Crédito: Divulgação)

Tão logo Jorge Mario Bergoglio foi eleito o papa Francisco em 13 de março de 2013, sua personalidade humilde logo ganhou destaque pelo mundo. Diferente do antecessor Bento XVI, o então arcebispo de Buenos Aires se destacava por sua abertura ao diálogo em questões nem sempre simples da Igreja Católica e por seus hábitos simples, como andar de ônibus, dançar tango e por torcer declaradamente por um time de futebol.

Foi assim, de forma aberta, que o mundo soube que o novo papa torcia para o San Lorenzo de Almagro – pior para o ator nova-iorquino Viggo Mortensen, então o torcedor mais conhecido do clube em todo mundo. Desde que a personalidade de Bergoglio começou a ser esmiuçada por biógrafos, estudiosos e curiosos, ele não escondeu sua paixão pelo clube. E até estabeleceu o ano em que começou a torcer pelo clube: 1946.

Nesta época, o clube fundado em 1908 pelo padre Lorenzo Massa já era uma relativa potência no futebol argentino. Bicampeão argentino amador (1923 e 1924), conquistou também a Primeira Divisão Argentina em 1927 e 1933, além de faturar o primeiro turno do Campeonato Argentino (Copa Honor) de 1936 – no fim, perdeu o título para o River Plate, vencedor do segundo turno (Copa Campeonato). Depois disso, foi vice-campeão da Primeira Divisão em 1941 e 1942.

Mas eis que chegou 1946. Jorge Mario Bergoglio tinha então nove anos quando o San Lorenzo entrou na disputa da Primeira Divisão daquele ano. O começo do torneio não foi dos mais animadores para a torcida – nas seis primeiras rodadas, foram duas vitórias (3 a 1 sobre o Tigre e 4 a 1 sobre o Rosário Central), dois empates (3 a 3 com o Independiente e 1 a 1 com o River Plate) e duas derrotas (1 a 0 para o Lanús e 3 a 2 para o Huracán de Buenos Aires). A partir daí, porém, os tropeços do San Lorenzo se tornaram raros – de fato, foram apenas duas derrotas nos 24 jogos seguintes, contra Boca Juniors (2 a 1 na 13ª rodada) e Estudiantes (2 a 1 na 27ª rodada).

Em 30 rodadas (16 times, turno e returno), o San Lorenzo venceu 20, empatou seis e perdeu apenas quatro – somou 46 pontos no sistema antigo de pontuação, que dava dois pontos por vitória. O Boca Juniors, vice-campeão, terminou o torneio com 42 pontos, contabilizando 19 vitórias, quatro empates e sete derrotas. River Plate (41 pontos) e Racing (39) vieram logo atrás.

Com grandes goleadas, San Lorenzo conquistou o título argentino à frente de Boca Junior, River Plate e Racing (Crédito: Divulgação)

No caminho para o título, o time de Jorge Mario Bergoglio conquistou resultados expressivos: 5 a 0 sobre o Velez Sarsfield (14ª rodada, fora de casa), 7 a 0 sobre o Rosario Central (18ª rodada, em casa), 5 a 1 sobre o Lanus (20ª rodada, em casa), 6 a 1 sobre o Atlanta (22ª rodada, em casa), 5 a 0 sobre o Racing (24ª rodada, em casa) e 5 a 1 sobre o Platense (26ª rodada, em casa). Mesmo tendo disparado o melhor ataque do torneio (90 gols, contra 69 de Racing e Rosario Central), o time não teve o artilheiro do campeonato – René Pontoni marcou 20 gols pelo clube, enquanto Mario Boyé fez 24 pelo Boca Juniors.

“O San Lorenzo de 1946 entrou para a história como um exemplo de equipe agressiva e criativa, que combinava o bom pé de seus atacantes e com a dureza de sua defesa – ao mesmo tempo em que evidenciava uma grande quantidade de variáveis no momento de converter, de forma que 12 jogadores diferentes marcaram os 90 gols durante as 30 rodadas”, descreve o site do clube. “Como campeão da Argentina, (o San Lorenzo) partiu em turnê pela Europa, e encantou a todos: marcou 13 gols em duas partidas na Espanha e venceu Portugal por 10 a 4”, completou.

Não que os títulos tenham escasseado no bairro bonaerense de Boedo desde então. Apesar das vacas magras da década de 80, quando foi rebaixado, o San Lorenzo foi campeão nacional em 1959, 1972 e 1974, e metropolitano em 1968 e 1972, além de faturar três vezes o Torneio Clausura em moldes recentes em 1995, 2001 e 2007. De quebra, foi campeão também da Copa Mercosul em cima do Flamengo em 2001.

Ainda assim, foi aquele título de 1946 que conquistou Jorge Mario Bergoglio. Em 24 de maio de 2011, ainda como arcebispo de Buenos Aires, celebrou missa das chamadas Festas Patronais do clube na capela do Estádio Nuevo Gasómetro. “Sinto uma enorme alegria de celebrar a missa vendo através dos vidros da capela o estádio de San Lorenzo”, declarou na ocasião Bergoglio, sócio número 88.235 do clube.

E mais:

Mesmo com o desempenho arrasador na Primeira Divisão, o San Lorenzo só conquistou o título de 1946 na última das 30 rodadas, graças à vitória fora de casa sobre o Ferro Carril Oeste por 3 a 1. Na mesma rodada, o Boca Juniors perdeu para o Velez Sarsfield por 2 a 1.

Na partida do título, o San Lorenzo entrou em campo com Mierko Blazina; José Vanzini e Oscar Basso; Ángel Zubieta, Salvador Grecco e Bartolomé Colombo; Mario Imbelloni, Armando Farro, René Pontoni, Rinaldo Martino e Oscar Silva. Os gols da vitória foram marcados por Martino, Pontoni e Silva – Cacheiro descontou para o Ferro Carril.

Francisco, porém, não é o primeiro papa a ter um time do coração. Bento XVI, embora não manifestasse publicamente seu apreço, é torcedor do Bayern de Munique. João Paulo II, por sua vez, atuava como goleiro na infância em jogos envolvendo católicos e judeus na Polônia.

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