10 tradições do futebol brasileiro que não existem mais

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Por Márcio Pereira

O mais popular esporte do planeta surgiu nestas terras tropicais quando foi trazido, principalmente, por descendentes de ingleses e alemães. Em seus primórdios, foi praticado majoritariamente por pessoas ligadas às elites econômicas da época, mas não demorou muito para conquistar indivíduos de todas as camadas sociais. Começou amador e de certa forma “inocente”, se profissionalizou, cresceu de forma exponencial e se tornou parte de nossa cultura popular. Ao longo de mais de 120 anos de futebol no país muita coisa mudou, e algumas antigas tradições se perderam com o tempo e com a globalização cada vez maior que levou o mercado futebolístico a movimentar cifras gigantescas. Neste texto, trago dez desses expedientes que outrora eram corriqueiros e que hoje são desconhecidos da maioria dos amantes do jogo.

Torneio Início

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Em 1986 a imprensa destacava a expectativa para o Torneio Início paulista (A Gazeta Esportiva, 16/02/1986, p. 3.)

Competição de começo de temporada criada no Brasil, em 1916. Foi idealizada pela Associação dos Cronistas Desportivos do Rio de Janeiro e consistia em partidas pequenas, geralmente com vinte minutos de duração, e que eram jogadas pelos participantes do Campeonato Carioca. Seu primeiro campeão foi o Fluminense. Logo após a primeira disputa a ideia foi se espalhando pelos demais campeonatos estaduais e também pelos citadinos, sempre mantendo a regra de partidas com tamanho diminuto, variando apenas as regras de desempate — entre elas chegou a ocorrer desempate pelo número de escanteios, pênaltis entre outros. No Rio de Janeiro a última edição foi na década de 70, após a interrupção dez anos antes. São Paulo ainda teve edições esparsas nos anos 80 e 90. Alguns lugares como o Acre ainda mantiveram esta atração, com algumas interrupções, até o novo século, com a última edição do Torneio Início do Acre em 2013.

Diversos motivos podem ser apontados para explicar o fim dos Torneios Início. Em São Paulo a briga entre torcidas contribuiu. O Torneio Início tinha como costume acontecer em um único estádio, o que fazia com que torcidas de clubes rivais dividissem os mesmos espaços. A falta de apoio financeiro também prejudicou os certames (por mais que a renda obtida em diversos desses torneios tenha sido destinada a projetos de caridade), assim como o calendário cada vez mais apertado dos clubes brasileiros. Mesmo que tenha desaparecido, por estes citados e por outros problemas, este originalíssimo campeonato criado no Brasil deixou sua marca em gerações de futebolistas pelos quatro cantos do país.

Campeonato Brasileiro de Seleções

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Seleção Paulista de 1960 — Foto: Revista do Esporte / Reprodução

Em uma época em que ainda não existia o Campeonato Nacional entre clubes era o campeonato de seleções estaduais que atraía atenções no Brasil. Criado em 1922 e sendo corriqueiro até 1959 (quando foi criada a Taça Brasil, reconhecida como Campeonato Nacional de Clubes pela CBF), ainda teve mais duas edições, em 1962 e 1987, além de outras edições mais recentes com jogadores das categorias de base. Em seus tempos mais gloriosos, alimentou a rivalidade entre paulistas e cariocas, que desfilavam os craques que jogavam em seus clubes, mesmo que tenham nascido em outros estados — como Pelé, que está na imagem que abre este capítulo e é mineiro de nascimento. Paulistas e cariocas também lideram o ranking histórico de títulos do torneio, com quinze conquistas do Rio (contabilizando aí os tempos do antigo estado da Guanabara e do Distrito Federal, quando a cidade ainda era capital do país) e treze de São Paulo. Além deles, apenas Bahia e Minas Gerais ganharam a disputa uma vez cada.

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O grande motivo para o fim deste campeonato é a criação de provas nacionais entre os clubes de diferentes estados. A importância dada então para o torneio entre seleções estaduais era principalmente por medir forças entre o futebol carioca, paulista, mineiro e gaúcho. A prova disso é que na última edição, disputada na década de 80, o Rio de Janeiro foi representado pelo modesto Americano, já que não havia o interesse dos clubes grandes em liberarem seus jogadores para a disputa.

Amistosos entre combinados de clubes

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Pelé com a camisa vascaína em jogo do combinado Vasco-Santos em 1957 (reprodução do site vasco.com.br)

Durante décadas foram comuns amistosos entre combinados de clubes, tanto entre si quanto contra a Seleção brasileira. Em janeiro de 1992, por exemplo, apesar da rivalidade já ser grande entre os clubes, um amistoso foi disputado no Maracanã entre um combinado de Palmeiras e Corinthians e outro de Vasco e Flamengo. O resultado foi 2 a 1 para o combinado paulistano. Este expediente era mais comum no começo do século, onde clubes se uniam em partidas para desafiar uma equipe mais forte ou simplesmente para proporcionar um atrativo a mais em amistosos com o objetivo de conseguir mais público.

Estes amistosos também foram responsáveis por cenas que hoje pareceriam impossíveis, como a de Pelé com a camisa do Vasco (foto que abre este tópico) ou a do flamenguista Júnior com a camisa do mesmo Vasco e o ídolo corintiano Tupãzinho com a camisa do Palmeiras no amistoso de 1992 que já foi citado. No caso do Rei do Futebol, o combinado Vasco-Santos foi formado em 1957 para disputar um torneio organizado pelo São Paulo Futebol Clube, que visava arrecadar para possibilitar a construção de seu estádio. O Vasco estava em excursão pela Europa e não tinha jogadores suficientes para o torneio então recebeu a ajuda do Santos. Como os jogos deste grupo foram no Maracanã a camisa utilizada foi a vascaína. Em três jogos com esta camisa Pelé, então com apenas 16 anos, fez cinco gols, incluindo um contra o Flamengo.

Certamente a rivalidade crescente entre os clubes fez com que esses combinados saíssem “fora de moda”. Alguém imagina hoje em dia o Palmeiras e o Corinthians, ou o Corinthians e o São Paulo se unindo, mesmo que seja para um amistoso?

Além disso, o calendário corrido do futebol brasileiro dificulta novamente. Os clubes em pré-temporada preferem compromissos mais fáceis ou então torneios internacionais mais lucrativos. Outra tradição suplantada pelo futebol globalizado.

Clubes excursionando pelo mundo e a Fita Azul

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Camisa do Santa Cruz em alusão aos 40 anos da Fita Azul conquistada pelo clube

Em um tempo onde os clubes jogavam menos — e pouco se enfrentavam internacionalmente por torneios oficiais — , era corriqueira a prática de excursionar por diversos países, mesmo entre clubes menores. Quem mais se beneficiou disso foi o Santos de Pelé, que disputou inúmeros torneios no exterior com seu esquadrão, mas realmente clubes de todos os estados brasileiros tiveram suas experiências em amistosos internacionais.

Com base no sucesso dessas excursões surgiu na década de 50 a Fita Azul, título simbólico concedido inicialmente pela CBD (Confederação Brasileira de Desportos) e posteriormente assumida pelo jornal “A Gazeta Esportiva” até o final dos anos 70. Esta premiação era concedida aos clubes brasileiros que voltassem invictos de excursões internacionais. Em 1951 a Portuguesa de Desportos conquistou a primeira condecoração, ao retornar invicta de uma excursão pela Europa (doze jogos, sendo um empate e onze vitórias). A Portuguesa foi a única a conseguir a Fita Azul em mais de uma oportunidade, no total de três vezes. Outros clubes também agraciados: Corinthians, Portuguesa Santista, Caxias, Bangu, São Paulo, Coritiba, Santos e Santa Cruz.

O Santa Cruz, tradicional clube de Recife e último brasileiro a conseguir a Fita Azul em 1979 (após retornar da Ásia e da Europa com dez vitórias e dois empates) costuma exaltar bastante o seu feito, com o lançamento de camisas na cor azul e com detalhes que lembram a tradição, como na foto que abre esta seção.

Amistosos entre clubes e Seleção Brasileira

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Seleção Brasileira 0 x 2 Flamengo — última vez em que a canarinho foi derrotada por um clube

Já imaginou o timaço atual do Flamengo desafiando a Seleção Brasileira? Ou o São Paulo tricampeão brasileiro com Muricy Ramalho? O Corinthians da MSI em 2005? Houve um tempo em que isso foi possível. Até o final da década de 70 a Seleção de tempos em tempos enfrentava clubes brasileiros ou então as seleções estaduais. O primeiro desses amistosos foi em 1925, empate em um gol contra o Corinthians. A primeira derrota para um clube brasileiro se deu em 1934, 3 a 2 para o Santa Cruz. Nessa ocasião a Seleção estava no Nordeste onde realizou uma longa série de amistosos contra clubes e selecionados regionais, mas sua única derrota se deu no embate frente ao tricolor pernambucano.

A segunda derrota frente a esses adversários brasileiros veio apenas em 1969. O Atlético Mineiro (que teve que usar a camisa vermelha da Federação Mineira, por exigência da CBD) derrotou o selecionado nacional que se preparava para conquistar definitivamente a Jules Rimet em terras mexicanas. Um dos gols do galo foi marcado por Dadá Maravilha, que acabou sendo convocado para o mundial no ano seguinte.

Já a última ocasião em que o escrete brasileiro foi derrotado nesse tipo de compromisso foi em 1976, para um Flamengo que contava com vários nomes que ganhariam tudo na década seguinte, como Zico, Andrade, Júnior e Adílio. O próprio técnico rubro-negro, Cláudio Coutinho, assumiria o comando da Seleção em 1977. Em um Maracanã que contou com bom púlico em partida que visava arrecadar fundos para a família de Geraldo “Assoviador”, meia flamenguista falecido dois meses antes aos 22 anos, o Flamengo levou a melhor.

Um jogo terminado em igualdade, porém, foi um dos mais marcantes nessa relação. Em 17 de junho de 1972 a Seleção foi a Porto Alegre enfrentar o selecionado gaúcho no Beira-Rio. Mais de 106 mil pessoas estavam no estádio, não para ver a camisa amarela atual campeã do mundo, mas sim para criar um clima bélico com o objetivo de empurrar os gaúchos que jogavam de branco. O motivo de toda essa hostilidade? A decisão do técnico Zagallo de não incluir o lateral gremista Everaldo (que jogou pelos sulistas), campeão no México como titular, no torneio alusivo às comemorações dos 150 anos da independência brasileira. Em um raro momento de integração, gremistas e colorados torceram juntos pela representação de seu estado, contra o que consideravam um menosprezo de Zagallo pelo futebol local. A seleção nacional foi vaiada e xingada, e o clima de tensão resultou em uma explosão logo que os anfitriões saíram na frente, já aos dois minutos. Os cinco gols posteriores saíram todos no segundo tempo e o confronto se definiu no 3 a 3, com direito a Rivellino batendo no peito com raiva quando marcou o tento derradeiro.

Já em 1980 o Brasil enfrentou e goleou a seleção mineira: 4 a 0. Desde então, foram dezoito amistosos contra clubes ou selecionados locais, todos estrangeiros.

Campeonatos citadinos

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Quadro comemorativo do Brasil, campeão citadino de Pelotas (retirado do site historiadofutebol.com)

Onde existiram e foram tradicionais, os citadinos tiveram papel fundamental na criação e fortalecimento de rivalidades, assim como o estaduais por muito tempo. Nas primeiras décadas de vida do futebol em solo brasileiro estes torneios regionais tinham uma importância enorme, até por conta da falta de competições a nível nacional. Em alguns estados, foram recorrentes os campeonatos citadinos, graças ao grande número de times em cada cidade — fruto do então amadorismo — e pela dificuldade de muitas equipes em percorrerem grandes distâncias dada a falta de recursos. Em estados como o Rio Grande do Sul, por exemplo, apenas em 1961 foi criado um campeonato estadual organizado no formato de liga, já que até o ano anterior disputavam o título as equipes classificadas de cada região (os campeões citadinos jogavam entre si dentro de sua região).

Mesmo com a adoção oficial do profissionalismo na década de 30 os citadinos se mantiveram por um bom tempo, ainda que nos principais centros sua importância tenha diminuído. Em Porto Alegre, por exemplo, a última edição data de 1972, mas desde 1960 o certame não era realizado mais com periodicidade. Atualmente apenas cidades menores têm trazido esse tipo de competição, mesmo que sem uma periodicidade definida e geralmente apenas com o objetivo de iniciar a temporada.

Jogos com público superior a 100 mil pessoas

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Por 214 vezes o Maracanã teve público de mais de 100 mil pessoas registrado (Foto: Paulo Moreira/Agência O Globo)

Entre as décadas de 50 e 90 por diversas vezes o futebol brasileiro registrou público superior a cem mil pessoas em suas partidas. Sendo mais preciso, isso ocorreu 278 vezes (segundo o excelente site RSSSF). O estádio do Maracanã lidera essa estatística com 214 jogos, seguido pelo Morumbi com 42, Mineirão com 19 e Castelão (em Fortaleza), Fonte Nova e Beira-Rio, com um jogo cada.

O maior público da história do futebol brasileiro é também a primeira vez em que houve um registro de seis dígitos em um jogo em nosso país. É também uma das lembranças mais dolorosas da Seleção Brasileira, a final da Copa do Mundo de 1950 no Maracanã, que teve segundo os registros 199.854 presentes, embora se acredite que havia muito mais gente no estádio. Esta partida, porém, não tem o maior número de pagantes, que fica a cargo de Brasil x Paraguai em 1969 (válido pelas Eliminatórias para a Copa do ano seguinte) com 183.341 expectadores, sendo que também se imagina que o público presente passou de 200 mil, embora não se tenha esse apontamento.

Nem só de jogos entre seleções, porém, se dá essa estatística. Diversos encontros entre clubes, sobretudo com presença dos cariocas, tiveram públicos gigantes. O maior entre esses é o Fla-Flu válido pelo Campeonato Carioca de 1963, com 194.603 presentes. O Carioca é dono de 132 dessas marcas, sendo seguido pelo Campeonato Brasileiro com 39 e o Campeonato Paulista com 27. Em 31 oportunidades amistosos foram responsáveis pelos números expressivos.

A última vez em que um jogo com mais de cem mil testemunhas presentes foi disputado no Brasil se deu na final da Copa do Brasil de 1999, entre Botafogo e Juventude, no Maracanã: o número foi de 101.581. Desde então, a readequação na capacidade de diversos estádios, incluindo o outrora gigantesco Maracanã, impossibilita que números assim sejam atingidos. No momento o Maracanã comporta um máximo de 78 mil pessoas, sendo ainda o maior estádio do país.

Campeonatos estaduais mais importantes que o nacional

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Poster do Fluminense, campeão carioca de 1983 (Reprodução Revista Placar nº 709)

Poster do Fluminense, campeão carioca de 1983 (Reprodução Revista Placar nº 709)
A primeira edição do Campeonato Brasileiro se deu em 1971. Até então, o que se tinha era o Torneio Roberto Gomes Pedrosa e antes dele a Taça Brasil (ambas competições foram reconhecidas como precursoras do Brasileirão em 2010, dando aos seus vencedores o status oficial de campeões nacionais). Nos primeiros tempos de Brasileirão, as constantes mudanças na fórmula de disputa e a influência política por parte do regime militar na escolha dos clubes que jogariam o torneio — a tão conhecida máxima: onde a ARENA vai mal, um time no Nacional — fizeram com que, por inúmeras vezes, os grandes clubes dessem prioridade aos campeonatos estaduais, que traziam grandes rendas devido à superlotação dos estádios com a alta quantidade de clássicos disputados. As fórmulas bizarras do Brasileiro (falaremos sobre elas mais adiante) geralmente colocavam os grandes clubes distribuídos em vários grupos, o que fazia com que estes tivessem que enfrentar equipes de um porte muito menor, o que também era uma estratégia da CBF — antes CBD — para levar os maiores clubes aos mais diversos lugares do país.

Progressivamente, foi crescendo a importância do campeonato nacional à medida em que os regulamentos passaram a ser mais duradouros, assim como o número máximo de times se estabilizou juntamente com o acesso e descenso com a segunda divisão. Mesmo que os pontos corridos só tenham sido implantados em 2003, com o passar dos anos os campeonatos estaduais foram diminuindo de tamanho abrindo espaço para o Brasileirão ocupando boa parte do calendário. Atualmente, os campeonatos regionais duram do fim de janeiro ao começo de abril na maioria dos estados (com exceção desse ano de 2020, graças a pandemia de coronavírus) e os nacionais das quatro divisões iniciam no fim de semana seguinte durando até o final do ano. Já os estaduais são cada vez mais criticados por imprensa e torcedores, que costumam os desprezar pela sua falta de importância e por preencherem ainda mais o já congestionado calendário do futebol no Brasil.

Regulamentos malucos no Campeonato Brasileiro

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Até hoje Flamengo e Sport “brigam” pelo direito de ser declarado o único campeão de 1987

Apenas em 2003 a CBF e os clubes instituíram os pontos corridos no Campeonato Brasileiro, sendo que em mais de trinta anos de disputa inúmeras fórmulas foram utilizadas, algumas que não eram nada fáceis de entender. O assunto, por si só, daria um texto longo e mesmo assim perderíamos muitas e muitas linhas tentando explicar os regulamentos mais estapafúrdios, mas podemos citar alguns como exemplo.

Em 1973 o número de clubes no torneio saltou para quarenta, divididos em duas chaves e depois de 19 partidas (dentro dos grupos) esses eram divididos novamente em quatro chaves onde jogavam mais nove partidas e ao final desses 28 jogos passavam para a próxima fase as vinte equipes com mais pontos, independentemente dos grupos em que estavam. Complicado né? Imagine então que alguns clubes jogavam em casa muito mais do que outros…

No ano seguinte outra bizarrice, além das equipes classificadas à segunda fase de acordo com a pontuação dois clubes passariam por terem a melhor renda, pouco importando o desempenho na primeira etapa. Os beneficiados foram o Fluminense e o Nacional de Manaus, que ficaram quatro e seis pontos atrás do último classificado por méritos esportivos de seu grupo, respectivamente (em um tempo em que a vitória valia dois pontos). Em 1975 apareceu a repescagem — que durou até 1978 e teve um retorno em 1994 — , possibilitando que equipes que fossem mal na primeira fase tivessem mais uma chance de classificação (enfrentando outras equipes mais fracas, o que acabava por ser uma vantagem).

Se em 1978 o número de setenta e quatro clubes já era exagerado, o “Brasileirão” fez ainda mais jus ao seu nome na edição subsequente, que contou com inacreditáveis 94 equipes e presenciou o único título invicto, proeza do Internacional. O número teria sido ainda maior se Portuguesa, Corinthians, São Paulo e Santos não tivessem desistido do campeonato, graças a um desacordo sobre em qual fase os participantes do Torneio Rio-São Paulo entrariam.

A partir de 1980 o campeonato foi separado em divisões, sendo que os quatro melhores da então chamada “Taça de Prata” jogavam o campeonato principal já no mesmo ano, a partir da segunda fase. Isso durou até 1983, e no ano seguinte apenas o campeão do segundo nível passou a disputar o torneio de primeiro escalão em suas fases mais avançadas.

Em 1985, um regulamento bem diferente dos anos anteriores proporcionou diversas zebras. Na primeira fase os quarenta e quatro clubes foram divididos em dois grupos com dez equipes e dois com doze, e cada grupo enfrentava em dois turnos as equipes do outro grupo com o mesmo número de equipes. O problema é que nos grupos com menos times estavam os clubes mais fortes e tradicionais, enquanto as outras duas chaves vinham com o que equivalia à segunda divisão da época. Cada uma dessas chaves classificava o mesmo número de equipes para a próxima fase — quatro. Isso fez com que inúmeros tradicionais caíssem já no primeiro estágio, enquanto que entre os dezesseis melhores do campeonato figuraram “zebras” como Mixto, CSA, Bangu e Brasil de Pelotas. Dessas, Bangu e Brasil de Pelotas se destacaram na segunda fase, conseguindo chegar entre os semifinalistas da disputa. Ambas zebras se enfrentaram na semifinal com a passagem do time do Rio que perdeu o título nos pênaltis para o Coritiba, que apesar de estar em um grupo mais forte na primeira fase não era nem de longe favorito.

Em 1986 a CBF resolveu retornar com a segunda divisão dando vagas para uma fase posterior do primeiro nível. A ideia era que 32 clubes disputassem a segunda fase, mas o Vasco, correndo risco de ser eliminado, fez uma reclamação contra o Joinville para que este não levasse os pontos que havia ganho graças a uma punição ao Sergipe por doping. Levou a vaga, porém o Joinville recorreu ao Conselho Nacional de Desportos e também se classificou. Para não ficar com um clube a mais entre os classificados, a CBF tentou excluir a Portuguesa, alegando que a Lusa tinha um processo correndo fora da esfera desportiva, o que seria ilegal. Desistiu quando os demais clubes paulistas ameaçaram boicotar a sequência do torneio. Para resolver a situação, a entidade resolveu classificar mais três clubes que seriam eliminados, fechando em 36.

Em 1987 mais um campeonato confuso — que também merece um texto só seu — , tão polêmico que até hoje gera discussões. Após o caos instalado no torneio anterior, que só foi terminar em fevereiro de 87, a CBF declarou que não possuía condições de organizar o Brasileiro. Os clubes então, através da criação do chamado “Clube dos 13”, tomaram a frente e organizaram um campeonato de dezesseis clubes, ironicamente denominado “Copa União”. Estes clubes eram os treze que compunham a associação (os quatro maiores do Rio, mais os quatro de SP e as duplas mineira e gaúcha, além do Bahia), com a adição de Santa Cruz, Goiás e Coritiba, ignorando a classificação do ano anterior, tendo deixado de fora assim clubes tradicionais como o Guarani, vice-campeão. Sentindo que talvez perderia poder, a CBF mudou de ideia e decidiu criar um outro campeonato de 16 equipes, incluindo as “esquecidas” pelo Clube dos 13. A esse torneio da CBF deu-se o nome de Módulo Amarelo, enquanto o que continha os maiores clubes foi chamado de Módulo Verde. Então, a confederação teve uma ideia “genial”: um quadrangular envolvendo campeão e vice dos dois módulos para apurar o “campeão nacional”. Segundo o Clube dos 13 isso nunca foi aceito por seus clubes, mas a CBF garantiu que Eurico Miranda, dirigente vascaíno e representante da gestora do Módulo Verde, concordou. O fato é que o Flamengo venceu a Copa União em cima do Internacional, e no Módulo Amarelo Sport e Guarani dividiram o título após uma disputa de pênaltis que não tinha fim. Os dois primeiros se negaram a comparecer no quadrangular, e Sport e Guarani se enfrentaram novamente para decidir o campeonato brasileiro, segundo a CBF. Com a vitória do Sport, que se declarou campeão brasileiro (título que o Flamengo reivindicava desde a sua conquista) começou a pendenga que se arrastou por décadas na justiça — atualmente a justiça reconhece o Sport como legítimo campeão. O Flamengo e boa parte da imprensa, por sua vez, trataram o rubro-negro carioca como campeão, posteriormente colocando ambas equipes como detentoras do título. Vale lembrar que apenas Sport e Guarani representaram o país na Libertadores da América de 1988.

Com tanta celeuma em duas edições seguidas os formulismos deram um tempo entre 1988 e 1992. O número de clubes foi caindo, entre 24 no primeiro ano até 20 em 91 e 92. Nesses dois últimos anos, até os grupos mirabolantes na primeira fase foram extintos. O campeonato de 1993, porém, reservava uma volta triunfal dos regulamentos estranhos.

Em 1991 o Grêmio, então uma vez campeão brasileiro mas já tendo levado uma libertadores e um mundial além da primeira edição da Copa do Brasil, fez uma campanha ruim e foi rebaixado para a segunda divisão junto com o Vitória. Seria a primeira vez que um clube considerado grande no país jogaria a segunda divisão (excluindo a Taça de Prata dos anos 80 que classificava os melhores para uma fase seguinte do campeonato principal). Em janeiro de 1992, antes do começo da primeira e da segunda divisão, a CBF decidiu inchar o campeonato brasileiro de 1993, aumentando-o de 20 para 32 clubes. Para isso, ninguém seria rebaixado e doze clubes subiriam da Série B. Sem ter que fazer tanta força assim, o Grêmio acabou a disputa em nono lugar e ascendeu, juntamente com Vitória, Remo, Santa Cruz e outros clubes tradicionais. O campeonato de 93 foi organizado então dividindo os 32 times em quatro grupos com oito, sendo que nos grupos A e B estavam os integrantes do Clube dos 13 (incluindo o Grêmio), mais Bragantino, Sport e Guarani, os três melhores do ano anterior. Nesses dois grupos não haveria rebaixamento. O descenso se daria entre os integrantes dos grupos C e D, incluindo aí os outros onze promovidos do ano anterior. A classificação era diferente entre as chaves também. Nas duas primeiras passariam três clubes diretamente para a segunda fase. Já nas duas últimas os dois melhores de cada lado se enfrentariam e só aí dois clubes estariam garantidos na segunda fase. Já o rebaixamento foi para os oito piores clubes classificados no geral, tirando quem estava nos grupos A e B. Ou seja, dos doze promovidos em 92 apenas o Grêmio não podia ser rebaixado, e dos onze restantes seis retornaram à serie B. Mesmo com todas essas adversidades o Vitória se classificou no grupo C e foi até a final do campeonato, sendo derrotado pelo Palmeiras.

Em 1994 todos poderiam cair novamente, mas a repescagem voltou para os oito piores da primeira fase e acabou salvando o Cruzeiro, melhor que o Remo nesta fase por mais que na pontuação geral tenha sido pior. A repescagem também tinha a proeza de dar duas vagas diretas às quartas-de-final, enquanto que as demais seis vagas seriam disputadas pelos melhores times na segunda fase.

A repescagem não ficou para 1995 e as vinte e quatro equipes jogavam todas contra todas, apesar de estarem divididas em dois grupos que serviam para indicar os semifinalistas. No ano seguinte finalmente a fórmula seria mais fácil. Com o mesmo número de times, vinte e três rodadas e grupo único, classificando os oito primeiros para as quartas-de-final. Porém, nada podia ser tão simples no futebol brasileiro nessa época: Fluminense e Bragantino, que deveriam ser rebaixados pela pontuação na primeira fase, não caíram graças a um esquema de manipulação de jogos revelado meses após o término do campeonato — e que não os envolvia diretamente.

Para compensar o imbróglio do ano anterior, em 1997 quatro equipes caíram, e no resto a fórmula seguiu semelhante à anterior. Todos contra todos e oito sendo classificados. Fórmula repetida no campeonato seguinte.

Já para 1999 uma novidade: os quatro rebaixados seriam definidos com base em uma média abarcando o ano anterior e o corrente. A falta de sorte da CBF, todavia, não deixou mais essa ideia dar certo. Graças a um jogador irregular escalado pelo São Paulo, o Botafogo ganhou os pontos da partida com o tricolor e se livrou do rebaixamento, devendo então o Gama ocupar este lugar. O Gama recorreu ao STJD e com a derrota foi para a justiça comum, onde obteve uma vitória — a CBF deveria incluí-lo na primeira divisão seguinte. Já em junho de 2000 a CBF ficou impedida de organizar o campeonato brasileiro devido ao processo não ter sido julgado em todas as instâncias, repassando esta prerrogativa ao Clube dos 13 novamente, que por sua vez tentou excluir o Gama do seu campeonato mas foi obrigado por uma liminar a incluí-lo. A competição teria o nome de Copa João Havelange, sendo reconhecida desde já como o campeonato brasileiro oficial do ano de 2000.

Com toda essa confusão o torneio foi divido em quatro módulos com base nas divisões do ano anterior (com algumas exceções, como a do Fluminense que havia conquistado a Série C em 1999 e foi “promovido” diretamente para o equivalente à primeira divisão) e, para não repetir o problema de 1987, ficou definido desde o começo que os vinte e cinco clubes do então módulo azul — equivalente à primeira divisão — se enfrentariam em um turno único de onde sairiam doze equipes para as oitavas de final. Do módulo amarelo mais três clubes classificados e o campeão dos módulos verde e branco, totalizando os dezesseis necessários. Dos oriundos de módulos inferiores o Paraná parou nas quartas e o São Caetano surpreendeu o país chegando ao vice-campeonato, perdendo para o Vasco na final.

Para 2001 ficaram os 25 clubes que disputaram o módulo azul sendo adicionados o vice-campeão nacional São Caetano, além dos outros dois “rebaixados” de 1999 que ainda não estavam na primeira divisão — Paraná e Botafogo de Ribeirão Preto. Caíram quatro clubes com dois clubes ascendendo, oito classificados na primeira fase, quartas, semifinal e final. A fórmula foi repetida em 2002.

A partir de 2003 foi adotada a fórmula dos pontos corridos, com todos se enfrentando em dois turnos e quatro rebaixados. Em 2006 o campeonato atingiu o número de vinte equipes, considerado o ideal. Desde então, o número de quatro rebaixamentos e quatro acessos se estabeleceu.

Nossos maiores craques jogando aqui

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Zico e Reinaldo brilharam jogando por Flamengo e Atlético (Reprodução YouTube)

Já imaginou se o Brasileirão 2020 tivesse Neymar, Firmino, Vinicius Jr., Gabriel Jesus, Gabriel Martinelli e todos os melhores jogadores brasileiros jogando por nossos clubes? Durante muito tempo a grande maioria dos craques nascidos no Brasil jogava nos principais times locais. Mesmo que desde os anos 40 e 50 alguns astros tenham saído de nossas terras para brilharem em outros países, sobretudo da Europa e vizinhos de América do Sul, o mais comum era que ficassem por toda ou por quase toda a carreira em equipes brasileiras. Isso começou a mudar a partir da década de 80, quando a Serie A italiana foi aumentando o limite de estrangeiros permitidos por equipe, e até pequenos clubes da primeira e segunda divisão locais passaram a contratar grandes jogadores brasileiros. Já os anos 90 trouxeram a Lei Bosman que fragilizou ainda mais os clubes da América do Sul em geral frente ao assédios dos gigantes europeus aos seus destaques.

O novo século não apenas aumentou a migração para as principais ligas europeias, como trouxe a força de centros futebolísticos considerados “periféricos” como a Ucrânia, a Rússia e a Turquia. Além disso o mercado asiático, que já havia aparecido com a criação da J-League japonesa nos anos 90 — levando inclusive Zico em fim de carreira — , passou a contar com os petrodólares infinitos do Oriente Médio, com centenas de atletas indo jogar em países como Arábia Saudita, Kuweit, Catar e Emirados Árabes. Nos últimos anos foi a China que levou muitos valores brasileiros.

Esse fortalecimento financeiro de clubes de diversos países somado ao endividamento cada vez maior dos brasileiros impede essa situação de mudar a curto e médio prazo. Por mais que o caso Neymar tenha mostrado que algumas vezes uma equipe daqui pode segurar por mais tempo um talento, ultimamente tivemos vários exemplos de jogadores que mal haviam estreado nos campos brasileiros — e às vezes nem haviam — fechando com europeus e arrumando as malas rumo ao Velho Mundo.

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