Da quarta divisão para o topo: 11 curiosidades sobre o Bradford

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Imagine você que o Salgueiro, de Pernambuco, está próximo de ser campeão da Copa do Brasil. Pois é quase isso que está acontecendo na Inglaterra. O exemplo brasileiro poderia ser o Gurupi, o Maranhão ou qualquer outro time da quarta divisão nacional. Afinal, é isto que veremos no próximo domingo, dia 24: o Bradford, um pequeno time do interior, vai disputar a final da Copa da Liga Inglesa, contra o Swansea, do País de Gales. (Duvido que alguém apostou nisso antes da Copa começar!)

bradford escudo

Esses ingleses, estranhos como são, chamam a quarta divisão de League Two. Mas não se engane: o Bradford é fraco mesmo e tem um futebol digno da última divisão brasileira. Tanto que o time está longe de subir: atualmente é o 11º e está a oito pontos de conseguir uma vaga nos playoffs – jeito britânico para dizer mata-mata. Mas como um time assim conseguiu ir para a final da Copa da Liga?

As decisões por pênaltis explicam boa parte dessa façanha. Afinal, foi assim que o Bradford passou por dois times da primeira divisão, o Wigan e até mesmo o Arsenal. Depois, contra o Aston Villa, pesou a vontade de um time “com fome”. E tem ainda aqueles fatos inexplicáveis que sempre deixam o futebol mais interessante. Fatores estes que podem levar o Bradford até mesmo à Liga Europa 2013/2014. É isso mesmo: se vencer a final deste domingo, um time da quarta divisão inglesa disputará a Liga Europa na próxima temporada.

A possibilidade de um feito como este faz o Bradford merecer uma lista que conte sua história. Pois o Última Divisão resolveu cumprir sua missão e seguem abaixo 11 curiosidades:

Um século de jejum – Já se passaram mais de 100 anos desde que o Bradford conseguiu seu último grande título. Em 1911, oito anos após ser fundado, o time foi campeão da tradicional Copa da Inglaterra, mesmo indo para a final como zebra – o Newcastle era o atual campeão. Mas as equipes ficaram no 0 a 0 no primeiro jogo e depois o Bradford venceu por 1 a 0, em Wembley. Estádio que, aliás, é o mesmo palco da decisão deste domingo.

Para baixo e avante – Desde que foi campeão em 1911, o Bradford passou a viver com altos e baixos, sendo que os baixos foram muito mais frequentes – basta observar que o time ficou 77 sem disputar a primeira divisão (de 1922 a 1999) e, durante este período, ganhou apenas um título da terceira divisão, em 1985. Quando voltou à elite, em 1999, a alegria logo acabou: foram apenas duas temporadas e um novo rebaixamento. Agora, na quarta divisão, o Bradford já quebrou um tabu histórico: desde 1962 uma equipe deste escalão não chegava na final da Copa da Liga. O último a fazer isso foi o Rochdale, em 1962, mas ficou com o vice-campeonato. Que isso não se repita!

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Um cigarro e…

Casa em chamas – Não houve festa quando o Bradford conquistou o título da terceira divisão, em 1985. Muito pelo contrário: o Valley Parade, que é a casa do clube até hoje, foi tomado por um incêndio de proporções gigantescas. Durante um jogo contra Lincoln City, 56 pessoas morreram por causa de um cigarro jogado em um copo descartável nas tribunas. Isto teria causado o fogo que tomou conta do local e causou comoção em todo país. O estádio só foi só foi reaberto em dezembro de 1986.

Nacionalidades alternativas – Quantos jogadores de São Cristóvão e Nevis você conhece? Pois permita que o Bradford apresente um: o lateral-direito Ces Podd é jogador que mais vezes atuou pelo clube. Ele acumulou 502 partidas com a camisa aurirrubra, entre 1970 e 1984. Ao encerrar a carreira, ele ainda se tornou treinar da seleção são-cristovense. E o Bradford mostra ter vocação para achar talentos nos cantos mais remotos do mundo: o jovem Nahki Wells é um dos destaques do time atual, já marcou na Copa da Liga Inglesa e veio de Bermudas. Quantos jogadores de Bermudas você conhece? Sem trocadilho, por favor…

Uma rivalidade que quebra perna – O maior rival do Bradford é o Leeds, mas um lance específico quase fez isso mudar ao longo do tempo. Em um jogo contra o Huddersfield Town, outro time com o qual sempre existiu uma rivalidade, o defensor Kevin Gray quebrou a perna de Gordon Watson com um carrinho violento. Era apenas a terceira partida do atacante, que tinha acabado de ter sido comprado pelo Bradford por uma fortuna na época (cerca de R$ 1,5 milhões). A revolta fez com que ele até abrisse e ganhasse um processo na Justiça Civil, o que lhe rendeu um grande valor em dinheiro – a jogada então ficou conhecida como “o carrinho mais caro da história do futebol britânico”.

A tempestade antes da bonança – Quando saiu da elite inglesa, o Bradford passou a entrar em seguidas crises financeiras. Tanto que, por duas vezes, o time chegou a declarar moratória, ficando perto da falência. Isto foi contornado e enfim o time pode aproveitar seu momento atual para ganhar dinheiro e se salvar: com a Copa da Liga Inglesa, até agora já foram arrecadados cerca de 1,3 milhão de libras (R$ 4,1 milhões). Além disso, a equipe está atenta ao marketing e já lançou uma infinidade de produtos comemorativos pela campanha surpreendente deste ano. Tem até um perfume personalizado. Será que eles entregam no Brasil?

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Bola para um lado, goleiro… também!

Oito jogos sem perder – Há quem diga que disputa por pênaltis é loteria. Pois se for, o Bradford deveria apostar na Mega-Sena da Virada. Afinal, além das vitórias já citadas sobre Arsenal e Wigan, o time está com uma sequência incrível neste tipo de confronto: desde outubro de 2009, foram oito decisões por pênaltis e nenhuma derrota até agora. O Swansea precisa fazer de tudo para resolver o duelo final nos 90 minutos…

O câncer superado – Se há tanto sucesso na disputa por pênaltis, um dos principais responsáveis por isso é Matt Duke, o goleiro do Bradford. Mas sua história não é bonita apenas pelas defesas a 11 metros do gol: cinco anos atrás, ele venceu um câncer nos testículos. O atleta tinha apenas 30 anos e viveu um drama, mas conseguiu voltar a jogar. Agora ele diz que qualquer vitória, seja contra Arsenal ou Swansea, não será maior do que a batalha vencida contra o câncer.

Pela superação do câncer – Uma doença tão maléfica realmente está realmente marcada na história do Bradford. Mas pelo menos é de uma forma bonita: além do problema superado por Duke, o time ganhou de vez a simpatia do povo britânico com uma comemoração especial do atacante Gary Jones. Na semifinal contra o Aston Villa, durante a comemoração de um gol, ele foi até um jovem que tem câncer no cérebro e beijou sua testa. Os dois já se conheciam, e o gesto virou sensação no país.

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Novo reforço (espiritual) do Bradford

Bradford é budista? – Tanta empolgação e carisma do Bradford trouxeram até um apoio inusitado para o time: Dalai Lama enviou uma carta para parabenizar os jogadores e motivá-los antes da final. É algo totalmente inusitado, mas há algo que explica esta atitude: em junho de 2012, em Leeds, Dalai Lama ganhou uma camisa do Bradford, que chamou atenção para o fato das cores do time serem iguais as dos trajes usados pelos tibetanos. Pelo visto os budistas também gosta de futebol alternativo…

Bradford é ateu? – Realmente não era a intenção deste texto misturar futebol com religião. Mas o Bradford insiste em fazê-lo. A última novidade neste sentido veio do presidente do clube, Mark Lawn. Ele é ateu, mas prometeu que vai virar crente se acontecer o título neste domingo: “deve existir um Deus. Eu nunca acreditei nisso. Mas, se a gente ganhar o título, então eu serei definitivamente um crente”, afirmou. Amém.

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